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Mundos ideais
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Todos nós idealizamos uma espécie de mundo ideal, não um lugar dos sonhos, ainda que um sonho represente perfeitamente bem aquilo que, teoricamente, queremos.
Passamos dias, meses, anos imaginando, detalhando, aprimorando e destruindo um lugar que nos parece ser perfeito, uma situação queria o máximo da possível a uma vida experimentar nessa encarnação e um estado de espírito perfeito, harmonicamente dinâmico.
Pois é justamente aí que reside o principal e mais real (e, provavelmente o mais terrível) erro: o estado de espírito, a disposição anímica.
Se prestarmos atenção, são incontáveis as vezes em que o ideal se apresenta na nossa frente, nos dá a mão e nos convida para um passeio. Está tudo perfeito, tudo ótimo, e a vida é só café, flores, sol e amor.
Isso acontece repetidas vezes, muito mais do que somos capazes de avaliar e entender, simplesmente acontece e nós deixamos passar. Ou ficamos assistindo, ou deixamos escapar por desleixo, ou ainda, largamos da mão do perfeito e vamos em busca de outra coisa.
Nosso estado de espírito é como as cinzas de um cigarro fumado no sétimo andar em um dia de vento: saem voando sem rumo certo, e vão se despedaçando, virando partículas cada vez menores até que deixamos de enxergar.
O vento rasgou o dia e levou as cinzas.
A vida rasgou nossa força e levou nossa constância, somos espíritos inconstantes e medrosos, e é por isso que há a necessidade de construir um novo mundo ideal toda vez que outro, que já não serve mais, é destruído ou alcançado.
Não é a insatisfação que nos move, é o medo.
Viver de café e flores, sol e sexo, rock and roll e risos.
Os mundos platônicos vêm e vão, mas a nossa maior habilidade é ser constante em nossa inconstância. Mudar, mudar e mudar e nunca mudar de verdade.
do escrever
1Tenho uma ânsia de escrever da alma, do espírito, do universo e da vida, de coisas assim, mas que minha ânsia não limita ao escrever. Quero, um dia, quem sabe, ter tanta propriedade e sabedoria em minhas palavras para que alguma outra alma venha a utilizar alguma passagem do que digo como uma citação.
Nietzsche dizia que não escrevia para ser apenas lido, mas para ser decorado, talvez devesse acrescentar que também deveria ser compreendido, de cabo à rabo. Pois eu diria algo semelhante, gostaria de ter escrito inúmeras das frases e dos textos maravilhosos que já li em minha vida, como os fragmentos do livro Gertrud que postei anteriormente, como frases do Assim falou Zaratustra do Nietzsche, entre outros.
Quando leio Fernando Pessoa, mais precisamente Alberto Caeiro, sinto uma enorme vergonha de ter a pretensão de me chamar poeta (até mesmo pseudo-poeta ainda me é pesado). Queria ter escrito cada linha do Guardador de Rebanhos, assim, quando leio esse livro, sinto-me em casa, como se retornasse a mim mesmo por alguns segundos.
” Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflete o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.” Fernando Pessoa
Existem dias em que ficar calado é mais apropriado, pois que eu não quero profanar a alma de nenhum grande poeta e escritor que pisou ou pisa neste planeta. Hesse, Kundera, Pessoa, Augusto dos Anjos e muitos outros mestres da literatura que me perdoem, mas eu vou insistir.
re-pousa em ti
1Sim, eu te vi, e tu estavas linda
E era de ti que eu esperava minha felicidade
E é em ti que eu pouso minhas ilusões
Pois me é tão doce tua imagem, e tão alva tua presença
Ai de mim se sentisse de novo tua respiração
Se esse sopro pousasse em minha pele, eu seria reticências
Sim, eu te vi, e poderia ficar te olhando se suportasse pousar meus olhos nos teus
Porque se assim acontecesse, eu estaria trancado, eu ficaria preso
Em teu cárcere eu moraria de boa vontade
Porém, na minha alma eu sinto medo da gaiola
Assim, fingi não ter visto
M.O.
