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C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor

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Ontem à noite vi um filme. Deus, isso por si só já é um grande evento, porque nos últimos tempos não havia macumba que me fizesse ou ficar acordado ou vencer a ansiedade pra não trocar de canal no meio do filme, ou ainda fazer outra coisa ao mesmo tempo. Então, falemos do grande evento que me foi assistir esse filme (ai ai, suspiro saudosista da minha época de cinéfolo – folo?).
Pois bem, o nome do filme é C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor. Há tempos eu via as chamadas nos intervalos do Telecine e ansiava por vê-lo, ontem dei sorte de ligar a televisão bem na hora que começava.
A história é de uma família comum, isso implica em problemas, vidas conturbadas, drogas, brigas, homossexualidade, bebedeiras e muita música boa. Zac, um dos filhos de um casal europeu bastante típico, é o protagonista, e possui 4 irmãos: o mais velho (creio eu), extremamente rock and roll, drogas, sexo (hetero), tatuagens e cigarro o tempo todo; um outro irmão, que não recordo o nome, estilo semi-nerd, inteligente, um promissor na arte almofadinha; o terceiro, um esportista, jogador de algum esporte, com tudo que tem direito o estereótipo; Zac, o sexualmente indefinido, oscilando entre homossexualidades e garotas (mas hetero do que homo), não tantas drogas quanto o irmão mais velho, um estilo meio poser, um fã de David Bowie, que mais tarde ganha a vida como discotecário; e, finalmente, o mais novo, gordinho, cabeludo, sem importância nisso tudo.
São vários os momentos interessantes do filme. A fotografia é ótima, mas melhor ainda é a trilha sonora, impecável. Quanta intensidade naqueles relacionamentos, e a fundamentação psicológica dos personagens, com suas impressões, idiossincrasias e nuances.
Fiquei extremamente tentado a dar detalhes, descrever minhas opiniões, mas não o farei. Veja o filme, só digo isso. O final nos reserva momentos de incrível emoção, coisas q Hollywood não faz por você, mas o cinema europeu faz. Uma lição de tolerância, de valores de uma família de verdade.
Valores? Sim, valores. Ser casto, asseado, branquinho e polido o tempo todo não é a essência. A humildade, o saber voltar atrás, o saber perdoar ofensas, saber que o sentimento de paternidade, maternidade, irmandade, qualquer relação desse tipo, está muito acima de efêmeras inconveniências.
Filmes inspiradores assim me deixam tão desinspirado.

