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A Fluoxetina matou a poesia
4A fluoxetina terminou com o que seria a nova geração de poetas. Hoje ninguém mais pode se sentir triste, porque a tristeza é errada, é medonha, é ruim. Se assim o fosse, de fato, teríamos que banir Byron, Florbela, Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo.
A tristeza, os tempos difíceis, as melancolias, são os responsáveis pela maior parte do crescimento espiritual de um ser, aqueles que nunca se sentiram frágeis e impotentes, que nunca se perceberam inaptos à felicidade dos homens, esses nunca terão qualquer tipo de coroa, poderão sentar num trono mas sem reinar.
Nietzsche corria por essa idéia, de que a infelicidade traz conhecimento e crescimento interno, Hermann Hesse, seguia pela mesma senda.
combate à fome
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Achei tão bonitinho hoje quando li que o G8 se comprometeu em doar, em 3 anos, 20 bilhões de dólares para ajudar no combate a fome mundial. Já é um passo. Ainda que não estejam ensinando ninguém a utilizar a natureza do seu país para cultivar algo, financiando maquinários e afins, dar o peixe, mesmo sem ensinar a pescar, já é um primeiro passo grandioso nessa sociedade egoísta que vivemos.
Entretanto, eu não posso fazer nada além de esboçar um rápido sorriso amarelo, depois volto a minha carranca e mau-humor para questionar: e com a guerra, quanto se gasta?
Fui pesquisar quanto esses países gastam com produtos bélicos. Encontrei diversos números: os dos EUA, da China, da França, da Alemanha, etc. Contudo, o que mais me deixou, digamos assim, embasbacado, foi o fato de que, apenas em 2008, o Brasil, país subdesenvolvido, emergente (?), que não está, teoricamente, em guerra e tem, comparado a diversos outros países, um gasto bélico muito pequeno, gastou cerca de 23,3 bilhões de dólares.
Vamos à matemática agora, mas bem simples: G8 são oito países, ricos, que se comprometem a gastar U$20 bilhões com uma causa nobre. Dividindo os 20 por 3, temos uma dízima de 6,66666; pois bem, são 6,66 bilhões de dólares gastos anualmente pelo G8, mas o grupo é formado por oito países, então dividamos por 8 o resultado anterior, temos então 0,8333 bilhões de dólares gastos, anualmente, por cada país. Concluo, portanto, que apenas o Brasil gastou cerca de 27 vezes mais em produtos militares do que será gasto para o combate à fome (e ainda temos audácia de dizer que combatemos a fome com o Fome Zero).
É impressão minha ou tem alguma coisa de muito errado aí? Ah, o grande irmão não tem interesse em terminar a guerra.
Infelizmente, não consigo ter esperanças de uma sociedade, no mínimo, decente para se viver enquanto números assim, postos de uma forma tão simples, se apresentam diante de nós. Nem sequer entrei nas questões dos assaltos, homicídios, tráfico e toda sorte de coisas divertidas assim que vemos diariamente por todos os meios de comunicação.
Se o Brasil, que é um país sem nenhuma tradição com grandes armamentos, tecnologia bélica e tudo mais, gasta nessa magnitude com a “guerra”, nem serei obrigado a entrar na questão dos países como EUA e China. No entanto, só para termos uma idéia, a China, que foi o segundo país que mais gastou com a indústria bélica em 2008 (primeiro foram os EUA, com 41,5%) o fez na proporção de cerca de 100 vezes mais do que o que será gasto para combater a fome.
Penso que não é impressão minha. Há, de fato, algo de muito errado aí.
Ah, agora vem a nova tendência: Guerra Cibernética. Boa sorte pras Coréias e pra todos os usuários da internet. Vossa Fordeza já vê onde isso tudo pode parar.
pobre Werther
0Essa semana li Os Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe, escritor alemão. O livro, escrito na forma de cartas que o próprio Werther redige na maior parte, deixando (um pouco) esse formato perto do final, quando mais detalhes acerca da psique do personagem são necessários, conta a história do nosso Jovem, um rapaz destoante dos costumes da época, da aristocracia, do hábito e das burocracias.
