Posts tagged solidão

Há um buraco

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Da minha sacada eu vejo a rua

Há um buraco no asfalto

Todas as noites os carros passam por ali

E eu ouço o barulho dos pneus passando pelo buraco

E eu vejo as luzes indo e vindo

E isso tudo me faz companhia

Pois há um buraco…

Cinzeiro

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Sacode a poeira como se fosse um cinzeiro

Lança as cinzas só para dar espaço a outras mais

Mais frias, mais secas, mais tristes…

.

Deixa que lhe descartem os restos

Apaga a última chama do que lhe trouxe prazer

É um fim em si e isso é tudo, um semprefim

.

Apóia o passado apagado

Carrega em si os lábios que tocaram as sobras

Tem o gosto da ressaca de um mundo cinza

Dá gosto à ressaca da alma que lhe toca

.

E permanece assim, guardando as cinzas por necessidade

Coleciona cada boca amarga que lhe toca

Como um cigarro de prostituta

No café, solitária

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Ela foi à cafeteria sozinha, porque se sentia sozinha, porque era sozinha, mesmo não sendo. Tinha amigos, mas nenhum gostaria de acompanhá-la em um café, sentar em uma mesa, calma, com um café e um pão de queijo, um DVD do Paul McCartney tocando, ocupando o lugar, enchendo o que poderia ser preenchido por solidão. “Speaking words of wisdom… let it be”.

Ela sentou e pediu um café e um pão de queijo. Esperou, enquanto olhava para o celular e para a tela que não piscava, para o toque que não desatinava.

Para a cadeira a sua frente que não era ocupada.

Vazia a cadeira.

Vazia a rotina dela. Normalmente.

Ela tinha dinheiro.

Tinha o que se poderia chamar de beleza exótica.

Cabelos crespos, castanhos.

Seios grandes.

Olhos escuros, penetrantes, quase intimidadores.

Talvez as pessoas tivessem medo dela.

Quando ela falou comigo, eu senti pena, eu senti desespero na voz firme.

Ela me contou algumas coisas.

Pediu um café para levar, pagou a conta e foi embora.

Ela parecia ser uma pessoa interessante.

Não me interessou, nunca ficarei sabendo se interessaria.

O problema é que ela não se interessava por si mesma.

Esse é um grande problema.

Grande problema.

A felicidade compartilhada

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“A felicidade só é real quando compartilhada

Com a frase acima termina o filme, de livro homônimo, Na Natureza Selvagem. Não vou entrar no mérito do livro porque não li, nem no do filme porque já o vi há tempos e não sou um especialista em cinema, só posso dizer que gostei muito.

A frase final do filme é bastante impactante, principalmente para quem presta atenção às coisas sutis da vida.

Somos, possivelmente, felizes sozinhos, pulando pra cá e pra lá entre pessoas, contudo, é uma felicidade contida, comedida, incompleta. É como quando amigos se encontram e contam os causos das suas vidas, as suas alegrias e vitórias, fazem isso não para se vangloriar e ostentar como se colocando acima do outro, pelo contrário, o amigo conta as coisas boas da sua vida, pois sabe que o ouvinte alegrar-se-á ao ouvi-las, compartilhando um pedaço da alma, do sentido dessa felicidade.

O homem que parte em busca de si mesmo, do auto-conhecimento, caminha por um caminho por vezes solitário, entretanto, deve retornar ao meio social de onde veio (salvo exceções), e ele o faz porque nenhum conhecimento da própria alma tem completude sem a vivência com aqueles que a vida pôs em seu caminho. O caminhante solitário só é sozinho em etapas decisivas, o guerreiro não luta uma guerra sozinho.

Eu vivencio isso o tempo todo, quando encontro uma banda nova que acho legal, ou um vídeo divertido para alegrar uns minutos da vida de um amigo vou correndo para mostrá-lo, quero que compartilhe da minha alegria.

Ter pessoas com quem se possa compartilhar momentos de ócio, ou não-ócio, sem nada para fazer além de ser companhia é fundamental, sejam essas pessoas familiares, amigos ou namoradas.

Talvez isso seja uma necessidade muito primitiva do homem, talvez seja herança da evolução da espécie, ou ainda, um imperativo do âmago do ser, disso que chamamos alma e não sabemos definir, desconhecemos e até, por vezes, desprezamos, mas está sempre lá para nos lembrar o que somos e, se necessário, nos infligir crises internas para que nos reencontremos, e é aí que entram os companheiros de jornada, e é aí que entendemos que a felicidade só é real quando compartilhada.

Voando certo

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“Quanto mais alto voamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.” Nietzsche

Muitos desavisados podem interpretar essa frase forma errônea, pensar que o voar alto é conquistar coisas, é gritar “sou independente, tenho meu dinheiro e não preciso de ninguém”, é empilhar coisas e mais coisas num delírio de grandeza. Errado, pequeno gafanhoto, isso não é voar alto.

O que disse acima é tão somente o símbolo da sociedade fantasiosa e suspensa de consciência em que vivemos, a marca registrado do capitalismo desmedido iludindo as nossas cabecinhas.

É quase sufocante a ignorância de quem pensa que acumular riquezas sem propósito é um fim em si. Atente: de forma alguma sou contra ter dinheiro, pelo contrário, acredito que o dinheiro traz muita felicidade sim, contudo, apenas se for bem aproveitado. Viagens, experiência, vivências, coisas que possam trazer, além de inteligência, sabedoria, como expus num certo textículo anterior.

Voltando ao assunto. Voar alto é, para Nietzsche, mais ou menos a mesma coisa que seu personagem Zaratustra explicava sobre o macaco, o Homem e o Sobre-homem. Voar alto é caminhar sobre a corda bamba, a ponte que liga o macaco ao sobre-homem, voar alto é ser o Homem caminhando em direção ao sobre-homem, superar a si mesmo no sentido mais amplo da expressão, é conhecer-se, ir até o limite, transcender o limite.

Muitos assim o fizeram, compreenderam a natureza do espírito e da alma, ultrapassaram a moralidade, comeram do fruto do conhecimento, descobriram que bem e mal são apenas falácias mal contextualizadas.

Parecer menor pra quem voa muito alto deve ser quase um prazer, passar-se desapercebido, sem ser notado quando não se quer, um bom modo de escapar das futilidades tóxicas.

Nem um buda, nem um cristo, nem qualquer outro “iluminado” poderia se dizer imune às armadilhas que o mundo de riquezas e vaidades nos reserva. Atenção é uma palavra fundamental na vida, o diabo está nos detalhes, e quando se voa alto e não se presta atenção, pode-se ter um destino semelhante ao de Icaro.

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