cena iii

4

São 19 horas de sábado. Tem sol lá fora, mas deixo as cortinas fechadas, todas elas, da casa inteira. Não quero a luz do sol testemunhando minha derrocada, não, não quero.
Há um cheiro úmido no ar, há um peso tenso na atmosfera. Tudo está suspenso, tudo está parado, ao menos aqui dentro, nesta casa, nesta sala, neste corpo, nesta alma.
Bem ao fundo toca uma música, deve ser qualquer uma da moda, não as conheço mais. Provavelmente alguém já está se animando para encarar o sábado à noite, todos querem fazer festa, beber, conquistar garotas, mais uma noite de sexo sem outras expectativas. Essa música não chega a me irritar diretamente, mas o faz pelo meu inconsciente, mostra-me que não há grandes objetivos para essa corja que habita o planeta atualmente.
Não sou de vocês, sou das estrelas. Não sou das festas, sou dos ritos céticos de minha própria ironia.
A primeira vez que travei contato com uma garota eu enloqueci, e assim foi cada vez mais, tive inúmeras delas, inúmeras festas também. Não sei ao certo que dia me cansei, que dia acordei ao mundo, dilacerado em minhas próprias convicções. Não sei quando deixei de ser humano e virei… e virei isso.
A televisão está bem na minha frente. A luz fraca, de um amarelo pardo, entra pelas frestas das cortinas. Deve ser o pôr-do-sol. Que coisa sem graça, olhar um astro que só queima hidrogênio e nada mais. Não gosto dessa luz, ela me lembra coisas ruins. Essa luz débil reflete na televisão e me ofusca o lado direito do meu rosto que está refletido na tela desligada. Qual a idéia para ligar a televisão? Noticiários já não me interessam, seriados são tão pequenos de conteúdo e filmes me soam tão falsos. Não vou ligar a televisão, acredito que preferiria quebrá-la, mas um ataque de ira essas horas me parece mais ridículo. Como se qualquer coisa disso tudo ainda me importasse. Não quero os estilhaços como testemunhas, nem um demônio dessa minha consciência inscontante dominando minhas atitudes. Sou só eu, só células, só átomos, só um monte de nada despropositado, subjetivo.
Esse calor úmido, sei que tem chuva por vir, já ouço os trovões ao longe, sinto o tremer da terra. Que venha o temporal e me afaste essas idéias, só o vento me salva, só a chuva me acalma, só os raios me aquecem.
Minhas mãos estão secas, minha pele está seca, acho que estou desidratado, tenho tomado pouca água, tenho cuidado mal desse corpo. Já tenho algumas marcas de expressão, tenho olheiras, tenho olhos opacos e cabelos secos desgrenhados.
Há quanto tempo estou sentado aqui? Inclino-me para frente, com os cotovelos nos joelhos escoro o rosto com as mãos. Já está escuro lá fora, a luz de antes já não aparece mais na tela, nem meu reflexo se torna evidente. Sou um fantasma agora.
Definitivamente, sou uma criatura da noite, um noctívago como Macário, sou um personagem dum conto de Álvares de Azevedo, sou típico. Começo, agora que não há mais sol, a me sentir melhor. Já não lembro das ânsias pela morte, do nojo da diversão, do asco da sociedade.
Um raio rasga a escuridão, que vai se instalando, de forma bela, como um conto do Olimpo. Quase nada depois o som do trovão ressoa em meus ouvidos. Que conforto isso me traz. Consigo relaxar os ombros, respirar fundo e me escorar para trás.
Hoje foi por pouco.
Venha chuva.
Quando era pequeno morava no campo. Quando via apenas o tempo úmido e com sol me sentia mal, havia um desconforto em mim, alguma doença respiratória. Não conseguia enxergar a tempestade que viria depois.
Quando era criança, em dias de vento e chuva, raios e trovões, minha mão costumava me colocar sentado ao lado do fogão a lenha, junto com meus irmãos, e fazia bolachas e pães para nós. Passávamos a tarde comendo coisas boas e brincando em volta dela enquanto nosso pai não chegava, com ele em casa tudo mudava. A chuva me faz sentir bem.
São 20 horas e 52 minutos. Hoje foi por muito pouco.