4E tentar negar um instinto
Deixar para trás o que a alma anseia
Já não me serve como servia a farsa
E se meu espírito for forte para esta empreitada
Para essa obra grandiosa
Haja em mim as luzes da vida em amor
Ao que é de mim e me faz a vontade verdadeira
Se uma rejeição de mim antes me forçou
A ficar num cárcere dourado
Hoje, assumir o trono sobre as ruínas me apraz
E se meus pés tocam a lama, minha cabeça encosta no nada
E meu coração reside no sol
Então, nisso tudo eu vejo um momento, seguido por outro momento
E nada mais do que sucessões temporais, privadas de sentidos alheios,
Eu vejo o rebanho e é só um rebanho
Eu vejo o mundo que chamam deus, mas eu chamo mundo
Nisso, minha alma aprendeu dos prótons e elétrons qual o spin da minha vida
Ressonando num só sentido, sentindo saborosos os frutos da entropia, a qual respiro com alegria
Ai de mim que estou no ocaso
Ai de mim que sou aurora
Ai dos barrocos e dos existencialistas, ai dos românticos e dos classicistas
Ai do que anseia por ser eterno
Ais e ais e ais sem um sentido
Se não fosse da mudança a vida feita, onde estaria nossa felicidade?
interlude
0Era hora fora de chão, rala, parca, era hora e havia em mim a combustão completa dos sentidos, eu era abstração, abstrato, absorto, pois que da queima restou ausência de mim manifesta em carbono e água, a liquidez de emoções estancadas, sensações estagnadas, num barco onde eu remava com pensamentos circulares.
Tinha cheiro de infância, aquele oceano, porém, era imóvel, suas ondas não me lançavam à frente nem me atrasavam. Eu via, sob as águas alvas, a ânsia imediata da criança cheia de vontade, e quanto mais essa criança crescia, mais vinha o adulto cheio de si, vazio de mundo.
Fiquei horas mergulhado nessa introversão caótica, e essas horas de minutos se tranformaram em dias de anos que não soube medir. Voltei de lá com as notas de timbre claro da infância, mas, como se fossem areia em minhas mãos, escorreram. As outras notas, as de hoje, porém, ficaram, seu timbre opaco formou uma harmonia densa, espessa e pegajosa, como se pesasse e grudasse em minhas mãos.
À grande hora do absurdo seguia-se um interlúdio para retornas às gentes. São, a mim, dois universos demasiadamente distintos, um habitado por anjos e arcanjos coloridos e cheios de poder, outro por tédios, banalidades e vilanias. Eu sou, ainda assim, bruto, um rude desencontrado, assistindo a minha comunicação falhar, faltar, para que me seja impossível compartilhar.
Quando é noite e a lua me visita, vou ao outro lado, e lá bebo e comemoro em gozo, pois desses prazeres aprendi a mestrar, e reger seus ritmos me agrada, porquanto o tédio não se me venha visitar novamente.
Sinto saudade da coxilha dos ventos, onde os trigais se balançavam em ondas harmônicas, simétricas, suaves, como se fossem regidos por Mozart, como se tivessem mãos para acariciar e acalentar minha alma. Hoje, afasto essa saudade com os afagos dum corpo igualmente suave, sutil, cheirando à óleo de castanha ou buriti, e ela a mim agrada o corpo, arrefece minha pele, e enterra os pensamentos circulares.
Quando, em mim, ela termina sua sede, eu ainda estou hirto, e minha sede nunca cessa, nunca cessará, é, pois, uma ânsia de infinito. Nela, entretanto, só vejo o gozo atendido, como uma criança, o corpo desfalecido em cansaço e suor, e ali está bem claro o limite, contrário ao meu infinito, e teimo comigo para circunscrever aquele pequeno planeta, e assim vou, tal um corpo celeste negro, um halo ao avesso, murcho flores, empalideço cores para alimentar de vida o monólogo daquela combustão, aumentar a chama com o carvão dos corpos que gemem e gozam em mim.
Era uma tarde de verão, e os vendedores de picolé cruzavam as ruas. Ela tomou em suas mãos um picolé mini-saia, até hoje o cheiro e o gosto me seguem, chupou o doce com vontade e gula insaciável. Acho que tomei para mim a parte do insaciável e deixei ela chupando o picolé como se quisesse de volta o que eu havia lhe tirado.
Esse escárnio que hoje vês em meu sorriso é a ironia que lanço ao espelho, pois são tão carente de mundaneidade quanto uma sombra de seu dono.
Ao conversar, olho nos olhos das pessoas, elas desviam o olhar constantemente, como se eu pudesse lhes roubar algo, bem que eu gostaria, mas o que desejo já lhes falta, e não foi tomado à força, mas esquecido numa fila, esperando. E seus globos são vagos, suas órbitas tangentes à verdade.
Quanto mais caminho pelos ermos do meu mundinho, quanto mais das minhas miudezas me torno consciente, tanto mais doloroso, demorado e inútil se torna meu interlúdio.
Que tal terminar a sonata e ir para o próximo ato?