Werther estava em conflitos com a sociedade em que vivia, e resolve morar numa cidade longe de sua família e conhecidos para se dedicar à pintura, o que não acontece. O que, de fato, sucede-se é de o jovem se apaixonar por Carlota, uma bela rapariga que perdeu sua mãe há algum tempo e, desde então, tomara o papel de cuidar da casa e de seus irmãos para si. Claro que todo conteúdo sobre Carlota nos é fornecido pelo próprio Werther, que, (repito) apaixonado, não hesita em enaltecer a angelicalidade da moça.
Sabe-se desde o início que Carlota é noiva, e mais tarde o próprio Werther conhece o noivo, Alberto, por quem nutre uma amizade quase tão grande quanto a que tem para com Carlota, e mesmo amanda descomedidamente essa mulher, ele acompanha o casal em inúmeros passeios, conversas e refeições. Ah, pobre Werther, suportar tantas provações contra seu amor. Com o realismo, é óbvio que Carlota se casa com Alberto, e, aos poucos, Werther vai sendo afastado do casal, seu comportamento se torna mais arredio, tempestuoso.
Juntemos, agora, os fatos: longe da família, sem conseguir produzir o ofício ao qual deveria se dedicar, revoltado para com os prceitos sociais da época e, acima de tudo, seu amor rejeitado, de certa forma, por Carlota. O final é óbvio, e se pra você, meu não tão bom entendedor, isso não foi o suficiente, aconselho que leia o livro.
Tanto fogo e inconstância na alma de Werther podem ser, facilmente, trazidos por identificação a nós mesmos. O jovem vai se metendo cada vez mais por uma caminho negro e sem volta. Ouvi dizer, ou li, que o livro havia sido proibido por alguns anos quando foi editado, pois o fizeram bem, o leitor mais desavisado pode, facilmente, ser guiado como aqueles primeiros leitores dos finais do século XVIII, terminando como um peru.
Em minhas leituras tenho notado uma grande divisa no intimismo e profundidade psíquica e filosófica dos livros pré e pós Nietzsche. Explico: antes, tratava-se mais de paisagens, ambientes, cores e afins; depois, de pensamentos, causas, sensações, emoções, etc. Os Sofrimento do Jovem Werther, no entanto, fogem ao padrão do que li até hoje da época, e, por que não, até mesmo do próprio Goethe, pois, ainda que subjetivamente, traz uma enorme carga emocional.
Havia lido esse livro quando era adolescente, achei certo relê-lo, aproveitar melhor com o que conheço hoje, e jurei para mim nunca mais pensar em lê-lo outra vez. É perigoso. Portanto, meu caro leitor, sinceramente, se não se sente muito alegre, nem comece a leitura, não quero perder um dos poucos que me visitam.
seca
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Era uma intimista, ao menos representava ser. Tinha na sua casa um cactus somente pra poder lembrar da vida que não precisava ser regada, que não precisava de muita atenção, acontecia de qualquer forma, preferia isso às violetas, estas precisavam de água, de sol, de ar e, como sua mãe dizia, de atenção. Ela não queria dar atenção, não queria cuidar, não queria ser cuidada, não era uma planta.
Destacou-se no ensino médio por suas idéias diferentes, não era necessariamente egoísta, mas pensava como se fosse, e revelava novas luzes aos seus colegas e professores, com redações de acidez inequívoca, o trabalho dela era sempre o mais sutil. Nem sempre agradava aos professores, conservadores, principalmente as professoras religiosas, cheias de pudores, de limitações. Ela costumava comparar as velhas professoras com cavalos com cela, quem as montava era a madre superiora da escola, e elas, tão tementes à madre, disfarçavam sob o manto de Jesus suas lamentações, diziam ser fiéis a deus e ao senhor jesus, balela, tinham medo de perder as bênçãos da carrasca superiora.
