A incrível arte da mudança. Isso tinha me passado milhares e milhares de vezes pela cabeça, mas jamais fui apto a assumir uma mudança pequena.

É estranho pra mim dizer que tenho medo de mudanças, é estranho dizer que não mudei minha rotina, meus ambientes, minha músicas, et Cetera, nos últimos anos. É estranho porque eu mudei demais.

Passei de um adolescente muito vivo e corajoso a um adulto enfastiado e envelhecido por dentro num piscar de olhos. Quando olho pra o que fui há uns anos atrás eu vejo uma alma enrugada, seca, com cheiro de poltrona e pus.

Com certo esforço, estanquei o sangue, limpei a ferida e ganhei uma batalha determinante para o que seria a minha vida.

Mudei de cidade, mudei de ares, mudei de cotidiano, mudei de área de atuação. Só não mudei de sexo porque gosto muito de ser homem.

Quando essa nova verdade estava começando a me matar novamente, quando eu estava voltando a ser uma alma enrugada, ergui a mão e pedi atenção, fiz gato e sapato e dei um jeito de realizar minha vontade.

Hoje sou muito mais correto comigo mesmo. Desprovido de moralidade e de ética. Sou casto comigo mesmo, sou puro na minha vontade, e pela primeira vez nos últimos sete ou oito anos isso significou parar de escrever.

Fiquei duas semanas sem escrever uma só palavra para meu site. Sem mexer com nenhum dos meus projetos de contos e romances. Pensei em várias poesias, que me escapavam tão rápido quanto tinham vindo.

Essa fugacidade das palavras, essa forma passageira com que belas poesias me passavam pela cabeça como se não fossem minhas parece com a vida, parece com um floco de neve.

Fiquei maravilhado com a emoção das pessoas quando viram a neve esse ano. É um fenômenos da natureza, simples, bonito e só. Mas por que tanto alarde? Fiquei me perguntando isso e só consegui encontrar uma coisa que me convenceu disso tudo. A efemeridade.

A neve é linda porque não podemos guardá-la, porque não a temos por muito tempo. Ela cai, fica no chão por algum tempo relativamente curto e se vai como se não estivesse nunca estado ali. Em países mais frios ela continua sendo bonita, mas não passa disso, e quando passa se torna pesadelo para a economia e a saúde.

Somos apaixonados por coisas que passam, por coisas que não podemos segurar na mão, coisas que quando agarramos se tornam fluidas e escorrem, deixam o cheiro e o calor nas mãos, mas num instante se foram.

Somos apaixonados pelo tempo e temos tanto medo de nos percebermos apaixonados que continuamos a vida sempre caminhando de costas para a filha do tempo, a morte.

Não foi em vão que Cronos foi o titã supremo dos gregos.

Ah, e antes que me perguntem: não sei se estou realmente de volta. Só vou escrever por epifanias, só por inspiração. E quem me conhece sabe que até Dilma poderia ser inspiradora, não fosse tão sombra.

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