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Alimentos: uma questão política

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Assisti um pedaço de uma entrevista hoje sobre a (in)suficiência de alimentos no mundo, sobre o futuro da produção e distribuição de comida no planeta. Pois bem… elucubremos.

Há poucos dias ouvi falarem que, daqui alguns anos, será insustentável alimentar todos os seres humanos no planeta. Ora, dizem isso como se todos comessem, como se não houvesse fome, como se não houvesse a miséria, como se não houvesse a maldade, o egoísmo, a ganância e tantas outras particularidades da nossa raça.

A entrevistada, que infelizmente não lhes poderei creditar, tampouco ela terá créditos, pois que não atentei aos seus títulos e graduações, disse uma coisa que pode não parecer tão clara, ou tão evidente, mas o que acontece, de fato, não é uma insuficiência de produção de alimentos, mas uma falha grotesca na distribuição e aproveitamento dos mesmos.

Ela disse que a única “questão” que devemos nos perguntar e analisar é a “questão política”, pois é esse o principal estigma da (des)(sub)nutrição atual no mundo.

O ponto essencial é que as pessoas não passam fome por falta de comida, passam fome por entraves políticos, por barreiras econômicas e milhões de dólares guardados em contas de agricultores e empresários que, de forma alguma, pensariam em perder um real por saca de soja para aliviar essa fome de outros tantos seres humanos, pessoas.

Eu sinto uma culpa insustentável quando vejo comida sendo jogada fora, comida que poderia alimentar uma pessoa que, com muito menos da metade que temos disponível diariamente ficaria muito mais do que o conceito de felicidade conhecido por nós poderia expressar.

Imaginar que uma pessoa, no auge da sua gula, passa o dia comendo, “aperitivando”, e rindo; e que outra, em algum lugar do mundo, sequer tem força para sorrir, que come uma banana e toma meia xícara de água suja por dia, e tem que sobreviver assim é, no mínimo, irônico.

Deus é dono de um sarcasmo lacônico.

Não culpo quem aproveita o que conquistou com trabalho, ou por herança. Culpo aqueles que, por pura ganância desmedida, impedem a si mesmos de levantar um dedo para ajudar com o mínimo que seja aqueles que têm fome.

Não sou nenhuma madre Teresa, aliás, nutro um certo asco por essa “esmola”. Mas tenho certeza que se não suporto ver alguém passando fome. Ajudo com muito menos força do que poderia, porém, mantendo-se as devidas proporções, um milionário monsantino, ajudando muito aquém do que poderia, alimentaria, pelo menos, umas vinte famílias miseráveis.

A questão ainda não é o quanto é produzido, talvez venha a ser dentro de alguns anos, mas o quanto estamos dispostos a ceder de nossa posição para ajudar outro. A questão não é quantitativa, é política.

Se isso é certo ou errado, eu não sei, talvez seja apenas natural, uma espécie de seleção natural. Mas fatos são fatos.

Crescimento humano X Crescimento bacteriano

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Se você ainda não compreendeu bem o que acontece com o mundo, fique atento.

O quadro abaixo foi retirado do http://www.un.org/esa/population/publications/sixbillion/sixbilpart1.pdf

TABLE 1. WORLD POPULATION, YEAR 0 TO NEAR STABILIZATION
Year Population
(in billions)
0 0.30
1000 0.31
1250 0.40
1500 0.50
1750 0.79
1800 0.98
1850 1.26
1900 1.65
1910 1.75
1920 1.86
1930 2.07
1940 2.30
1950 2.52
1960 3.02
1970 3.70
1980 4.44
1990 5.27
1999 5.98
2000 6.06
2010 6.79
2020 7.50
2030 8.11
2040 8.58
2050 8.91
2100 9.46
2150 9.75
Near stabilization (after 2200) Just above 10 billion

Source: United Nations Population Division.

Se você não teve paciência para prestar atenção, eu resumo: quando começamos a contar os anos (“depois de Cristo”), éramos em 0,3 bilhões de pessoas sobre a terra, hoje somos 6,79 bilhões, o que nos dá um crescimento de mais de 2000%, não?

O interessante disso tudo é analisar como somos uns monstrinhos, ou, tendo uma visão mais fofa, uns animaizinhos inconscientes, prontos pra lutar cegamente e explorar tudo que temos ao alcance: cheirar e copular com as fêmeas, parir, comer, conquistar, matar, copular, morrer e deixar a prole continuar o mesmo esquema.

Tão legal é ver que o mesmo comportamento, claro que estou fazendo analogias e não sendo literal, têm as bactérias. O crescimento microbiano segue a mesma curva padrão (exponencial) que nós seguimos, e sabe como é? Não? Vou explicar bem rapidinho:

Primeiro, temos a chamada Fase Lag, quando há bastantes nutrientes, poucos microrganismos, e um crescimento relativamente baixo. Depois, temos a fase exponencial, quando há alimento, muitas bactéria, e a reprodução começa a ficar grande e rápida. Em pouco tempo, pouco mesmo, entra-se na Fase Estacionária, quando as bactérias se estabilizam, pois o alimento já fica escasso, o espaço também, e depois de certo tempo, com a falta de tudo que é necessário à sobrevivência, as coitadinhas vão morrendo, também rapidamente, na chamada Fase de Declínio.

http://www.profcupido.hpg.ig.com.br/bioqbacterias-3.gif

Pois bem, o que acontece é que crescemos assustadoramente nos últimos 2000 anos, muito mais, mas muito mesmo, do que crescemos nos 2000 mil anos anteriores ao D.C. no calendário cristão.

A curva do crescimento populacional mundial segue a mesmíssima forma, e ainda estamos na fase exponencial. Não sei de como será (se existir) a fase estacionária, ou, pior, a fase de declínio, e nem quero descobrir.

Vamos crescendo, nos reproduzindo, poluindo tudo, nossas casas, nossas ruas, nosso mundo, nossas mentes, nossos ouvidos, et Cetera.

Até quando pode durar isso?

Existem quase tantas ironias nisso tudo quanto pessoas vivendo na superfície terrestre. Uma dessas ironias é que temos a mania de nos pensarmos especiais, abençoados por deus, livres de todo mal e detentores de toda sua graça e sabedoria. Ledo engano, pequeno gafanhoto, você não é especial, eu não sou especial e arrisco a dizer que ninguém é especial. Forçando, diria que Gandhi foi especial, Jesus, Crowley, Sidharta, Hesse, Nietzsche, sei lá mais quem, podem ter sido especiais, ou não, pois que o mundo ainda é o mesmo, se não até pior.

Descubra-se fora dessa cultura bacteriana, depois diga que é especial e que tem sabedoria.

Enquanto isso não acontece, dê uma olhadinha nos gráficos das curvas e fique meditando sobre o assunto.

http://www.globalchange.umich.edu/globalchange2/current/lectures/human_pop/human_pop.html

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