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Viagem a Cruz Alta

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            Notei o quanto estou perdendo a habilidade de meditar e de ser uma pessoa paciente ontem à noite, no ônibus, vindo para Cruz Alta. Mal tinha saído de Chapecó e já queria fazer alguma coisa, além de ouvir música do mp3.

            Pensei em acender a luz e fazer palavra cruzada, ou ler (pela trilionésima vez) O Guardador de Rebanhos do Fernando Pessoa (ou seria do Alberto Caeiro?), ou ligar o notebook e escrever, ou jogar Neverwinter Nights, enfim, nada me dizia para ficar sem fazer nada, exceto a moça que viajou do meu lado. Não, ela não me disse para que eu ficasse quieto, até porque eu ainda estava quieto, mas ela estava num estado entre sono e vigília, assim todos do ônibus pareciam estar (a não ser o motorista, eu espero), um silêncio protestava contra minha ansiedade, e é proibido fumar dentro dum ônibus.

            Então o que eu fiz foi fechar os olhinhos, respirar em pranayama (certo que só depois de usar meu descongestionante nasal), e tentar tirar a consciência do corpo, isso nunca falhou. Dormi tanto, a viagem toda, acho que acordei quando o ônibus parou em duas rodoviárias apenas, e por pouco não acordo quando ele chegou aqui em Cruz Alta.

            Preciso recomeçar meus exercícios de meditação, pranayamas e padmasanas, por mais que não sejam muito do meu fito, são enormemente úteis para essas e outras coisitas mais.

Parte Oitava – Interlúdio

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Chegamos no templo naquele dia, completamente vazio o lugar, completamente vazia minha alma, esta, porém, não de uma forma triste ou melancólica, era um vazio racional, mais para a compreensão, mais para a presença de tudo em vez do nada.

Acreditava-me em plena aventura agora, oscilando entre humores e pensamentos contraditórios, quase excludentes.

Enquanto caminhávamos pela entrada de chão batido, cercada por uma grama extremamente verde, eu lançava olhares superficiais para as folhas que me foram entregues. E foi nessa distração proposital que paramos em frente a uma cabana. Em pé, na frente da porta, estava um senhor de uns cinquenta anos, com barba por fazer há mais de uma semana e cabelos compridos, ruivos, presos. O homem tinha cerca de um metro e oitenta de altura, tinha aparência vigorosa e sorridente.

A Bê percebeu a presença dele antes de mim, e já se adiantou em direção a ele, que a cumprimentou calorosamente: certamente sabia da nossa visita. Eu cheguei logo em seguida para cumprimentá-lo. Ele falava um portunhol forçoso, tinha sotaque de britânico nos seus erres e vogais.

Ali, naquele momento único, eu percebi onde tudo se ligava. Das raízes de Thelema, do instrutor ao discípulo, eu acabara de ser enviado para a cidade das minhas mais íntimas pretensões, ali encontraria o triunfo sobre meus anseios ou a desistência mais inexorável.

- Como tu cresceste, Daniel, lembro-me de quanto íamos na tua casa, nas festas de final de ano, eu e minha esposa. Seus pais nos eram muito amigos antes de se mudarem, e eu enxergava, desde o dia em que reparaste na minha aura, que tu tomarias tal caminho.

- Então você conhece meus pais? Mas eu não lembro de você, nem da sua esposa. Disse isso meio desconfiado, tentando disfarçar o receio da minha voz, com insucesso.

- A Marta conheceu tua mãe quando foi fazer a matrícula do nosso filho no colégio, tua mãe estava lá fazendo a tua. Uns dias depois eu conheci teu pai em uma reunião, logo ficamos chegados, e eu sabia que não era coincidência, na época não soube avaliar minha responsabilidade nessa empresa, mas hoje consigo enxergar.

Olhou-me com olhos de alegria, olhou para a Bê logo em seguida.

Eu me senti estranhamente em casa, despido de coisas desnecessárias que há tempos vinha carregando, era o vazio mais profundo e completo que poderia experimentar, lembrei da história do monge que “acordara” para o mundo espiritual quando recebera um tapa de seu mestre, como as coisas podiam ser simples e corriqueiras, tanto que, normalmente, nas confusões da nossa rotina, passam por nós desapercebidas.

Convidou-nos para entrar antes de nos apresentar o lugar, nos ofereceu chá e alguns biscoitos. Ele percebeu meu olhar de curiosidade para o salame pendurado ao lado da geladeira. Eles tinham luz lá, e ele me explicou que nem todos eram vegetarianos, santos, monges, budistas, algumas pessoas simplesmente passavam alguns dias de descanso por lá, assim como nós.

