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Fragmentos – Gertrud (II)
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HESSE, Hermann. Gertrud. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
“E nisso ocorreu-me uma sentença de Muoth que repeti ao meu pai. Muoth dissera, certa vez, se bem que não a sério, que considerava a juventude como o período mais difícil da existência, e que achava que as pessoas idosas são, nas mais das vezes, muito mais alegres e contentes do que os jovens. Meu pai riu e depois, pensativo, opinou:
cena ii
2Estou lendo o jornal do dia num café no centro da cidade, são quase onze horas da manhã. Meu café está quente e forte, por isso o tomo devagar, com calma, e assim posso, também, observar bem o lugar em que me encontro.
Lá fora está frio, mas aqui dentro não, tem uma lareira atrás de mim, a umas três mesas de distância, que esquenta o ambiente.
Há na minha frente uma moça, deve ter uns trinta anos, isso já me faz crer que deveria estar vendo meus netos se formando no ensino médio. Pois bem, a mulher carrega no colo uma criança, e por isso me remeti aos meus netos, deve ter quase dois anos de idade, tem olhinhos azuis e cabelos loiros e crespos, um anjinho, faz-me lembrar minha filha quando era criança. A jovemzinha acaba de me dar um sorriso tão belo que senti vontade de chorar, não sei porque, acho que a idade este me deixando mole, mas apenas esbocei um sorriso o mais simpático possível. Realmente, parecia um anjinho, e brinca com seus dedinhos como se o mundo inteiro estivesse ali, nada mais, nada além, e seu riso suave chegava aos meus ouvidos fazendo com que, involuntariamente, meu sorriso seja mantido.
Eis que me distraio. Um casal acaba de entrar no café. Ambos devem estar na casa dos vinte e poucos, com certeza menos de vinte e cinco. Ele usava roupas pardas e tinha passos firmes, a abraçava pela cintura. Ela usava roupas mais claras, e seus olhos brilhavam pela companhia do rapaz. Tem coisas que apenas a idade nos faz perceber, esses vários anos de experiência podem trazer certa sabedoria à alma, certo que não sou nenhum sábio, mas já não sou tão inocente e ingênuo como fui em minha juventude. Ele puxou a cadeira pra ela sentar, tirou o casaco e colocou na cadeira e depois se sentou.
Ouço uma música ambiente no café, é um blues, e isso me faz lembrar de quando morava na Inglaterra, quando ainda era produtor de discos. Tomei um gole do café, e voltei os olhos ao jornal. Meus pés batem no ritmo da música que toca, é tão bom sentir esse ritmo, a mulher que canta tem uma voz agradável, forte e ao mesmo tempo suave. O casal que entrou depois sorri, a mocinha agora brinca com um guardanapo que pegou na mesa de sua mãe.
O que não daria pra ela estar aqui agora, minha companheira, observando essas cores, sentidos esses cheiros, pulsando o ritmo da música, quem sabe até arriscando um vocalize sobre a base tocada. Ah, nem a velhice tirou a beleza e o brilho dos olhos daquela minha doce companheira, mas o tempo veio arrancá-la de minhas mãos.
Já não presto atenção no jornal. Olho em volta novamente enquanto busco a xícara para tomar o último gole restante ali, e nem está mais quente. Levanto, dou uma olhada para o casal, e não posso negar, há ciúmes nos meus olhos, mas há ainda mais uma espécie de alegria compartilhada, sinto feliz de ver que nem tudo mudou, apesar da distância das pessoas ainda pode haver sentimentos. Sorrio para a criança, e ela me abana com a mãozinha que agora estava na boca, meio babada. Pago meu café, enrolo o cachecol no pescoço e saio. Mas a voz do blues do café ainda soa na minha cabeça, balançando minha alma como se a ninasse, evocando memórias como se me colocasse num sonho.
tirando os pregos
0Escarro nessa bandeira pálida da moral.
Cuspo no bem e no mal – já não se sabe o que é valor.
Se a virtude é ser decrépito, caminhar de costas em direção à própria cova, prefiro não ser virtuoso.
Se valoroso é aquele que esquece do corpo e da realidade tangível para se refugiar numa fé em além-mundos, quero estar longe desse valor.
Não há função na flagelação, senão conhecer os próprios limites. É a arte de conhecer o prazer e a dor, isso nos provê conhecimento de si. Agora, como poderia eu crer em um deus que bonifica aquele que maltrata o próprio templo?
A divindade está na realidade, nas matizes mais diversas, no rato e na borboleta. Orar é agradecer a si mesmo também.
Causa-me náuseas esse culto à senilidade, às olheiras do ascetismo, às túnicas negras e cheirando a velhice dos sacerdotes. Recuso e refuto essas sandices.
A razoabilidade está no mundo real, ali está tudo que é divino e sacro. O nosso deus é um deus de liberdade e força, de poder e de evolução. O nosso deus grita: basta com a negação da criação; saí sob as estrelas e brincai, minhas crianças!