A vida de universitária também não lhe foi uma maravilha. Iniciou o ensino superior com total dedicação, mas ainda no primeiro semestre percebeu – e tentou negar a si mesma – que nada seria como ela esperava, as aulas eram vazias, os mestres eram pessoas comuns, lutando para sustentar seus filhos, vendendo idéias alheias e muito mais baixas do que aquelas que eles tinham antes de se perderem de seus sonhos. Velhos frustrados, foi assim que ela os qualificou, mas precisava de um diploma, com ou sem a simpatia dos mestres. E assim se foram os dez semestres do curso de direito, cada semestre ela ansiava em vão por aulas melhores, por professores competentes, a maioria era de conchas vazias, ecoando palavras que escutaram ou leram em livros, e assim escondiam seus cérebros quase caindo em desuso. Uns outros, porém, conseguiram a atenção da jovem, justamente por não o precisarem, eram almas livres, não estavam ali para alimentar ninguém, ensinavam porque queriam, porque tinham um ideal que não podia ser apagado tão facilmente. Certo que dentre estes apenas um já era senhor de idade avançada, os outros ainda jovens poderiam se transformar em conchas, mas este senhor não, já demonstrara toda sua tenacidade durante a vida, e assim seria até a morte.
Por várias noites se juntou aos verdadeiros mestres da universidade, e ela se sentia à vontade, como poucas vezes na vida. Entre vinhos e whiskies, entre charutos e cigarros, descobriu um outro mundo fora das leis da sociedade. Era um grupo de estudiosos de um mundo oculto, e ela conheceu professores de direito, filosofia, engenharia, psicologia, empresários, jovens, velhos, solteiros, casados, enfim, várias pessoas diferentes unidas em um círculo para um objetivo comum: celebrarem à vida à vontade em liberdade.
Um dos homens daquele grupo acabou se aproximando dela, ele era também universitário, cursava psicologia. Mas essa não é uma história de amor, e a nossa moça não se apegou ao rapaz, apesar de com ele ter descoberto muito mais sobre sexo, paixão, tesão e companheirismo.
Após sua formatura, seus trabalhos durante o curso lhe renderam uma bolsa de estudos fora do Brasil. Fora estudar na Espanha. A Europa era incrível, cheia de tradições, e por mais que as pessoas fossem calorosas e muitas vezes expansivas, ela nunca sentira tanta vida interna no Brasil como sentira por lá, as pessoas cultivavam coisas dentro de si, umas possuíam jardins, campos de trigo, violetas, outras tinham campos de pedra, esgotos e prisões, mas já era alguma coisa. Ela, contudo, permanecia com seu cactus, e comprou outro quando chegou lá.
Aplicava o que aprendera fora das salas de aula diariamente quando estava sozinha, jamais descuidara de si. Vários jardineiros europeus quiseram pôr as mãos em seu jardim, em seus cactus solitários, mas ela não permitia que lhes regassem, admirar era a única opção.
Anos passaram. Ela terminou seus estudos e voltou ao Brasil para uma visita um pouco mais longa aos seus pais. Eles já estavam velhos, os seus olhos brilhavam pouco, cheios de amarguras e tristezas, cultivavam alegrias pretéritas e ela era uma delas, a filha única, a garotinha dos olhos cor de mel, de cabelos longos, que brincava com os garotos da rua. Hoje seu cabelo estava curto, e seus pais pareciam haver cortado, também, os laços um com o outro, como se vivessem juntos por conveniência.
Um dia ela descobriria que aquilo não era falta de amor nem desatenção. Seus pais tinham apenas um jardim, e esse jardim só permitia um cactus nascer. Quanta falta de cor, quanta falta de cheiros, um cactus só não poderia alimentar os olhos de uma família mais por muito tempo. Agora era hora de começar a plantar algumas orquídeas, violetas, rosas e outras mais.
cena iii
4Há um cheiro úmido no ar, há um peso tenso na atmosfera. Tudo está suspenso, tudo está parado, ao menos aqui dentro, nesta casa, nesta sala, neste corpo, nesta alma.
