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Alva
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Tinha os olhos miúdos, pequenos e belos, duas esferas negras contrastando, monocromaticamente, com aquela pele tão alva. As bochechas levemente rosadas revelavam, ao se moverem, um sorriso encantador, era ali que aqueles olhos se fechavam ainda mais, apenas uma leve luz escapava daquela gravitação que atraía.
A primeira vez que abriu a boca para lhe falar qualquer coisa, ele ouviu aquela voz suave, com um rouco, como se arrastasse uma garrafa de malbec por sobre a mesa, estendendo-lhe uma taça. Qualquer coisa, não lembrava o que ela havia lhe dito, ao certo, fora algo com muita timidez, demasiadamente sucinta, a garota dos olhos pequenos.
Ele tentava entender o que acontecia atrás daquele sorriso, que revelava uma espontânea timidez e uma tímida espontaneidade, que mostrava uma coisa, mas escondia outras mais. Cada palavra que dizia lançava luz à mais tantas, uma frase significava um livro. Ele se afogava naquela história que ela ainda não lhe contara, mas que já lhe servia tão bem.
Ele tentava entender o que havia naquela cabeça.
Queria saber o que tinha sob aquela pele, alva, suave, de cheiros não definidos, que oscilam ora entre os melhores que já sentira, ora entre os mais deliciosos que poderia sentir. Era barroca só por vaidade, permitia-se mudar, pois era assim, uma nuvem que se movia com beleza e brancura, com o direito mais íntimo variar entre o ótimo e o excelente.
Ele a tocou em um dia de calor, ele a sentiu em uma noite longa e ele a soltou numa manhã triste. Naquele dia o sorriso fez o sonho, de olhos miúdos, que cheirava a volúpias doces e tímidas, de bochechas rosadas que não podiam sentir culpa nem medo, estavam acima daquela vaidade que o ser humano tem em inventar ética e moralidade.
Ela vivia como uma nuvem e ele fez daquela nuvem solta e liberta um sonho para quando acordasse triste pudesse dormir de novo, contando cada pêlo que surgia daquela pele como um tesouro. Era rico, milionário, e só tinha ela, ou a lembrança dela, e um perfume fixo nos lençóis.
A noite e a náusea
3
Quando ele saiu da cama e começou a colocar a cueca ela já se sentia suja. Olhava para aquele corpo de cheiro forte que se levantara e agora vestia a calça, olhando para ela de maneira satisfeita, com um sorriso no canto da boca; aqueles olhos denotando uma malícia que ela achava hilariamente repugnante, como um cachorro mordendo seu osso, tudo tão ralo e superficial, só instinto e ignorância.
Ele sentou-se ao lado dela e, antes de se curvar para colocar as meias e os tênis, fez um carinho em seus cabelos. Ela retribuiu com um sorriso, uma atriz perfeita, escondia com maestria a ânsia de se ver sozinha, livre daquela presença masculina, fingiu querer que ele ficasse, mas cuidando para ser defensiva, de forma que ele não aceitasse a pequena oferta.
- Desculpe, mas tenho que ir. Obrigado pela noite.
Ele se referia ao sexo divertido e prazeroso. Ela era boa de cama, ela sabia disso, escolhia suas presas de uma forma muito particular, e sempre experimentava o que queria, quando queria. Ele correspondeu ao que ela esperava, e só, nada mais. Isso de não ir além, de ser só o esperado, decepcionava-a, cada vez mais essa inaptidão de sentimentos e satisfação ia cansando.
O cheiro pesado de suor de homem manchava seus lençóis, ela se continha para não tirá-los da cama e atirá-los longe enquanto ele estava ali. Ela era um sorriso simples e fingido, uma pureza de prazer dissimuladamente satisfeito.
O que lhe causava mais asco era impreciso, cheiro, suor, humores, sorrisos fingidos ou sua própria alma. Não poderia escolher, não poderia arrolar tudo. Era nojo de si mesma e do mundo.
Entra e sai, gemidos, líquidos, palavras, gozos ou interpretações. Era sempre igual, a mesma sensação, a mesma doença e a mesma náusea.
Ele vestiu a camiseta e ela se levantou e pôs uma camisola para ir abrir-lhe a porta, controlava-se para não mostrar a pressa. O mesmo tchau, o mesmo beijo, o mesmo “amanhã nos falamos”.
Ela se perguntava sobre quando conheceria aquele homem que mereça ser chamado de homem. Queria saber quando pararia de abrir a porta e as pernas para esse tipo de adulto fazendo hora extra na adolescência.
Assim que fechou a porta foi tomar um banho, demorado, cheio de sabonetes, xampus, cremes e prantos. Sentada, sentindo a água morna escorrer em seus cabelos, deslizar sobre sua pele, ela chorava, soluçava, sentia-se muito suja. A água levava uma sujeira viscosa e invisível, choro sublimava aquela podridão, mas havia, em algum lugar dentro dela, uma fonte inesgotável de dor asquerosa.
Queria sentir-se digna do colo de seus pais de novo, queria conforto do lar. Queria ser algo que não era mais. Sentiria mais saudade do que nunca fora e seguiria com sua doença, continuaria lavando sua sujeira e madrugadas imundas.
A Nova Sexualidade
2
Não sei não, acho que não fico mais surpreso com a forma precoce com que o sexo acontece na vida dos adolescentes, ou, devo dizer, crianças.
Esse comportamento não é nada senão o produto do que os adultos, tão estranhamento ligados em suas vaidades, impõem, como diria o Humberto Gessinger, “na mídia, na moda, nas farmácias”.
