Posts tagged sensações

Alva

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Tinha os olhos miúdos, pequenos e belos, duas esferas negras contrastando, monocromaticamente, com aquela pele tão alva. As bochechas levemente rosadas revelavam, ao se moverem, um sorriso encantador, era ali que aqueles olhos se fechavam ainda mais, apenas uma leve luz escapava daquela gravitação que atraía.

A primeira vez que abriu a boca para lhe falar qualquer coisa, ele ouviu aquela voz suave, com um rouco, como se arrastasse uma garrafa de malbec por sobre a mesa, estendendo-lhe uma taça. Qualquer coisa, não lembrava o que ela havia lhe dito, ao certo, fora algo com muita timidez, demasiadamente sucinta, a garota dos olhos pequenos.

Ele tentava entender o que acontecia atrás daquele sorriso, que revelava uma espontânea timidez e uma tímida espontaneidade, que mostrava uma coisa, mas escondia outras mais. Cada palavra que dizia lançava luz à mais tantas, uma frase significava um livro. Ele se afogava naquela história que ela ainda não lhe contara, mas que já lhe servia tão bem.

Ele tentava entender o que havia naquela cabeça.

Queria saber o que tinha sob aquela pele, alva, suave, de cheiros não definidos, que oscilam ora entre os melhores que já sentira, ora entre os mais deliciosos que poderia sentir. Era barroca só por vaidade, permitia-se mudar, pois era assim, uma nuvem que se movia com beleza e brancura, com o direito mais íntimo variar entre o ótimo e o excelente.

Ele a tocou em um dia de calor, ele a sentiu em uma noite longa e ele a soltou numa manhã triste. Naquele dia o sorriso fez o sonho, de olhos miúdos, que cheirava a volúpias doces e tímidas, de bochechas rosadas que não podiam sentir culpa nem medo, estavam acima daquela vaidade que o ser humano tem em inventar ética e moralidade.

Ela vivia como uma nuvem e ele fez daquela nuvem solta e liberta um sonho para quando acordasse triste pudesse dormir de novo, contando cada pêlo que surgia daquela pele como um tesouro. Era rico, milionário, e só tinha ela, ou a lembrança dela, e um perfume fixo nos lençóis.

Experiências

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Passamos a vida inteira buscando coisas, procurando nossa essência, mais felicidade, mais intensidade, mais festa, mais mais e mais.

Mas afinal, por que isso? Onde queremos chegar? O que isso tudo representa pra nós?

Cada miudeza que vivemos é só uma experiência, nada além, nada aquém. É assim com todos, não se pode fugir disso.

Os conceitos dessas experiências são maniqueístas, duais, não se pode estabelecer de forma absoluta um valor ou um adjetivo qualificando como bom ou ruim, os conceitos e as explicações que se seguem são como as próprias experiências, eles existem por si só.

Tomar bomba em uma prova é uma experiência (ruim?), você não vai poder mudar isso, você já viveu e agora isso faz parte de um passado, está guardado em algum lugar da sua mente como uma marca, uma espécie de trauma, e o máximo que pode ser feito daqui por diante é tirar algum proveito dessa circunstância já vivida.

Aquele carro novo que você ganhou/comprou só vai te dar uma vez a sensação de abrir a porta pela primeira vez, dar a primeira partida e a primeira volta nele, depois a experiência de novidade acaba, a endorfina diminui cada vez mais e a necessidade de comprar algo novo de novo aumenta. Você quer ter, outra vez, a sensação da “primeira vez”, mas essa experiência em sua legitimidade ficou para trás, é só lembrança.

Assim é o consumismo, assim é a paixão, assim é o conhecimento. Tudo vicia, tudo estagna, tudo cansa e tudo fica pra trás. Por isso a necessidade de se renovar, de renovar o que há dentro de si.

Aliás, renovar o que há dentro de nós, acredito, é primordial para uma vida saudável. Chame de revolução espiritual, programação mental, reforma psicológica, qualquer coisa, o importante é que quanto mais você mudar a si mesmo (esperando que seja pra algo que possamos chamar de melhor) mais experiências “novas” você poderá ter, a vida vai se apresentando sob novos prismas constantemente.