Enquanto colocava um tênis, falou, como quem comenta fatos diários, que eu deveria decorar algumas passagens dos papéis que me foram entregues, também foi sucinto ao citar as práticas que deveriam ser realizadas, impreterivelmente, ao nascer do sol, ao meio-dia, ao pôr-do-sol e à meia-noite, a prática constava no Liber Resh vel Helios, e que em uma semana eu deveria receber o próximo grau da ordem em uma cerimônia mágicka.

Eu lembro daquela semana como a mais viva de todas que tive até hoje, a mais cheia de cores e de sons, de cheiros e de sensações, e a perfeição disso tudo se misturava às obrigações mágicas e aos deveres domésticos daquela parte do templo. Tudo era um imenso ritual, cheio de significado por todos os lados.

O transe de uma situação muito bem preparada é terrivelmente superior ao transe obtido por acaso numa exaltação momentânea do espírito. Nunca terei subtraído de mim as visões e vozes daquela noite, minha consciência superlativa, um poder quase sobrenatural, e minhas noites jamais tiveram o mesmo gosto de intervalo, de morte.

Continuo sem coragem de comentar sobre essa viagem com qualquer pessoa que não seja a Bê, nem mesmo perguntei aos meus pais acerca do britânico Alexander, casa com a brasileira Marta, contudo, às vezes me parece que eles sabem de tudo, às vezes me parece que muitas outras pessoas sabem, e penso que estou constantemente sendo vigiado e preparado para uma prova maior.

[Veja também: Válvula de Escape]

Parte Sétima

3

              O cansaço era grande, mas fiquei supreso ao perceber que logo depois que decolamos a Bê já estava dormindo. Parecia tranquila. Enquanto a viagem tomava ares de suspense para mim, o que parecia um simples ir, como se no caminho tudo fosse se esclarecendo, agora parecia que eu remava num oceano viscoso, gelatinoso, e que a noite ia caindo cada vez mais densa.

                Contudo, foi bom que ela estivesse dormindo, pude abrir o pacote com calma e uma certa privacidade. Havia ali um baralho do Tarô de Thot, desenhado pela Frieda sob orientação do Crowley, as lâminas eram grandes e de cores vivas, ele estava envolvido num tecido aveludado preto. Havia alguns textos de instrução interna e rituais da Ordem, bem como alguns exercícios de meditação e uma carta de um Adeptus Major.

                Na carta havia uma frieza enorme, nenhum tipo de encorajamento, congratulações, nada disso, e logo me repreendi por ter expectativas desse tipo, não deveria esperar nenhum elogio nem repreensão, ainda que esta última servisse bem. Com a roupagem thelêmica, a Ordem deixava seus membros relativamente livres sobre seus próprios caminhos. O irmão que escrevia assinava sob o pseudônimo de A., e dizia diretamente acerca de um irmão que estava há cerca de oito anos naquele templo para o qual eu me dirigia, me dava instruções de como me apresentar a ele e de como proceder para receber a iniciação nos mistérios que aquele homem guardava. Sentia meus dedos formigarem enquanto segurava aquelas folhas, parecia surreal, como poderiam saber sobre meus rumos? Parecia que cada passo meu era vigiado, e isso tirava de mim o conceito de que eu era vigiado unicamente por meu Ser Interno, e somente a Ele prestava contas.

                Ainda assim, senti que estava caminhando na direção correta. A carta era incisiva no que dizia respeito às práticas e às meditações, citava as que eu deveria realizar obrigatoriamente, e que eu poderia modificá-las de acordo com a minha Verdadeira Vontade.

                Fechei os textos numa pasta, guardei tudo na minha mochila e lembrei que precisava de uma caneta e um bloquinho de anotações.

                Naquele vôo dormi e sonhei. Eu estava dentro de um templo da Golden Dawn, a luz era fraca, os irmãos vestidos com seus robes dos seus respectivos graus e cargos, quem presidia a cerimônia era uma mulher, mas eu não via seu rosto, que estava sob a sombra de um capuz. O sonho era repleto de sinestesia, haviam luzes cruzando o ar como névoas coloridas saindo das cabeças das pessoas, das mãos, dos peitos e também dos símbolos. Eu estava em pé, de frente para um altar, com uma cruz equilátera que tinha uma rosa no centro, um cálice, um pedaço circular de madeira com algumas inscrições e uma adaga. Depois, sem um link objetivo, me vi numa cripta, meio oval, apertada e silenciosa, havia um caixão ali, ao me aproximar vi a minha imagem, mas não sentia como se fosse eu, ainda assim o choque foi grande, e acordei com a voz da comissária avisando que estávamos prestes a pousar em Córdova.

