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A carne que se trai
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Ela tinha os lábios brancos ainda quando ele os olhou, quando sua própria boca parou de tocar a dela. Logo o sangue voltou a circular normalmente, mas naqueles segundos em que os lábios dela estavam pálidos ele pensou que iria perdê-la… para sempre.
Suas mãos seguravam a carne, o que antes eram braços passou a ser carne, pele, osso e pressão; talvez, um ponto de referência, algo para se agarrar em segurança durante um tornado, não sem o sentimento de desespero.
Ela olhava com olhos de ressaca: era dissimulada. Tentava negar em sua face a leve sensação de dor que aquelas mãos lhe traziam aos braços. Queria dizer com sua expressão “ei, você me perdeu, não adianta me segurar”; queria, contudo, dizer de verdade “ei, por que assim? Por que fez isso? Por que estragar desse jeito?”. Por fim, disse com uma voz baixa, firme, rouca e incolor “me solta”.
Havia muito sangue em suas veias; ele estava confuso, cego e despreparado.
Acabara de beijá-la como se fosse o último beijo, seus lábios quentes se encontraram em um espaço salgado, temperado pelas lágrimas de arrependimento e consciência. Ele sabia o que viria a seguir, mas não queria aceitar.
Ela acabara de beijá-lo de volta, não estava sonhando. Mas como podia ser tão fria?
Me solta, ela repetiu com uma voz glacial. Ele aliviou a pressão, mas não soltou, não poderia soltar.
Duas toneladas de segredo lhe pesavam os ombros. Não era o que ela sabia, era o que já tinha feito, tudo lhe pesava e lhe ardia. Seus dedos que seguravam a carne queimavam como se fosse o braço dela que lhe agarrasse e torcesse as falanges.
Ela queria dar-lhe um tapa e gritar de dor, chorar lágrimas quentes e salgadas. Ela queria ficar histérica por alguns instantes e acreditar que depois disso tudo ficaria bem, que era tudo uma brincadeira de mau gosto.
Seus olhos, os dela, castanhos claro, marejavam, e uma só lágrima rolou fervendo, quase vapor, sobre sua boca, e a respiração ofegante fez-la voar. Se pudesse congelar o instante, eu diria que aquele sopro dela fez mais do que a gota de dor voar e se espalhar em milhares pelo ar, diria que aquele sopro despedaçou a esperança que ele tinha de voltar ao que era antes, ao início.
Milhares de peças voando pelo ar, impossíveis de serem montadas novamente.
O amor é assim, quando se quebra os cacos não podem mais ser juntados com precisão, sempre falta uma peça, um encaixe. E aquela vacância ficará para sempre, uma nódoa travestida de lição e trauma. Impossível de esconder ou relevar.
Um dia lhe perguntariam “onde está aquela peça?” e ele responderia “perdi, em algum lugar entre a minha infantilidade e a minha estupidez”.
Essas manchas que nos pesam no coração não são retiradas, elas ficam mesmo sob aquela chuva que molha até os ossos. Os outros perdoam porque não enxergam a mácula que nos dobra as costas sob seu peso.
Ela queria abraçá-lo, dizer “tudo bem amor, eu te perdôo”, mas logo a histeria se renovava em algum lugar recôndito de seus pensamentos, surgia como um assaltante e lhe rendia o que havia de bom, então queria gritar “por que assim?”.
Ele soltou a carne dos braços dela, mas não a soltaria, nem no momento seguinte nem por muito tempo, nem quando ela lhe desse as costas e fosse embora nem quando, anos depois, ela casasse sem convidá-lo, para nunca mais participar de sua vida.
São cheiros que ficam, do amor ao sexo, dos lábios às lágrimas. Mas está tudo repartido em milhares de gotículas que vão secar… vão secar como tudo aquilo que existe.
A verdade no dia dos namorados
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Pois é, está chegando um fenômeno do comportamento humano traduzido em um dia tão singelo e opressor, quero dizer, capitalisticamente opressor: Dia dos Namorados.
Seria hipocrisia da minha parte dizer que desse dia só se traz o consumismo. Há, eu sei, casais que se regozijam com esse dias, se renovam, mesmo que apenas por alguns dias, esperando a próxima data para colocar mais fogo na lareira. Infelizmente, precisamos ser lembrados do quanto gostamos de certas pessoas, e, também, precisamos demonstrar isso… com presentes… caros.
Acho interessante como outros, os solteiros, dão tanto valor a esse dia, também. Fazem gato e sapato pra arranjar algo realmente intenso e envolvente no dito dia para que se não lhes bata uma espécie de tristeza, de solidão. É, temos medo de sentir solidão.
Com tudo isso, com tantos romances no cinema, nos livros e nas músicas, com tanta dor e amor rimados em poesias ralas, ou rimas mais ricas em poesias mais doridas, eu não acredito que possam afirmar que o romantismo está acabando.
