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Viagem a Cruz Alta
2Notei o quanto estou perdendo a habilidade de meditar e de ser uma pessoa paciente ontem à noite, no ônibus, vindo para Cruz Alta. Mal tinha saído de Chapecó e já queria fazer alguma coisa, além de ouvir música do mp3.
Pensei em acender a luz e fazer palavra cruzada, ou ler (pela trilionésima vez) O Guardador de Rebanhos do Fernando Pessoa (ou seria do Alberto Caeiro?), ou ligar o notebook e escrever, ou jogar Neverwinter Nights, enfim, nada me dizia para ficar sem fazer nada, exceto a moça que viajou do meu lado. Não, ela não me disse para que eu ficasse quieto, até porque eu ainda estava quieto, mas ela estava num estado entre sono e vigília, assim todos do ônibus pareciam estar (a não ser o motorista, eu espero), um silêncio protestava contra minha ansiedade, e é proibido fumar dentro dum ônibus.
Então o que eu fiz foi fechar os olhinhos, respirar em pranayama (certo que só depois de usar meu descongestionante nasal), e tentar tirar a consciência do corpo, isso nunca falhou. Dormi tanto, a viagem toda, acho que acordei quando o ônibus parou em duas rodoviárias apenas, e por pouco não acordo quando ele chegou aqui em Cruz Alta.
Parte Oitava – Interlúdio
3Chegamos no templo naquele dia, completamente vazio o lugar, completamente vazia minha alma, esta, porém, não de uma forma triste ou melancólica, era um vazio racional, mais para a compreensão, mais para a presença de tudo em vez do nada.
Acreditava-me em plena aventura agora, oscilando entre humores e pensamentos contraditórios, quase excludentes.
Enquanto caminhávamos pela entrada de chão batido, cercada por uma grama extremamente verde, eu lançava olhares superficiais para as folhas que me foram entregues. E foi nessa distração proposital que paramos em frente a uma cabana. Em pé, na frente da porta, estava um senhor de uns cinquenta anos, com barba por fazer há mais de uma semana e cabelos compridos, ruivos, presos. O homem tinha cerca de um metro e oitenta de altura, tinha aparência vigorosa e sorridente.
Parte Sétima
3O cansaço era grande, mas fiquei supreso ao perceber que logo depois que decolamos a Bê já estava dormindo. Parecia tranquila. Enquanto a viagem tomava ares de suspense para mim, o que parecia um simples ir, como se no caminho tudo fosse se esclarecendo, agora parecia que eu remava num oceano viscoso, gelatinoso, e que a noite ia caindo cada vez mais densa.
Contudo, foi bom que ela estivesse dormindo, pude abrir o pacote com calma e uma certa privacidade. Havia ali um baralho do Tarô de Thot, desenhado pela Frieda sob orientação do Crowley, as lâminas eram grandes e de cores vivas, ele estava envolvido num tecido aveludado preto. Havia alguns textos de instrução interna e rituais da Ordem, bem como alguns exercícios de meditação e uma carta de um Adeptus Major.
Na carta havia uma frieza enorme, nenhum tipo de encorajamento, congratulações, nada disso, e logo me repreendi por ter expectativas desse tipo, não deveria esperar nenhum elogio nem repreensão, ainda que esta última servisse bem. Com a roupagem thelêmica, a Ordem deixava seus membros relativamente livres sobre seus próprios caminhos. O irmão que escrevia assinava sob o pseudônimo de A., e dizia diretamente acerca de um irmão que estava há cerca de oito anos naquele templo para o qual eu me dirigia, me dava instruções de como me apresentar a ele e de como proceder para receber a iniciação nos mistérios que aquele homem guardava. Sentia meus dedos formigarem enquanto segurava aquelas folhas, parecia surreal, como poderiam saber sobre meus rumos? Parecia que cada passo meu era vigiado, e isso tirava de mim o conceito de que eu era vigiado unicamente por meu Ser Interno, e somente a Ele prestava contas.
Parte Sexta
3Era um olhar intenso, porém, desprovido de qualquer intenção perceptível, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.
Algo me atraía naquela mulher, não era propriamente a beleza dela, pois que ela não era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabeça. Minha atenção era para sua expressão, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mistério pedindo para ser revelado. Nessa atração incoerente eu me vi perdido. A Bê me olhou, pois havia diminuído o passo.
– Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.
Parte Quinta
3– Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.
Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.
Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.