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A Matéria Escura e a Mente

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Pronto pra mais uma viagem, peque gafanhoto? Então vamos lá.

Matéria escura é uma espécie de matéria que não emite luz, portanto, não pode ser observada pelos nossos olhos. Não sabemos a forma, mas podemos mensurar, mais ou menos, o tamanho de um “aglomerado” (?) de matéria escura através de cálculos super divertidos em que dados são retirados de observações da interação dessa matéria escura com a matéria “normal” ao seu redor, uma vez que influências são exercidas por aquela sobre esta, em seu campo gravitacional e energético.

Mas o que é a matéria escura? Não se sabe ao certo, uma vez que não pode ser observada, não se pode determinar com precisão do que é formada, apenas teorias vão sendo formuladas e as mais plausíveis vão sendo levadas adiante.

Tá, mas o que que tem a ver essa tal da matéria escura, Christian?

Bom, astrônomos dizem que a matéria escura forma cerca de 83% (sim, oitenta e três) do universo, isso, por si só, já é interessantíssimo, imagine, algo que não sabemos o que é formar quase a totalidade do universo.

Contudo, não é nos mistérios do universo que quero mergulhar; quero, na verdade, trazer isso para dentro, para o ser humano, para os mistérios da mente.

Muitas e muitas vezes nos pegamos dizendo e fazendo coisas estranhas a nós mesmos, pensando sem controle nenhum, e isso só aumenta à medida que o tempo passa e as devidas atitudes não são tomadas. Perder a atenção sobre o que se passa nas nossas mentes tem sido o mal da humanidade, quanto mais velhos mais desatentos aos processos internos vamos ficando, sejam eles mentais, sejam emocionais ou sejam sentimentais (a desatenção ao âmago é diretamente proporcional ao tempo de vida, não resisti à proposição).

Nossa vida interna é formada por coisas incríveis e desconhecidas, uma superfície muito sutil nos é possível conhecer naturalmente, e eu diria que é algo semelhante aos 17% de matéria visível (ou não-escura) do universo.

Pense na sua mente como um universo particular, cheio de planetas, estrelas, nebulosas, meteoros, etc. Cada coisa dessas representa um pensamento, uma emoção, e você pode fazer a atribuição que quiser a cada um deles, o fato é que muito ainda está lá sem ser conhecido, regiões ermas, distantes, que apenas um mergulho destemido e sem medo de perder o caminho de volta pode acabar iluminando.

Essas áreas tão recônditas são o inconsciente, ou o Self, algo muito interno, profundo e de difícil alcance até pro mais hábil psicanalista ou pro mais destemido e esforçado espiritualista, meditando com afinco.

E eu ainda espero uma conciliação das várias ciências (física, química, psicologia, etc.) com o mundo do espírito do homem, da alma, ou a mente, ou como resolver chamá-lo.

Como mudamos com o tempo

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Não sou um cara muito chegado a fotos, quero dizer, odeio tirar fotos, sou tímido pra isso, e não é de hoje, acho que desde pequeno fui assim, por tal motivo, é muito difícil encontrar fotografias minhas de quando era criança ou adolescente.

Contudo, às poucas fotos que tenho gosto de dar certa atenção especial, não por narcisismo (obviamente não), mas por uma ânsia de me descobrir, de encontrar algum segredo bem escondido naquele rosto que já não é mais o mesmo, naqueles olhos que já não têm o mesmo brilho, no corpo bem diferente.

É interessante perceber as pequenas, as ínfimas, sensações que essas observações podem nos trazer, bem como alguns eventuais insights importantes no caminho tão abstrato do auto-conhecimento.

Eu olho sempre nos meus próprios olhos nas fotografias, lembro de Demian, personagem do livro homônimo do escritor alemão Hermann Hesse. Tive um olhar sagaz, penetrante, e, ao mesmo tempo, cheio de vida, quase zombando da própria vida. Hoje está mais para um olhar de quem assiste Big Brother e acha que assistir Luciana Gimenez e criticar o que está passando é bom para a alma (tá, exagerei).

Fico perplexo ao perceber o quanto vamos perdendo território dentro da própria psique para uma espécie de piloto automático, para convenções sociais, pra costumes e tradições nem sempre muito saudáveis para a mente.

Olho para fotos antigas e me pergunto “quem é esse cara? Pra onde ele foi?”. Fica tão distante que não sei perceber o fio que me liga até esse passado, a linha que une essas pérolas nesse colarzinho que é o Self.

