Posts tagged subjetivismo
Parte Primeira
3Tudo bem que era uma hora da madrugada, o tempo continuava feio, raios cortavam o céu escuro e iluminavam a noite, iluminavam a vida. Eu disse tempo feio? Pois bem, não sei, sentir aquela eletricidade me fez bem, espantou um pouco do marasmo da alma, e eu criei ânimo para ligar pro Lúcio.
Naquela rodoviária imunda eu pensei em comer alguma coisa antes de pegar o táxi e ir até onde o Lúcio disse para que eu fosse, mas pensei que seria melhor continuar em jejum. Peguei o táxi e dei o endereço da tal da Débora, que era onde estavam. Quando o carro parou, eu paguei os quinze reais, desci minha mochila e minha mala e parei na frente do prédio. Era cheio de vidros escuros, uma construção visivelmente nova, e eu via o reflexo de cada relâmpago que momentaneamente iluminava a noite.
Liguei de novo para o celular do Lúcio, só que dessa vez ele não atendeu, então toquei no interfone do apartamento. Quando uma voz feminina atendeu eu ouvi uma barulheira no fundo, não consegui distinguir muita coisa, “Quem fala?” perguntou ela, eu perguntei de volta “Débora?”, ela riu e disse que não era a Débora. Eu disse “ah, sou amigo do”, então ela me interrompeu “sim sim, do Lúcio. Vê se abre aí”, eu abri o portão de ferro, caminhei por um corredor largo, com plantas, muito bem cuidado, mais além estava o porteiro voltando dos fundos daquele lugar, ele cumprimentou, provavelmente deduzindo que eu estava indo pra festa. Subi o elevador com as malas nas mãos, na subida ainda consegui passar um perfume.
caça-bilhetes I
0Comecei meio assim
Sem início nem fim
Como uma interrogação sem acesso
E a exclamação mais muda
E vim de lá do fundo do oceano, onde a pressão me sufocava
Onde a luz não chegava
corda
1Deixa-me ser o primeiro a erguer o braço e gritar:
- Eu não me sinto bem!
E de tão feliz que direi soará falsidade.
Mas é o conformismo que nos cerca,
É o tédio que nos mata,
É o pouco de todo pouco que vem me corroendo.
O pouco de todo pouco, pois não houve muito me dado a conhecer.
E eu fiquei assim, enfadado, engomado, engolido, tragado,
Num traço reto de misericórdia de si mesmo.
Pelo subjetivismo pendurado como um macaco.
Não me balanço,
Não por medo de cair,
Mas por ter perdido a graça.
Vê?
É o tédio.
ao menos um rubor
0Trouxe-te um nada e era tudo que podia dar.
Um vazio enorme em minhas mãos, era somente vontade de te ter,
E não tinha nada além disso.
Era todo desejos, quereres, vontades e tentativas;
Eu já nem era um centro, era periférico ao teu olor,
Um satélite de teus subjetivismos e não-quereres frustrantes.
E, quando resolvia variar, prometia me esconder nas montanhas,
No entanto, de lá, enviava minha águia pra te ver e me trazer notícias tuas.
Ficava imaginando, nos quatro cantos, como seria te ver de mãos cheias,
Numa rua qualquer, sob um sol alegre, num dia perfeito…
E, então, oferecer-lhe-ia minhas mãos vazias, com bastante espaço,
Frias, ainda que ansiosas por calor; secas, querendo umidade.
Ao menos cumprimentaste com um oi singelo, gélido.
Ao menos ainda te lembravas de mim.