Eu fico, sim, preocupado com a forma com que o sexo é tratado, de forma geral, em todos os lugares, mas principalmente nesse mundo trajado de ridículo, de pessoas querendo se espelhar em celebridades, em modas e em reportagens sem o mínimo de razoabilidade publicadas em revistas que têm, mas não deveriam ter, credibilidade popular.
Sexo está deixando de conter um significado de prazer e passando ao sentido de obrigação. Trata-se falta de desejo como doença ou depressão, desempenho como uma prova de superioridade e freqüência como uma corrida de cavalos.
Aliás, infelizmente, às vezes me parece que cavalo é justamente o que algumas mulheres esperam dos homens, não no tamanho do falo (também), mas na idiotice de atitudes beirando às cavernas.
Dizem que em Roma o sexo era normal, sem culpa ou envolvimento ou cobranças, se assim for, eu acredito em prazer. Se me falarem de duração, de como, de quando, de quanto, de onde et Cetera, eu já penso que há inexperiência e insegurança no interlocutor.
Sexo deve ser uma coisa natural, espontânea, com calor e um pouco de nervosismo. Quando se tem a sensação de estar abrindo um presente muito esperado, aí é que o sexo é bom, aí é que reside o maior prazer.
Desculpem-me os editores de revistas, os sexólogos e charlatães do kama-sutra por aí, mas quando tratam do sexo como uma ciência exata e sem sal vocês matam o prazer. Não há amendoim, catuaba, Viagra ou coisa qualquer que traga vida ao sexo sem a sensação de espírito inundado de prazer. Só o corpo é prazer efêmero, e depois vem o que todo mundo já conhece…
Sexo é ser tarado, pervertido, sem restrição e com espontaneidade. Esquecer o que as revistas te disseram, o que a moda disse que teu corpo deve ser, o que o especialista disse que tu tinhas que comer, é essencial pra redescobrir o sexo como um jardim de prazeres e nada mais, como ele deveria ser.
O declínio do Ponto G
4
A doutora Andréa Burri acaba de levantar a mão contra o falecido doutor Grafenberg ao dizer, através de sua tese e pesquisa, obviamente, que o famosíssimo (quase tão famoso quanto os Beatles e certamente mais famoso que deus) Ponto G não existe. (Non Ecziste, como diria o grande Pe. Quevedo, aliás, falando em padre… deixa pra outra hora).
Pois é, a pesquisadora do centro de estudos King`s College, especializada em sexo (sexologia, seu pervertido), afirmou que o Ponto G inexiste, para ser mais exato, usarei as palavras da própria Andréa para o jornal da BBC: “It is rather irresponsible to claim the existence of an entity that has never been proven and pressurise women and men too.” – Tradução tosca: ‘é um tanto irresponsável afirmar a existência de algo que nunca foi provado e também pressionar homens e mulheres’.
Agora, meus caros e minhas caras, a tarefa de encontrar o ponto G foi acabada, não deve mais ter a preocupação com a famosa zona erógena, daqui por diante deve ser como sempre deveria ter sido: buscar todos os pontos possíveis de prazer que a mulher se sentir à vontade.
Colocar a cabecinha apenas no Ponto G (ui) deve ter feito muitas mulheres e homens perderem noites e noites de sexos que poderiam ter sido ótimo e por causa disso foram apenas legais (Y).
A doutora Andréa Burri e o co-autor, Tim Spector, ressaltam que um fator importantíssimo para que os orgasmos orgásticos (entenda como quiser) é a famosa “vida equilibrada”. E o que isso significa? Alimentação saudável, exercícios físicos intensos e regulares, evitar estresse, etc. Ah, e é claro, e isso é por minha conta, acho que um pouquinho de álcool pode auxiliar, conquanto que a guria não ‘desmaie’.
Então, meninos e meninas, toquem-se, beijem-se, chupem-se, whatever, o importante não é encontrar o Ponto G, mas sim encontrar o alfabeto inteiro no corpo da amiguinha colorida, ou melhor, fazer em números, assim não se corre o risco de acabar.
Ummilhãoquatrocentosmilsetecentosetrintaetrês…
Da tua visita
5Tá bom, chega de férias de mim mesmo. Natal passou, ano novo também e meu cérebro foi sendo engolido pelo senso comum. Preciso me recuperar até o próximo equinócio. Amém. Pois falando em amém…
O que realmente vale a pena é quando a tenho nos meus braços, quando ela agarra meu pescoço e me beija com tanta força que chega a doer, mas depois passa, e é só o gosto doce do sangue que eu sinto, o meu e o dela. O que faz tudo melhor é quando a vejo, quando ela me aperta contra seus seios mornos e suas coxas quentes e seu sexo molhado. É quando ela geme bem no meu ouvido e me faz esquecer dos últimos anos de mulheres frígidas e problemáticas. Gosto mesmo quando ela pula em cima de mim, e eu entro e saio do seu corpo quente e molhado; ou gosto mais quando puxo os seus cabelos e ela me olha de canto dum jeito que só pode significar: mais forte. E eu faço tudo cada vez mais forte até ela pedir pra parar. Então eu não paro, apenas vou mais devagar. Quando esqueço que dei tantos beijos sem gosto, que provei tantos corpos insossos e tantos sexos sensabores, quando esqueço disso é porque estou com ela, que me agarra com tanta força que sei que as marcas ficarão por mais do que apenas um dia. O seu perfume é o que deveria ser o cheiro dos campos Elíseos, e isso já me deixa com tesão, porque cada célula do meu corpo entende que, ao sentir esse aroma, é sinal de que a vida volta, a eletricidade corre, o sangue esquenta e circula como se não houvesse amanhã. O cheiro. Eu faria uma missa ao perfume dela. Do que há nesses encontros, nada pode ser dito, senão que apenas aquilo é vida, todo o resto é interlúdio.