quem dera fosse Kundera

1

Ele tentava insistentemente entender a causa da sua existência. Caminhava de um lado pro outro no seu quarto, depois resolveu fechar todas as cortinas, a porta, escurecer ao máximo o ambiente. Ainda eram 6 horas da tarde, havia um pouco de sol ainda, mas ele não queria. Com a penumbra e o silêncio, sentou-se num canto, não desejava o centro, como sempre fazia, aquilo lhe lembrava naquele instante uma espécie de palco, queria ficar escondido, não queria que sua vida o visse, não queria que deus o enxergasse, queria tangenciar o costumeiro e vislumbrar por fora.
Riu-se daquilo tudo num desespero comum àqueles que se sentem solitários. Trazia em si muitas marcas, e já não encontrava um traço nelas que lhe remetesse ao início de toda aquela confusão. Não sabia onde, mas em algum lugar de sua vida havia perdido o senso de humanidade, não sabia mais conviver com as pessoas, vestia uma máscara extremamente simpática e convincente para o trato exterior, mas em si mesmo era um tirano, cabia-lhe muito esforço tolerar a si mesmo, e pedia desculpas ao mundo por estar ali, sentia culpa de sua existência indevida.
O ar estava morno ali dentro, mas lá fora estava frio.
Sentado, no canto do quarto, com as pernas esticadas, olhava a escuridão que, apesar de aumentar com o pôr-do-sol, parecia diminuir, pois seus olhos começavam a se acostumar. Via os pontos luminosos dançando na sua frente, em todo lugar, aqueles malditos pontos luminosos que tanto fizeram parte de seu imaginário.
Pensava, não, melhor, refletia acerca de si mesmo. Acabava, porém, perdendo-se por dentro, e voltava, era infinito.
Como assim? De repente nascemos, somos jogados num mundo sem saber como nem porquê, depois buscamos ao menos saber pra onde vamos e isso também nos é escondido. Tudo foi sendo jogado de um modo tão ao acaso, cada minúcia era sem sentido, estava interligado com tudo em vida, bem sabia, no entanto, se fosse diferente, tudo diferente, também estaria. A completude da vacuidade interna era tão justificável quanto injustificável, como se a cada decisão no seu mundo estivesse sendo levado ao caminho justamente oposto ao desejado, ao pensado, ao imaginado.
Como um caos, numa sucessão de impossíveis descobertas de si mesmo, continuava observando as luzes. Resolveu fechar os olhos, uma lágrima se lhe escapara. Era tão amarga, só podia ser assim: sou igualmente amargo por dentro.
Elas lhe vinham ao quarto, elas se despiam, elas queriam carinho depois do sexo. Ele as levava ao exaustivo do prazer, percebia o corpo delas se retorcendo, desfalecidas de luxúria. Ali, e somente ali, sentia certa chispa de vida se lhe iluminar os olhos. Entretanto, no momento seguinte, não suportava aquelas trocas de carinho, queria vê-las se vestindo e indo embora, se fossem prostitutas as pagaria de bom grado para que o deixassem. Associar sexo com amor era-lhe impossível, aquele cheiro de sexo o agradava mais do que a mão da mulher tentando lhe agradecer os momentos vividos. Elas, carentes de atenção; ele, de vida.
Debruçou-se sobre os joelhos agora dobrados. Não queria ser assim, não era desejo seu tanta frieza, se é que assim se pode chamar. Estava quase em posição fetal, aquilo lhe confortava, não queria ter saído do mundo dos sonhos de seus pais, preferiria ter sido apenas uma idéia e não um ser vivente. Agora não era mais uma lágrima, era um choro contínuo e quietamente desesperado. Por que gritar se a única pessoa que queria que ouvisse seu pranto era sua alma, ele sentia falta de uma alma que pudesse sentir algo além daquilo. Sempre mais do mesmo.
Perdera a conta de quantas vezes tentara voar, quebrar tudo o que era e buscar a si mesmo enveredando por sua mente, sua alma, seu espírito. Quanta coisa conseguira, quantos transes, quantos insights, mas agora, ao contrário de anos anteriores, aquilo tudo se lhe apresentava constantemente, era o tempo todo assim, e já não mais lhe configurava um prazer como antigamente, era-lhe, pois, uma tortura perceber os porquês e os mecanismos sistemáticos que se escondiam por trás de cada detalhe.
A vida era uma equação não integrável, não derivável. Conseguia se aperceber de quase tudo com uma sistematicidade impecável, porém, ao se tratar de seu próprio sentido como ser humano, falhava invariavelmente.
Desejou dormir naquele estado, ser levado para esferas mais altas de consciência, um lugar em que pudesse vislumbrar um porque daquilo tudo. Só que aquela loucura já lhe atingira tantas vezes, e sabia que não seria levado a lugar nenhum, contudo, mantinha esperança.
Aquele vazio ia crescendo, ia tomando lugar, expulsando para a periferia de si aquilo que havia na sua consciência. Comprimia tudo na abóbada do seu limite, e a tensão ia crescendo. Insuportável. Queria desfalecer, queria chegar à coroa de si. Uma serpente lhe apertava o corpo todo, e ele lutava com unhas e dentes para no fim ver sua derrota, novamente.
Levantou a cabeça, enxugou os olhos, ergueu-se e foi abrir o quarto para o ar noturno entrar. Só queria respirar antes da noitada que viria.

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