Inevitável lembrar da música dos Titãs, Não vou me Adaptar, que traduz de forma bem simples essa perda de continuidade da mente, essa cisão do que “sou” e do que “fui”.

A vida é dinâmica, e acompanhar o que sucede dentro e fora da gente nem sempre é fácil.

Soltar laços, desapegar, deixar que as coisas vão e talvez não voltem pode ser doloroso, no entanto, não se pode impedir que isso aconteça.

Como que eram os seus olhos nas fotos de criança? Famintos de vida? E agora?

Parte Oitava – Interlúdio

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Chegamos no templo naquele dia, completamente vazio o lugar, completamente vazia minha alma, esta, porém, não de uma forma triste ou melancólica, era um vazio racional, mais para a compreensão, mais para a presença de tudo em vez do nada.

Acreditava-me em plena aventura agora, oscilando entre humores e pensamentos contraditórios, quase excludentes.

Enquanto caminhávamos pela entrada de chão batido, cercada por uma grama extremamente verde, eu lançava olhares superficiais para as folhas que me foram entregues. E foi nessa distração proposital que paramos em frente a uma cabana. Em pé, na frente da porta, estava um senhor de uns cinquenta anos, com barba por fazer há mais de uma semana e cabelos compridos, ruivos, presos. O homem tinha cerca de um metro e oitenta de altura, tinha aparência vigorosa e sorridente.

A Bê percebeu a presença dele antes de mim, e já se adiantou em direção a ele, que a cumprimentou calorosamente: certamente sabia da nossa visita. Eu cheguei logo em seguida para cumprimentá-lo. Ele falava um portunhol forçoso, tinha sotaque de britânico nos seus erres e vogais.

Ali, naquele momento único, eu percebi onde tudo se ligava. Das raízes de Thelema, do instrutor ao discípulo, eu acabara de ser enviado para a cidade das minhas mais íntimas pretensões, ali encontraria o triunfo sobre meus anseios ou a desistência mais inexorável.

- Como tu cresceste, Daniel, lembro-me de quanto íamos na tua casa, nas festas de final de ano, eu e minha esposa. Seus pais nos eram muito amigos antes de se mudarem, e eu enxergava, desde o dia em que reparaste na minha aura, que tu tomarias tal caminho.

- Então você conhece meus pais? Mas eu não lembro de você, nem da sua esposa. Disse isso meio desconfiado, tentando disfarçar o receio da minha voz, com insucesso.

- A Marta conheceu tua mãe quando foi fazer a matrícula do nosso filho no colégio, tua mãe estava lá fazendo a tua. Uns dias depois eu conheci teu pai em uma reunião, logo ficamos chegados, e eu sabia que não era coincidência, na época não soube avaliar minha responsabilidade nessa empresa, mas hoje consigo enxergar.

Olhou-me com olhos de alegria, olhou para a Bê logo em seguida.

Eu me senti estranhamente em casa, despido de coisas desnecessárias que há tempos vinha carregando, era o vazio mais profundo e completo que poderia experimentar, lembrei da história do monge que “acordara” para o mundo espiritual quando recebera um tapa de seu mestre, como as coisas podiam ser simples e corriqueiras, tanto que, normalmente, nas confusões da nossa rotina, passam por nós desapercebidas.

Convidou-nos para entrar antes de nos apresentar o lugar, nos ofereceu chá e alguns biscoitos. Ele percebeu meu olhar de curiosidade para o salame pendurado ao lado da geladeira. Eles tinham luz lá, e ele me explicou que nem todos eram vegetarianos, santos, monges, budistas, algumas pessoas simplesmente passavam alguns dias de descanso por lá, assim como nós.

Enquanto colocava um tênis, falou, como quem comenta fatos diários, que eu deveria decorar algumas passagens dos papéis que me foram entregues, também foi sucinto ao citar as práticas que deveriam ser realizadas, impreterivelmente, ao nascer do sol, ao meio-dia, ao pôr-do-sol e à meia-noite, a prática constava no Liber Resh vel Helios, e que em uma semana eu deveria receber o próximo grau da ordem em uma cerimônia mágicka.

Eu lembro daquela semana como a mais viva de todas que tive até hoje, a mais cheia de cores e de sons, de cheiros e de sensações, e a perfeição disso tudo se misturava às obrigações mágicas e aos deveres domésticos daquela parte do templo. Tudo era um imenso ritual, cheio de significado por todos os lados.