Não tenha medo de voltar atrás.

Não tenha medo de inventar.

Não tenha medo de sair da sua zona de conforto.

Não tenha medo.

Se tudo é dinâmico, se as coisas que vivemos se tornam passado, apenas experiências vividas, por que há essa neurose coletiva em comprar e ser isso ou aquilo?

Quando olho pros lados vejo crianças presas em corpo de gente grande, com a mesma evolução emocional de um pré-adolescente. “Eu quero!”, é o que ouço as pessoas gritando, e elas se esperneiam quando não conseguem, ficam burras, viram cínicas, se tornam monstros incapazes de compreender o que é ser humano, o que é viver experiências de vida não apenas experiências de “Eu, eu, eu!”.

Qual a experiências que queremos levar dentro de nós? A sensação de um celular novo ou a sensação de uma noite feliz com amigos em um bar? A sensação do carro novo, importado, ou do beijo conquistado a muito custo daquela pessoa desejada?

Reavalie suas prioridades, revise seus conceitos, reveja suas medidas. Obrigue-se a viver experiências que valham a pena, que te façam chorar de alegria e não de remorso.

Um deserto

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Tem um modo de chover diferente;

É seco, semi-árido, no que vejo,

Em cada gesto ensaiado o ensejo

De parecer permanecer indiferente.

.

Não diz nada, cala como fosse eterno,

Quando fala não fala o que quer falar;

Corre os dedos pelas palavras, sem ar,

Escolhe uma a uma, um par,

E anota em um caderno.

.

Possui mundos que colidem em rotas confusas,

Que explodem em luzes soturnas,

Mostrando profundezas absurdas.

.

Naquele abismo, tudo é uma ofensa absurda,

Tal recôndito esquecido pela razão,

Lá chove, escorrem oceanos de lágrimas

Que pesam ao semi-árido lá fora.

.

E outro mundo colide.

Quase parte ao meio, quase parte ao sul

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Quase se desmorona de si mesmo sobre si

Recaindo em lembranças de cheiros e perfumes,

Do quanto se misturam em seus costumes

E em seus corpos, de mesma cor e frenesi.

Quase parte ao sul, mais longe ainda,

Em mãos que arquitetam felicidade

E dedos que se movem em celeridade,

Em prazer de calor que não se finda.

E de saudade quase parte ao meio

Por não tocar na pele tão singular

E contar o que se sabe exato: par,

Que pinta teu corpo e teu seio.

Há precisão metódica no estudo que faz

E conta cada detalhe de cor, cada matiz

Dos cabelos dourados, quase, por um triz,

Iguais, que se somam na noite que apraz.

No café, solitária

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Ela foi à cafeteria sozinha, porque se sentia sozinha, porque era sozinha, mesmo não sendo. Tinha amigos, mas nenhum gostaria de acompanhá-la em um café, sentar em uma mesa, calma, com um café e um pão de queijo, um DVD do Paul McCartney tocando, ocupando o lugar, enchendo o que poderia ser preenchido por solidão. “Speaking words of wisdom… let it be”.

Ela sentou e pediu um café e um pão de queijo. Esperou, enquanto olhava para o celular e para a tela que não piscava, para o toque que não desatinava.

Para a cadeira a sua frente que não era ocupada.

Vazia a cadeira.

Vazia a rotina dela. Normalmente.

Ela tinha dinheiro.

Tinha o que se poderia chamar de beleza exótica.

Cabelos crespos, castanhos.

Seios grandes.

Olhos escuros, penetrantes, quase intimidadores.

Talvez as pessoas tivessem medo dela.

Quando ela falou comigo, eu senti pena, eu senti desespero na voz firme.

Ela me contou algumas coisas.

Pediu um café para levar, pagou a conta e foi embora.

Ela parecia ser uma pessoa interessante.

Não me interessou, nunca ficarei sabendo se interessaria.

O problema é que ela não se interessava por si mesma.

Esse é um grande problema.

Grande problema.

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