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A incerteza do futuro

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Continuando as tradicionais análises mundo-humano/mundo-animal, ontem tive mais um insight nem um pouco brilhante sobre nossa possibilidade de mudar nosso destino.

Estava terminando minha corrida sábado à tarde quando começou a ventar bastante. Nessa ventania que se iniciava e prenunciava temporal vi folhas e flores voando, nuvens fechando o céu que, pouco tempo atrás, era claro e, o que me chamou atenção, um mosquito sendo simplesmente arrastado pelo vento, sem possibilidade nenhuma de se defender daquela força que ultrapassava em muito sua capacidade de resistência.

Um vento forte varre um mosquito para longe. Um vento muito forte pode destruir casas e, infelizmente, vidas.

A natureza é espetacularmente devastadora.

Agora, quero ir além da força da natureza, não quero falar das vezes que ela, em toda sua força, arrasta tudo para longe, quero pensar sobre as sutilezas que nos cercam sem que nos demos conta, aquelas que vão nos moldando, nos direcionando, pouco a pouco, por caminhos que, se formos um pouco deterministas, podemos chamar de “mão única”.

Quando assisti ao filme Mr. Nobody fiquei maravilhado com a hiperbólica cena em que uma borboleta voa, o vento de suas asas move algumas folhas formando um vento mais forte em um bosque, desse bosque uma folha seca se desprende e voa até a calçada fazendo um homem cair e ser ajudado por uma mulher que passava por ali. Resumo da ópera: os dois se casam e têm um filho.

Talvez nossa vida seja assim, decidida fatalmente não em momentos únicos, mas em eventos extraordinariamente exclusivos e fora do nosso controle. E se não tivéssemos caído de skate e quebrado a perna aos doze anos de idade? E se tivéssemos ganhado aquele campeonato? E se não tivéssemos pegado exame naquela matéria? Se tivéssemos passado no vestibular? E se tivéssemos amado mais? Ou melhor: e se tivéssemos amado melhor?

Não podemos prever uma falha na rampa nem um jogador excepcional no time alheio. Não sabemos as questões que cairão na prova nem no vestibular. Não podemos, até onde sei, controlar de forma satisfatória nossas emoções, as nuances que envolvem as idas e vindas dos nossos corações se escondem no espírito, no inconsciente, e seus caminhos são muito mais complexos do que um tapa do pai ou um mimo da vó. Talvez ter olhado cinco minutos a mais para um pôr-do-sol bonito tenha nos feito ter pensamentos espessos, densos, que nos fizeram mudar completamente nosso comportamento emocional.

A vida não pode ser calculada.

Em outra cena do mesmo filme, o personagem recebe um bilhete com o telefone da mulher que amava escrito a caneta. Porém, naquele instante, uma chuva torrencial repentina faz com que um pingo caia bem na tinta recém colocada no papel, e o telefone se apaga, e essa chuva foi ocasionada por um, no caso do filme, brasileiro que matou o trabalho e esqueceu um ovo cozinhando na sua cozinha, o vapor fez com que, no outro hemisfério, acontecesse tal temporal.

Será que, agora mesmo, nossa vida não está sendo determinada por algo que vai muito além da nossa capacidade cognitiva? E será que átomos, ondas eletromagnéticas ou a mais nova famosa matéria-escura não estão, igualmente, interferindo incessantemente nas nossas “escolhas”? Será que o homem vai cruzar a corda-bamba que para o lado do macaco ou do Übermensch?

Memórias sem luz

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Ele havia encostado o revólver sob seu queixo. Ele pensou em como era engraçada a sensação do aço gelado encostando sua pele, era como se experimentasse o tato através de outra pessoa, não sentia, de verdade, que era ele quem segurava o peso daquela arma, escura, carregada de pólvora e chumbo e de medo e angústia.

Não tremia, um segundo do frio na sua pele parecia representar anos e anos de vida marcada pela falta de presença de si em si, sempre como se assistisse um teatro, em fato, a vida acabava lhe parecendo uma enorme galeria de personagens, e ele era livre para pegar e largar o papel que quisesse a hora que bem entendesse, era assim que se relacionava com os outros, com o mundo, mas não consigo.

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