O transe de uma situação muito bem preparada é terrivelmente superior ao transe obtido por acaso numa exaltação momentânea do espírito. Nunca terei subtraído de mim as visões e vozes daquela noite, minha consciência superlativa, um poder quase sobrenatural, e minhas noites jamais tiveram o mesmo gosto de intervalo, de morte.

Continuo sem coragem de comentar sobre essa viagem com qualquer pessoa que não seja a Bê, nem mesmo perguntei aos meus pais acerca do britânico Alexander, casa com a brasileira Marta, contudo, às vezes me parece que eles sabem de tudo, às vezes me parece que muitas outras pessoas sabem, e penso que estou constantemente sendo vigiado e preparado para uma prova maior.

[Veja também: Válvula de Escape]

Parte Sexta

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                Era um olhar intenso, porém, desprovido de qualquer intenção perceptível, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.

                Algo me atraía naquela mulher, não era propriamente a beleza dela, pois que ela não era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabeça. Minha atenção era para sua expressão, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mistério pedindo para ser revelado. Nessa atração incoerente eu me vi perdido. A Bê me olhou, pois havia diminuído o passo.

                – Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.

                – Como assim? Ela respondeu, com um misto de espanto e graça, e continuou, agora mais convicta de que eu estava apenas brincando. E o que tu vais dizer pra ela? Vais, por acaso, cantar a mulher aqui? Eu fico esperando, não tem problema. E riu.

                – Não sei o que dizer. E não, eu não vou cantar ela.

                Já estávamos quase em frente a ela quando a Bê parou. Eu dei mais três passos e parei bem na frente da mulher, que se levantou, me olhou fixo por alguns breves segundos que pareceram cheios de significado. Seus olhos perspicazes analisaram minha fisionomia rápida e friamente, eu o percebi como se fossem revirados meus pensamentos e idéias.

                – Marta. E o seu?

                – Daniel. Respondi com calma na voz, mas com a respiração um pouco nervosa, nesse momento nem percebi o sotaque gaúcho dela, que não era correntina, como descobri horas depois.

A Bê estava olhando.

                – Eu sei da estranheza da situação, vir a me encontrar aqui, assim, quase por acaso. Uma pausa na fala dela, e uma pausa em mim mesmo, estava suspenso  e confuso. Se você perdeu sua visão, você não tropeça em alguma coisa uma vez só, mas continuaria tropeçando de novo até recobrar o sentido perdido. Deve conhecer essa frase.

                – Sim, é de um comentário do Crowley aos probacionistas da Golden Dawn.

                – Pois bem, até então você tropeçou, vem tropeçando há tempos, e agora conseguiu assumir a responsabilidade de se encarar. A Ordem se move por modos sutis, e nesse mundo de câmeras e internet e informação, ficava fácil rastrear nossos membros. Pois bem, foi-me dado isto para lhe entregar, e espero que seja útil.

                Recebi nas mãos o embrulho, leve, provavelmente algumas cartas, rituais, não sei, não quis abri-lo ali. A Bê estava quase ao meu lado já, e observava Marta com curiosidade, e esta também lhe voltou os olhos. Como eu estava nervoso, a Bê parece ter assumido minhas palavras e convidou a Marta para ir a algum restaurante, ou bar, acrescentou que já sentia fome novamente e seria ótimo ter uma companhia para nós dois.

                Fomos até um um bar ali perto, bem bonito, com mesas e cadeiras de aço na calçada, mas devido ao vento gelado resolvemos entrar. Ficamos numa mesa perto do janelão de vidro, de frente pra rua. Pedimos uma cerveja e uma porção de filé.

                Eu tinha a impressão de já conhecer aquela mulher. Certamente ela era brasileira, quase tinha certeza de que era gaúcha. Eu tinha amigos thelemitas, tinha parentes em Porto Alegre, enfim, o mundo é pequeno, às vezes as coisas podem parecer incríveis mas ao se investigar um pouco a fantasia cai por terra, e a simplicidade toma conta novamente. A simplicidade é como uma Lei da Física, ondas eletromagnéticas procuram o meio mais rápido e curto para se propagar, nós, infelizmente, nem sempre seguimos tal hipótese, e isso parece incorrer em diversos contratempos e estresses psicológicos.

