Posts tagged romance

Causos abafados

3

Por que a vida alheia é tão importante? Por que é tão necessário se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber notícias das vidas que não as nossas?

Quanto mais chocante, melhor. A audiência e a importância crescem de forma diretamente proporcional à intensidade da desgraça.

Também, temos uma enorme necessidade de expôr, de colocar pra fora, de limpar a alma falando ou escrevendo sobre nossos medos, angústias, ansiedades, dores, alegrias, conquistas, vangloriamo-nos e assim nos queremos bem.

(mais…)

O Lobo da Estepe

3


Pois então, acabo de ler O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. É o terceiro livro que leio desse alemão, possivelmente escreverei outro dia sobre os outros dois (Demian e Sidarta), livros estes que, assim como este último que li, foram marcos em minha vida, como chamam comumente, divisores de água.
O talento de Hesse era natural, via-se que se fazia simples e dinâmico em seu modo de escrever, tanto nos romances quanto nos poemas que tive a oportunidade de ler. As palavras, as histórias, a musicalidade e a genialidade corriam livremente pelo poeta alemão, provavelmente pela rigidez com que o audacioso auto-didata trazia consigo.
Filho de pais protestantes, extremamente religiosos, Hermann foi na contra-mão do cristianismo que lhe tentariam impôr. Não só se opôs ao que seus pais acreditavam, como seguiu um caminho de estudos espirituais pela índia (lendo Sidarta podemos ter a idéia) e, também, de psicanálise junguiana (de certa forma exposto em Demian e o próprio Lobo da Estepe).
Os poemas de Hesse eram sem igual, talvez sejam dos melhores que já li, muitos deles dedicados a sua mãe, pela qual tinha imenso carinho. Porém, a profundidade dos seus romances é o que mais surpreende. O autor narra a história com maestria, descreve hábitos e vícios de personagens, vai além e, visceralmente, esmiuça a psique dos personagens; porém, ele vai além, ele transcende o psíquico, o emocional e o físico.
Hermann tinha o dom de dar aos seus romances climas extasiantes, tendo inebriantes momentos de absorção completa naquele mundo. Quando lemos o Lobo da Estepe somos jogados dentro de um mundo confuso de um homem acima dos cinqüenta anos, um solitário e triste homem, que vê em si mesmo um homem maduro e racional mas também um Lobo de instintos e selvageria. Nessa dicotomia se descobre muito mais que dois, vê-se repartido em milhares de Harry (nome do personagem principal), e ingressa numa jornada mágica de auto-descoberta, ajudado por pessoas que aparecem em sua vida num momento crucial.
Hermínia é a grande Beatriz da personagem, e Pablo, provavelmente, o Virgílio. Jogam o homem-lobo para situações que ele evitaria, mas se dispõe a enfrentar medos que aos olhos de muitos pareceriam bobos, mas não a ele, não ao lobo solitário nem ao homem nada sociável.
Harry descobre haver alegria ainda, descobre sobre o teatro da loucura, sem razão, que é tudo que lhe envolve. Num misticismo cheio de voluptuosidade e frenesi, dignos de Macário, Harry completa sua jornada pelas portas de sua vida, e entende a verdade em si, ou de si, ou do mundo, enfim… isso é algo que o leitor deve concluir por si, eu mesmo não tirei conclusões. Talvez me falte maturidade ainda para me conhecer dentro dos meus próprios corredores psíquicos, ou anímicos. O que me torna ainda apenas um homem e um lobo.
Teatro Mágico: entrada só para loucos.
Enquanto isso, continuo tentando barganhar meu ingresso pra esse espetáculo.

mas silencia

0

Queria te amar… queria tanto. Forçava cada lágrima, cada situação, imaginava momentos doridos em que, por ti, eu pudesse chorar, mas não conseguia. Queria muito te amar, mas era só desejo.
Via-me sozinho, por várias vezes, desejando-te como companhia, nada além. Não sei o que envolve o amor, mas entendo o desejo.
Talvez nem me seja possível amar outra pessoa, senão a mim mesmo, a meu espírito. Meu coração pragueja e meu corpo aceita uma solidão indiferente, desnecessária. Era óbvio que não precisava estar só, mas meu desconforto com a falta de amor a outra pessoa me deixava desconexo. Como acordar ao lado de alguém que quer carinho e romance quando você, somente pelo fato de tê-la usado como companhia, não suporta o vazio criado dentro de si? Gerou-se a solidão a dois, e, perdoem-me, não sou conivente com isso.
Queria te amar, mas tu terias que ser mais do que a companhia das noites chuvosas. Deverias ir mais longe do que partilhar sonhos e neuroses, intimidades e prazeres. Precisas estar visceralmente intrínseca, em cada parte de mim, mofada, como um parasita, uma forma celestial em meus sonhos.

Ah, onde estás? Acordaste bem? Aquele, ao seu lado, é companhia ou amor? Dá-me uma ingrata esperança.

Go to Top