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A noite e a náusea
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Quando ele saiu da cama e começou a colocar a cueca ela já se sentia suja. Olhava para aquele corpo de cheiro forte que se levantara e agora vestia a calça, olhando para ela de maneira satisfeita, com um sorriso no canto da boca; aqueles olhos denotando uma malícia que ela achava hilariamente repugnante, como um cachorro mordendo seu osso, tudo tão ralo e superficial, só instinto e ignorância.
Ele sentou-se ao lado dela e, antes de se curvar para colocar as meias e os tênis, fez um carinho em seus cabelos. Ela retribuiu com um sorriso, uma atriz perfeita, escondia com maestria a ânsia de se ver sozinha, livre daquela presença masculina, fingiu querer que ele ficasse, mas cuidando para ser defensiva, de forma que ele não aceitasse a pequena oferta.
- Desculpe, mas tenho que ir. Obrigado pela noite.
Ele se referia ao sexo divertido e prazeroso. Ela era boa de cama, ela sabia disso, escolhia suas presas de uma forma muito particular, e sempre experimentava o que queria, quando queria. Ele correspondeu ao que ela esperava, e só, nada mais. Isso de não ir além, de ser só o esperado, decepcionava-a, cada vez mais essa inaptidão de sentimentos e satisfação ia cansando.
O cheiro pesado de suor de homem manchava seus lençóis, ela se continha para não tirá-los da cama e atirá-los longe enquanto ele estava ali. Ela era um sorriso simples e fingido, uma pureza de prazer dissimuladamente satisfeito.
O que lhe causava mais asco era impreciso, cheiro, suor, humores, sorrisos fingidos ou sua própria alma. Não poderia escolher, não poderia arrolar tudo. Era nojo de si mesma e do mundo.
Entra e sai, gemidos, líquidos, palavras, gozos ou interpretações. Era sempre igual, a mesma sensação, a mesma doença e a mesma náusea.
Ele vestiu a camiseta e ela se levantou e pôs uma camisola para ir abrir-lhe a porta, controlava-se para não mostrar a pressa. O mesmo tchau, o mesmo beijo, o mesmo “amanhã nos falamos”.
Ela se perguntava sobre quando conheceria aquele homem que mereça ser chamado de homem. Queria saber quando pararia de abrir a porta e as pernas para esse tipo de adulto fazendo hora extra na adolescência.
Assim que fechou a porta foi tomar um banho, demorado, cheio de sabonetes, xampus, cremes e prantos. Sentada, sentindo a água morna escorrer em seus cabelos, deslizar sobre sua pele, ela chorava, soluçava, sentia-se muito suja. A água levava uma sujeira viscosa e invisível, choro sublimava aquela podridão, mas havia, em algum lugar dentro dela, uma fonte inesgotável de dor asquerosa.
Queria sentir-se digna do colo de seus pais de novo, queria conforto do lar. Queria ser algo que não era mais. Sentiria mais saudade do que nunca fora e seguiria com sua doença, continuaria lavando sua sujeira e madrugadas imundas.
Releitura
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Tá, eu elogiei bastante esses dias dois best-sellers aqui no blog.
Ta, eu sei que daqui um tempo eles deixarão de ser best-sellers e poderão ser lidos e criticados com mais imparcialidade.
Não quero desdizer o que disse, não quero me retratar. Aliás, reitero, A Menina Que Roubava Livros e O Guardião de Memórias são dois livros excelentes.
No entanto, sinto falta de um livro intenso do lado de dentro, que nos pegue pela alma. Que pegue nossa alma como quem pega um pano sujo do chão e vai lavando, e vai mostrando de que que é cada mancha que está sendo retirada e vá além, que nos mostre a água suja no balde e diga “viu só tudo que saiu”, só não diz um “e ainda tem mais” por ser orgulhoso de si mesmo, o livro.
Sinto falta de nunca ter lido Demian, Sidharta e O Lobo da Estepe do Hermann Hesse, de nunca ter lido A Insustentável Leveza do Ser e A Brincadeira do Milan Kundera, de nunca ter lido Assim Falou Zaratustra do Nietzsche. Sinto muita falta de quando não tinha lido esses e muitos outros livros bons (que nos pegam pela alma).
Sinto falta de quando eram alheio a essas palavras porque eu podia lê-las como quem lê a si mesmo pela primeira vez, como quem tem uma janela aberta para o horizonte pela primeira vez, como quem acorda de um sonho… pela primeira vez.
Ter o inédito em nossas vidas é tão valioso que se torna, ao menos para mim, insustentável seguir sem buscar uma coisa nova. Por isso não sossego com autores e bandas, vou fuçando até encontrar algo novo e bom.
Vou me tornando um poço de cultura inútil pra minha área de atuação profissional, mas não tem muita importância, isso é m hobby, é por prazer (ou por amor?).
Porém, sinto falta de nunca ter lido esses livros supracitados, acima de tudo (creio eu), por ter sido ignorante sobre as sujeiras do pano.