                Ficamos um tempo ali sentados, e eu estava dentro do pacote, sem abrí-lo. Meus olhos, meus pensamentos, por momentos insustentáveis ficaram presos naquele pacotinho, e naquele tempo esqueci de qualquer outra coisa, era como um encantamento. Ouvia apenas as vozes das duas belas mulheres comigo, e somente sexo me tiraria a atenção dessa surpresa. Marta era bonita ao seu modo, Bê era linda de vários modos, mas eu não podia pensar em sexo com nenhuma das duas, apesar de não ter visto nenhum anel de noivada ou casamento na mão da Marta.

                Finalmente me dei contade de que deveríamos sair dali, não sabia quanto tempo demoraria para ir de taxi até o aeroporto. A nossa aparição correntina nos ofereceu carona até o aeroporto, o que poupou-nos uns bons pesos argentinos. Fui no banco da frente, então entrei na conversa e deixei de lado um pouco o embrulho. Perguntei quem havia pedido a ela que me fizesse essa entrega, ela desconversou, falou de rituais, de símbolos, tudo conhecido por mim e pela Bê. Eu sabia que o que os Mestre da Ordem Interna decidissem não seria tão facilmente divulgado, logo me contentei com o que tinha até aqui. O pacote continuava fechado.

                Ao nos deixar no aeroporto me entregou um cartão, e, enquanto eu o lia, ela se despedia da minha companheira de viagem com um abraço. No cartão dizia que ela era advogada, tinha números de um escritório, de seu celular e um e-mail, além do nome completo: Marta de Souza.

                Às 23h estávamos dentro do avião, cheirando a cerveja e cigarro. Queria abrir logo aquele pacote, não sabia se devia fazê-lo sozinho ou na frente da Bê. Ficar sozinho nesse vai-e-vem seria difícil. Resolvi abrir logo depois da decolagem, antes do sono chegar.

 

[Veja Também: Válvula de Escape]

therapeople

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Neste inverno, as tendências são: piadinhas de ironia popular, tão infrutíferas e sem sentido quanto a acomodação interpessoal de escolhas musicais, vestuárias, intelectuais e (oh! Que surpresa) desanimo anímico.
Vejo uma onda crescente do “cool”, descolado, desleixado, tudo isso tendendo a uma preocupação excessiva e excessivamente destoante da preleção inicial do estilo adotado. Pois bem, sinto-me cansado e com asco desse maneirismo.
Cresce, também, o gostinho pelo rockzinho iêiêiê, o orgulho de dizer “oi, sou retrô e escuto rock com quatro acordes”. Os Beatles estão voltando na pele de cordeirinhos copiões chamados The Kooks, The Kinks ou The qualquercoisaassim; Dylan na mão de outros pretensiosos Vanguart, Mallu Magalhães e outros jovens músicos ainda muito crus. Pois posso até comparar essa tendência às músicas fracas e simples com o Anticristo de Nietzsche, é como idolatrar o fraco, o não virtuoso, somente para aliviar a culpa de sermos tão pequenos e nos conformarmos com essa posição de músicos desajeitados. Ainda que eu tenha uma simpatia pelo Camelo pelo Los Hermanos, seu álbum solo me soou bastante necromante, ressucitando o que havia de mais simples na MPB há anos atrás.
Essas tendências nunca vêm sozinhas. O gênero das novas piadinhas despretensiosas, acusando o indivíduo de um auto-elogio ao se pensar tão inteligente e sarcástico de poder ter inventado tal jocosidade. As anedotas estão ficando cada vez mais rasas e inúteis, nada surpreendente para o nonsense tão em voga. Existem os que pensam que esse nonsense é pura arte moderna, a expressão do self, como um “limpar a chaminé” primitivo.
Contudo, o asco maior vai aos resultados dessa embromação psico-moderna: a falta de ânimo no espírito. Perdidos nas redes de como parecer ser não sendo nem o pretendido – é assim mesmo, um vai e não vai concomitante, talvez até o duplipensar do G. Orwell aqui cairia bem – o pessoalzinho vai perdendo a fibra, a força e a coragem. Eis o ócio no seu sentido mais vão, a preguiça mais inexorável e a desatenção mais perigosa.
Por conseguinte, só posso ver um resultado disso tudo: marasmo. Ficar estagnado, assistindo aos diversos papéis sem escolher um, fingindo ser protagonista quando nem figurante se é. A platéia bate palmas enquanto escapam de sua vida interna, secando cada vez mais.

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