                  A riqueza dos detalhes do sonho me deram a impressão de que tudo fora real, fiquei com essa sensação o resto da noite. Quando desembarcamos eu me sentia mais cansado do que antes, sugeri que fôssemos para um hotel passar a noite.

                Pedimos ajuda para o próprio hermano taxista para que nos deixasse em um hotel bom, porém, não muito caro. Ele nos levou ao Grand Astoria Hotel. Os preços não eram tão suaves assim, mas depois de um pouco de choro, conseguimos um quarto de casal por R$110,00. Peguei a chave do quarto enquanto a Bê olhava uns jornais numa mesa ali perto. Fomos para o quarto, largamos nossas coisas no chão e tomamos banho. Enquanto a Bê saía do banho eu me vestia. O quarto tinha calefação, estava quente, então fiquei apenas de bermuda.

                O domingo amanheceu com sol, via a claridade passando pela cortina. A Bê acabara de levantar, sua pele era bege, não muito clara, porém, bastante suave. Ela não viu que eu havia acordado e foi ao banheiro. Eu me levantei para olhar pela janela e afastar os pensamentos do sonho que ainda me afetava e arrefecer os hormônios que se acumulam no corpo do homem enquanto dorme. Já era nove e quinze da manhã.

 

[Veja também: Válvula de Escape]

Parte Sexta

3

                Era um olhar intenso, porém, desprovido de qualquer intenção perceptível, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.

                Algo me atraía naquela mulher, não era propriamente a beleza dela, pois que ela não era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabeça. Minha atenção era para sua expressão, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mistério pedindo para ser revelado. Nessa atração incoerente eu me vi perdido. A Bê me olhou, pois havia diminuído o passo.

                – Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.

                – Como assim? Ela respondeu, com um misto de espanto e graça, e continuou, agora mais convicta de que eu estava apenas brincando. E o que tu vais dizer pra ela? Vais, por acaso, cantar a mulher aqui? Eu fico esperando, não tem problema. E riu.

                – Não sei o que dizer. E não, eu não vou cantar ela.

                Já estávamos quase em frente a ela quando a Bê parou. Eu dei mais três passos e parei bem na frente da mulher, que se levantou, me olhou fixo por alguns breves segundos que pareceram cheios de significado. Seus olhos perspicazes analisaram minha fisionomia rápida e friamente, eu o percebi como se fossem revirados meus pensamentos e idéias.

                – Marta. E o seu?

                – Daniel. Respondi com calma na voz, mas com a respiração um pouco nervosa, nesse momento nem percebi o sotaque gaúcho dela, que não era correntina, como descobri horas depois.

A Bê estava olhando.

                – Eu sei da estranheza da situação, vir a me encontrar aqui, assim, quase por acaso. Uma pausa na fala dela, e uma pausa em mim mesmo, estava suspenso  e confuso. Se você perdeu sua visão, você não tropeça em alguma coisa uma vez só, mas continuaria tropeçando de novo até recobrar o sentido perdido. Deve conhecer essa frase.

                – Sim, é de um comentário do Crowley aos probacionistas da Golden Dawn.

                – Pois bem, até então você tropeçou, vem tropeçando há tempos, e agora conseguiu assumir a responsabilidade de se encarar. A Ordem se move por modos sutis, e nesse mundo de câmeras e internet e informação, ficava fácil rastrear nossos membros. Pois bem, foi-me dado isto para lhe entregar, e espero que seja útil.

                Recebi nas mãos o embrulho, leve, provavelmente algumas cartas, rituais, não sei, não quis abri-lo ali. A Bê estava quase ao meu lado já, e observava Marta com curiosidade, e esta também lhe voltou os olhos. Como eu estava nervoso, a Bê parece ter assumido minhas palavras e convidou a Marta para ir a algum restaurante, ou bar, acrescentou que já sentia fome novamente e seria ótimo ter uma companhia para nós dois.

                Fomos até um um bar ali perto, bem bonito, com mesas e cadeiras de aço na calçada, mas devido ao vento gelado resolvemos entrar. Ficamos numa mesa perto do janelão de vidro, de frente pra rua. Pedimos uma cerveja e uma porção de filé.

