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Corpúsculos de Krause
7Os Corpúsculos de Krause são pequenas estruturas presentes da pele humana, dentre os lugares onde se encontram estão os órgãos sexuais masculinos e femininos. Sua presença nos referidos órgãos faz com que sintamos mais ou menos prazer.
Ela fechou os olhos e experimentou uma sensação de morte e alívio, acabara de ter um orgasmo, um squirt, e o vazio que se seguiu foi pela surpresa de tanto prazer, como se tudo que existisse fora daquilo fosse apenas sujeira e futilidade; se todas as cores fossem subitamente avivadas e num segundo apagadas, sua sensação era algo assim, intraduzível.
Ele sentia as pernas dela tremerem como se uma corrente elétrica extremamente forte percorresse seu corpo. Suas mãos seguravam as costas dela, que agora estava caída para trás, quase formando um arco. E ele percebia os seios rijos dela, e olhava para as contrações da boca carnuda que se mordia e quase se sangrava de tanta força, provavelmente ela nem se apercebia dessa explosão que se acometia sobre seu corpo, ela estava ainda morta, ou, antes, demasiado viva.
Os olhos dela ainda fechados denunciavam, aos poucos, um retorno à consciência. Devagar, seus músculos relaxavam, suas coxas fortes iam se desprendendo da cintura dele, os tremores haviam passado e arco que sua coluna antes formava para trás havia sido desfeito com o relaxamento do corpo.
Ele passou os dedos sobre a barriga dela, com muita suavidade, devagar, até chegar aos mamilos, os ínfimos pelos claros dela se eriçavam e ela se torceu subitamente pelo arrepio. Abriu os olhos com um sorriso, olhando para ele, sentia seu sexo palpitar ainda, muito molhado, e o vazio da queda, da volta ao mundo normal, se confundia com o esplendor daquele momento de êxtase nunca antes experimentado.
Soltou os dentes dos próprios lábios enquanto olhava para ele, que viu a marca branca da pressão ser desfeita pelo sangue que chegava novamente ao lugar.
Ele a puxou de forma que ela ficasse sentada em seu colo, de frente para ele, seus seios lindos encostavam no peito dele, ambos com os corpos quentes. Fez isso sem sair de dentro dela, aliás, ele ainda estava com a ereção, não havia gozado antes.
Fez menção de recomeçar os movimentos da penetração, mas ela disse que precisava de um tempo, ainda ofegava um pouco quando falou. Saiu do colo dele e deu uma olhada para seu pênis ainda duro. Disse que precisava de um banho. Saiu caminhando ainda nua, sua bunda era maravilhosa, ao chegar no chão branco do banheiro deu uma olhada para trás , então, entrou no box e ligou o chuveiro sem fechar a porta. Ele levantou e foi até lá, morrendo de tanto tesão.
neo aliteração de ti
2Ai que me esgotam as palavras e o tato
Se ao menos minhas letras em ti deitasse
Formaria o poema mais belo se deitasse
Em ti minhas palavras, ai mas me falta tato
Circulei o que te dizer, e disse que não diria nada
Mas se é da pele que sinto falta o meu tormento
Nada direi a respeito, nem mesmo por decreto
Sob hipótese alguma eu diria algo, eu diria nada
Pudesse eu repetir cada sensação em teus lábios
Essa boca cansaria e sangraria em tanta fúria
Em teus lábios eu repetiria tanta fúria
E sangraria a sensação cansada de distúrbios
Tragaria o haxixe do cânhamo do teu sangue
Sugaria tuas veias e volveria ao teu sexo
Ao teu sexo, tornaria perplexo ao teu sexo
Como se ecoasse e bebesse apenas do teu sangue
cena iii
4Há um cheiro úmido no ar, há um peso tenso na atmosfera. Tudo está suspenso, tudo está parado, ao menos aqui dentro, nesta casa, nesta sala, neste corpo, nesta alma.
Bem ao fundo toca uma música, deve ser qualquer uma da moda, não as conheço mais. Provavelmente alguém já está se animando para encarar o sábado à noite, todos querem fazer festa, beber, conquistar garotas, mais uma noite de sexo sem outras expectativas. Essa música não chega a me irritar diretamente, mas o faz pelo meu inconsciente, mostra-me que não há grandes objetivos para essa corja que habita o planeta atualmente.
Não sou de vocês, sou das estrelas. Não sou das festas, sou dos ritos céticos de minha própria ironia.
A primeira vez que travei contato com uma garota eu enloqueci, e assim foi cada vez mais, tive inúmeras delas, inúmeras festas também. Não sei ao certo que dia me cansei, que dia acordei ao mundo, dilacerado em minhas próprias convicções. Não sei quando deixei de ser humano e virei… e virei isso.
A televisão está bem na minha frente. A luz fraca, de um amarelo pardo, entra pelas frestas das cortinas. Deve ser o pôr-do-sol. Que coisa sem graça, olhar um astro que só queima hidrogênio e nada mais. Não gosto dessa luz, ela me lembra coisas ruins. Essa luz débil reflete na televisão e me ofusca o lado direito do meu rosto que está refletido na tela desligada. Qual a idéia para ligar a televisão? Noticiários já não me interessam, seriados são tão pequenos de conteúdo e filmes me soam tão falsos. Não vou ligar a televisão, acredito que preferiria quebrá-la, mas um ataque de ira essas horas me parece mais ridículo. Como se qualquer coisa disso tudo ainda me importasse. Não quero os estilhaços como testemunhas, nem um demônio dessa minha consciência inscontante dominando minhas atitudes. Sou só eu, só células, só átomos, só um monte de nada despropositado, subjetivo.