Bem ao fundo toca uma música, deve ser qualquer uma da moda, não as conheço mais. Provavelmente alguém já está se animando para encarar o sábado à noite, todos querem fazer festa, beber, conquistar garotas, mais uma noite de sexo sem outras expectativas. Essa música não chega a me irritar diretamente, mas o faz pelo meu inconsciente, mostra-me que não há grandes objetivos para essa corja que habita o planeta atualmente.
Não sou de vocês, sou das estrelas. Não sou das festas, sou dos ritos céticos de minha própria ironia.
A primeira vez que travei contato com uma garota eu enloqueci, e assim foi cada vez mais, tive inúmeras delas, inúmeras festas também. Não sei ao certo que dia me cansei, que dia acordei ao mundo, dilacerado em minhas próprias convicções. Não sei quando deixei de ser humano e virei… e virei isso.
A televisão está bem na minha frente. A luz fraca, de um amarelo pardo, entra pelas frestas das cortinas. Deve ser o pôr-do-sol. Que coisa sem graça, olhar um astro que só queima hidrogênio e nada mais. Não gosto dessa luz, ela me lembra coisas ruins. Essa luz débil reflete na televisão e me ofusca o lado direito do meu rosto que está refletido na tela desligada. Qual a idéia para ligar a televisão? Noticiários já não me interessam, seriados são tão pequenos de conteúdo e filmes me soam tão falsos. Não vou ligar a televisão, acredito que preferiria quebrá-la, mas um ataque de ira essas horas me parece mais ridículo. Como se qualquer coisa disso tudo ainda me importasse. Não quero os estilhaços como testemunhas, nem um demônio dessa minha consciência inscontante dominando minhas atitudes. Sou só eu, só células, só átomos, só um monte de nada despropositado, subjetivo.
Esse calor úmido, sei que tem chuva por vir, já ouço os trovões ao longe, sinto o tremer da terra. Que venha o temporal e me afaste essas idéias, só o vento me salva, só a chuva me acalma, só os raios me aquecem.
Minhas mãos estão secas, minha pele está seca, acho que estou desidratado, tenho tomado pouca água, tenho cuidado mal desse corpo. Já tenho algumas marcas de expressão, tenho olheiras, tenho olhos opacos e cabelos secos desgrenhados.
Há quanto tempo estou sentado aqui? Inclino-me para frente, com os cotovelos nos joelhos escoro o rosto com as mãos. Já está escuro lá fora, a luz de antes já não aparece mais na tela, nem meu reflexo se torna evidente. Sou um fantasma agora.
Definitivamente, sou uma criatura da noite, um noctívago como Macário, sou um personagem dum conto de Álvares de Azevedo, sou típico. Começo, agora que não há mais sol, a me sentir melhor. Já não lembro das ânsias pela morte, do nojo da diversão, do asco da sociedade.
Um raio rasga a escuridão, que vai se instalando, de forma bela, como um conto do Olimpo. Quase nada depois o som do trovão ressoa em meus ouvidos. Que conforto isso me traz. Consigo relaxar os ombros, respirar fundo e me escorar para trás.
Hoje foi por pouco.
Venha chuva.
Quando era pequeno morava no campo. Quando via apenas o tempo úmido e com sol me sentia mal, havia um desconforto em mim, alguma doença respiratória. Não conseguia enxergar a tempestade que viria depois.
Quando era criança, em dias de vento e chuva, raios e trovões, minha mão costumava me colocar sentado ao lado do fogão a lenha, junto com meus irmãos, e fazia bolachas e pães para nós. Passávamos a tarde comendo coisas boas e brincando em volta dela enquanto nosso pai não chegava, com ele em casa tudo mudava. A chuva me faz sentir bem.