                Eu tinha a impressão de já conhecer aquela mulher. Certamente ela era brasileira, quase tinha certeza de que era gaúcha. Eu tinha amigos thelemitas, tinha parentes em Porto Alegre, enfim, o mundo é pequeno, às vezes as coisas podem parecer incríveis mas ao se investigar um pouco a fantasia cai por terra, e a simplicidade toma conta novamente. A simplicidade é como uma Lei da Física, ondas eletromagnéticas procuram o meio mais rápido e curto para se propagar, nós, infelizmente, nem sempre seguimos tal hipótese, e isso parece incorrer em diversos contratempos e estresses psicológicos.

                Ficamos um tempo ali sentados, e eu estava dentro do pacote, sem abrí-lo. Meus olhos, meus pensamentos, por momentos insustentáveis ficaram presos naquele pacotinho, e naquele tempo esqueci de qualquer outra coisa, era como um encantamento. Ouvia apenas as vozes das duas belas mulheres comigo, e somente sexo me tiraria a atenção dessa surpresa. Marta era bonita ao seu modo, Bê era linda de vários modos, mas eu não podia pensar em sexo com nenhuma das duas, apesar de não ter visto nenhum anel de noivada ou casamento na mão da Marta.

                Finalmente me dei contade de que deveríamos sair dali, não sabia quanto tempo demoraria para ir de taxi até o aeroporto. A nossa aparição correntina nos ofereceu carona até o aeroporto, o que poupou-nos uns bons pesos argentinos. Fui no banco da frente, então entrei na conversa e deixei de lado um pouco o embrulho. Perguntei quem havia pedido a ela que me fizesse essa entrega, ela desconversou, falou de rituais, de símbolos, tudo conhecido por mim e pela Bê. Eu sabia que o que os Mestre da Ordem Interna decidissem não seria tão facilmente divulgado, logo me contentei com o que tinha até aqui. O pacote continuava fechado.

                Ao nos deixar no aeroporto me entregou um cartão, e, enquanto eu o lia, ela se despedia da minha companheira de viagem com um abraço. No cartão dizia que ela era advogada, tinha números de um escritório, de seu celular e um e-mail, além do nome completo: Marta de Souza.

                Às 23h estávamos dentro do avião, cheirando a cerveja e cigarro. Queria abrir logo aquele pacote, não sabia se devia fazê-lo sozinho ou na frente da Bê. Ficar sozinho nesse vai-e-vem seria difícil. Resolvi abrir logo depois da decolagem, antes do sono chegar.

 

[Veja Também: Válvula de Escape]

Parte Quinta

3

                – Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.

                Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.

                Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.

                Aos poucos ela pareceu ir desistindo da idéia de voltar para casa.

                Saímos do café e passeamos mais um pouco, agora longe dos pontos turísticos. Contei do que acontecera comigo nos anos em que estive fora da cidade, das namoradas, das crises, dos meus vínculos com a magia e ordens espirituais, dos sucessos e insucessos com algumas experiências ritualísticas e meditativas, etc. Por essas aventuras, que sabia que ela também passara, eu queria que ela fosse comigo a Córdova. Apesar das nossas conversas não conseguirem atingir os pontos anímicos que eu queria, pois nossa comunicação é tão limitada, sabia que nos entendíamos, ou, ao menos, nos entenderíamos em algum momento.

                O ocaso vermelho estava no fim, e o frio começava a tomar espaço com um vento gelado. Paramos numa lan house, na frente havia um orelhão, de onde liguei para o aeroporto para saber do próximo vôo para Córdova: once horas de la noche, respondeu a atendente. Era quase sete e meia da noite, tínhamos ainda mais de três horas por lá e nenhum lugar para ficar.

                Depois de sair da lan, caminhamos até chegar na Praça da Liberdade. Já estava escuro, mas o lugar era bem iluminado, vi um grupo de pessoas num banco fumando, bebendo e falando alto, eram roqueiros, todos tinham um estilo meio glam rock, e havia um violão escorado ao lado deles. Mais perto de nós havia uma mulher sentada sozinha, olhando diretamente para nós. Ela não fazia nada, quero dizer, não tinha livro nas mãos, não bebia nem fumava nada, não ouvia música, apenas olhava diretamente para nós como se quisesse falar conosco, como se soubesse que estaríamos ali. Uma sensação estranha percorreu meu corpo junto com uma brisa gelada.

 

[Veja também: Válvula de Escape]

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