Esse calor úmido, sei que tem chuva por vir, já ouço os trovões ao longe, sinto o tremer da terra. Que venha o temporal e me afaste essas idéias, só o vento me salva, só a chuva me acalma, só os raios me aquecem.
Minhas mãos estão secas, minha pele está seca, acho que estou desidratado, tenho tomado pouca água, tenho cuidado mal desse corpo. Já tenho algumas marcas de expressão, tenho olheiras, tenho olhos opacos e cabelos secos desgrenhados.
Há quanto tempo estou sentado aqui? Inclino-me para frente, com os cotovelos nos joelhos escoro o rosto com as mãos. Já está escuro lá fora, a luz de antes já não aparece mais na tela, nem meu reflexo se torna evidente. Sou um fantasma agora.
Definitivamente, sou uma criatura da noite, um noctívago como Macário, sou um personagem dum conto de Álvares de Azevedo, sou típico. Começo, agora que não há mais sol, a me sentir melhor. Já não lembro das ânsias pela morte, do nojo da diversão, do asco da sociedade.
Um raio rasga a escuridão, que vai se instalando, de forma bela, como um conto do Olimpo. Quase nada depois o som do trovão ressoa em meus ouvidos. Que conforto isso me traz. Consigo relaxar os ombros, respirar fundo e me escorar para trás.
Hoje foi por pouco.
Venha chuva.
Quando era pequeno morava no campo. Quando via apenas o tempo úmido e com sol me sentia mal, havia um desconforto em mim, alguma doença respiratória. Não conseguia enxergar a tempestade que viria depois.
Quando era criança, em dias de vento e chuva, raios e trovões, minha mão costumava me colocar sentado ao lado do fogão a lenha, junto com meus irmãos, e fazia bolachas e pães para nós. Passávamos a tarde comendo coisas boas e brincando em volta dela enquanto nosso pai não chegava, com ele em casa tudo mudava. A chuva me faz sentir bem.
licença, Zé
2Há alguns dias terminei de ler o excelente livro de José Saramago “Ensaio sobre a cegueira”. Sinto-me impelido a fazer algumas citações dos diálogos dos personagens ou de observações do próprio escritor, mas não o farei. Claro que a história contém vários elementos um tanto tangentes à realidade, no entanto, a realidade psicológica se torna tão crua e fiel que podemos relevar algumas minúcias.
O que vem ao caso é o que seria de nós num mundo de cegos? É certo que teríamos, inicialmente, diversos problemas de higiene e alimentação, de desenvolvimento de tecnologias e de organização social. Porém, acredito que teríamos ainda razão suficiente para superar tudo isso e passar a um novo estado (estágio) de (sobre)vivência.
O que mais me admira, entretanto, é como o foco de nossas atenção estaria sendo desviado. Eu explico. É que, atualmente, vejo mais do que 50% da nossa vida ser guiada pelas aparências visuais (e ressalto desde já que não sou absolutamente nada contra isso, talvez até seja um tanto a favor, o que também não vem muito ao caso). Antes de ouvir, observamos; antes de nos apresentarmos, observamos; antes de cheirar, observamos. Analisamos as pessoas, os alimentos e produtos em geral pelas cores, pelas formas visuais, mas e se tudo isso fosse, de repente, apagado? E se restasse para nós apenas o cheiro, o tato, o paladar e a audição para que nos comunicássemos com o mundo?
Será que cegos aprenderíamos (inventaríamos) uma nova forma de vaidade, de estética? Eu poderia muito bem ser atraído por uma mulher unicamente por sua voz, combinada com a textura de sua pele e seu cheiro, afinal, no fim das contas é isso que conta juntamente com a beleza visual. Porém, não penso que existiria um padrão de beleza tão rígido e senso comum, parece-me que sob tal condição nos abriríamos a novas formas de experimentar os corpos alheios e o próprio corpo, teríamos mais tato e nos aproximaríamos mais, ouviríamos mais o que têm para nos dizer, seríamos mais atento ao recheio daquelas mentes que se escondem em panos e laços.
E melhor ainda seria se, depois de perdermos a visão, voltássemos a tê-la no momento mais inoportuno, para vermos, de fato, o que a realidade não-visual nos trazia em tal hora.
Será que seríamos seres humanos melhores ou piores? Penso que seríamos os mesmos, com aquilo que chamamos de “futilidade”, mas no fundo tanto nos prende, desviada para outro tipo de sensação.
Mas a música, com certeza, seria mais deliciosa.
poucas coisas
2Sobre ti não gostaria de falar
Em tato, em pele, em cheiro ou luz
Mas por aí também me conduz
Tua beleza, que inapto sou ao mensurar
Ando onde antes ansiava encontrar-te
Andinas paisagens, e eu animoso anedótico
Faço joguetes, zeloso, em teu pórtico
Sentindo o zéfiro que me vem do oeste
De longe, vêm-me teus sinais
E eu os capto como um sustento
E é só deles que eu me alimento
E é deles que quero sempre mais
“Moça, olha só o que eu escrevi…”