As declarações, as paixões, os ímpetos de sentimentos avassaladores, impulsos irrefreáveis que trazem à tona tantas atitudes e palavras são imbuídos da mesma carga emocional que tinham nos tempos de Casablanca, de Michael Curtiz, ou, indo além, nos tempos de Byron.
Ah, mas a calhordagem dos homens… se me trouxerem à baila o papo de que o homem não presta hoje, não quer compromisso, não tem escrúpulos e é galinha, eu digo, então:
1 – A busca pelas aventuras amorosas dos homens de hoje são exatamente as mesmas desde que o mundo é mundo, apenas são mais descuidadas agora. O macho sempre possuiu esse modo “inquieto”, e não vou entrar no mérito dos porquês e poréns.
2 – Um fenômeno recente pode ser observado, as mulheres também entraram na onda dos vai-e-vem, da traição, no entanto, com uma habilidade inquestionável de esconder isso e permanecer resoluta em seus olhos de mentira. Sempre digo, quando uma mulher resolve trair um homem ela o fará e ele nunca ficará sabendo, mulheres têm talento pra dissimulação e isso é indiscutível.
Então, meus queridos amigos casados, feliz dia dos namorados. Não questionem muito, não investiguem, não compliquem, senão é capaz de surgirem coisas desnecessárias pro momento.
E aos solteiros, sem desespero, um trago faz bem, mas não vá exagerar pra não acordar no outro dia com um panda gordo.
Pense nisso.
Abraço e adeus
6Abraçava ela como se fosse uma corda em um precipício.
Não havia delicadeza nem beleza naquele abraço, era apenas um desespero traduzido em força.
Ela o tinha traído, ainda o queria, mas a traição é como uma mancha num lençol, é feita por cima, mas atravessa e suja os dois lados. Ela sentia culpa e ele dor.
Ele abraçava o corpo daquela mulher que amava, seu peito era comprimido por um bloco de concreto de qualquer construção abandonada por falta de verbas, queria muito que aquilo tudo não fosse verdade. Amava aquela mulher, aquela que ele abraçava, não a que estava por dentro daquela mente, não aquela potencialmente pérfida.
O sentido da deslealdade é duplo, vai e volta, o peso é ativo por ter feito e passivo por ter destruído a confiança de uma pessoa, e orgulho ferido é como uma lata de cerveja aberta ontem.
Ainda assim, ele a queria, muito. Deveria ter deixado aquele cenário de cabeça erguida, deveria ter deixado ela sozinha na imensidão daquele nada, mas não podia, era como se o amor fechasse a mão naquele instante para nunca mais se abrir.
Ela retribuiu o abraço com tanta força quanto arrependimento, era remorso dos dedos ao sexo que tocaram outro que não o seu amado, era compunção de ter sentido prazer no falo de outro homem, não melhor do que o que já tinha no seu relacionamento com ele.
Ele soltou um pouco os braços, sentia, em sua mente, o cheiro daquela traição, o cheiro dos fluidos, o cheiro da mágoa em uma alma agora maculada, de uma cicatriz inflamada.
Jamais deveria ter soltado os braços, ele a queria como a própria vida, mas tudo havia desmoronado como se abalado por um terremoto. Não havia música dorida o suficiente nem poema com tanto pesar para expressar sua amargura, agora ambos ouviam o silêncio do tempo suspenso entre um par de respirações, ar entra e ar sai, mas o peito continua preso, o nó continua lá.
Ela tinha medo de falar, de pedir desculpas, talvez sua voz o incomodasse agora, talvez sua voz o lembrasse do quão suja ela estava, tinha medo de falar e perder aquele abraço, o último.
Se ela tinha se arrependido e sentia remorso por tê-lo machucado, ele sentia raiva por ter sido traído e dor por não poder mais tê-la como sua, só sua.
A nódoa da infidelidade é difícil de remover, e com o inverno que se instala no coração torna-se muito difícil secar o tecido manchado.
Ele deixou a sala, antes mesmo de virar as costas já queria ter voltado para aqueles braços que agarravam sua vida como a coisa mais importante do mundo, queria o amor que afastava.
Só depois que ele saiu e não poderia mais ouvi-la, ela chorou, em desesperada agonia.
Da mesma boca
3Tem gosto de traição,
Ainda que assim não seja;
Não é doce como cereja
Pois me é amargo, então.
Cabe a mim sentir na boca,
Na língua que me tocou,
O gosto de cinzeiro que restou
Dessa comoção em bancarrota.
Desliza por entre os braços
E cai em mãos alheias,
Diz-me quem tu anseias
Enquanto rompo os laços.
Da boca que na minha esteve,
Da língua que me falava doce,
Também se pode esperar tal coice,
Mesmo na serenidade que manteve.