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therapeople

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Neste inverno, as tendências são: piadinhas de ironia popular, tão infrutíferas e sem sentido quanto a acomodação interpessoal de escolhas musicais, vestuárias, intelectuais e (oh! Que surpresa) desanimo anímico.
Vejo uma onda crescente do “cool”, descolado, desleixado, tudo isso tendendo a uma preocupação excessiva e excessivamente destoante da preleção inicial do estilo adotado. Pois bem, sinto-me cansado e com asco desse maneirismo.
Cresce, também, o gostinho pelo rockzinho iêiêiê, o orgulho de dizer “oi, sou retrô e escuto rock com quatro acordes”. Os Beatles estão voltando na pele de cordeirinhos copiões chamados The Kooks, The Kinks ou The qualquercoisaassim; Dylan na mão de outros pretensiosos Vanguart, Mallu Magalhães e outros jovens músicos ainda muito crus. Pois posso até comparar essa tendência às músicas fracas e simples com o Anticristo de Nietzsche, é como idolatrar o fraco, o não virtuoso, somente para aliviar a culpa de sermos tão pequenos e nos conformarmos com essa posição de músicos desajeitados. Ainda que eu tenha uma simpatia pelo Camelo pelo Los Hermanos, seu álbum solo me soou bastante necromante, ressucitando o que havia de mais simples na MPB há anos atrás.
Essas tendências nunca vêm sozinhas. O gênero das novas piadinhas despretensiosas, acusando o indivíduo de um auto-elogio ao se pensar tão inteligente e sarcástico de poder ter inventado tal jocosidade. As anedotas estão ficando cada vez mais rasas e inúteis, nada surpreendente para o nonsense tão em voga. Existem os que pensam que esse nonsense é pura arte moderna, a expressão do self, como um “limpar a chaminé” primitivo.
Contudo, o asco maior vai aos resultados dessa embromação psico-moderna: a falta de ânimo no espírito. Perdidos nas redes de como parecer ser não sendo nem o pretendido – é assim mesmo, um vai e não vai concomitante, talvez até o duplipensar do G. Orwell aqui cairia bem – o pessoalzinho vai perdendo a fibra, a força e a coragem. Eis o ócio no seu sentido mais vão, a preguiça mais inexorável e a desatenção mais perigosa.
Por conseguinte, só posso ver um resultado disso tudo: marasmo. Ficar estagnado, assistindo aos diversos papéis sem escolher um, fingindo ser protagonista quando nem figurante se é. A platéia bate palmas enquanto escapam de sua vida interna, secando cada vez mais.

whiter shade of pale

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Ele olhou em volta, havia tantas portas, uma infinidade, um sem número, incontáveis e todas da mesma forma. Nenhuma inscrição, nenhum número de identificação, entretanto, em cada uma havia uma, podemos assim dizer, aura diferente. Ele deveria, pela primeira vez, refutar toda sua racionalidade e, finalmente, mergulhar na sua incosciência e sensibilidade, descobrir o que cada uma lhe traria sem saber o que havia por trás. Uma vez escolhida a porta, as outras se trancariam eternamente, talvez tivessem entradas por outras salas, mas isso é só uma hipótese.
Pobre, tinha tanta dificuldade em se despir da sua razão e apenas sentir o que elas lhe diziam que ficou tanto tempo parado, sem sequer se aproximar, tendenciosamente, de uma delas.
Por fim, resolveu obedecer a um impulso ignoto, coisa de animal, o tipo de sentimento que ele costumava relevar, ou omitir, ou até mesmo esconder de si mesmo. Aproximou-se de uma das portas e, lentamente, começou a ser invadido por um saudosismo. Mas aquilo não tinha sentido algum, era uma sala cheia de portas, fechadas, sem janelas, uma parca luz vinda de algum lugar, era óbvio que sentiria uma sensação do tipo, seria jogado para a infância, lugares na memória onde se sentiria confortável e seguro.
No entanto, as lembranças ficavam cada vez mais nítidas. Lembrou-se de um dos dias em que saiu pela rua com seus amigos para fazer nada, tinham todos entre dez e onze anos, compraram uma coca-cola e vários salgadinhos, e caminharam em direção a praça. Era perto das cinco horas da tarde, o horário de verão ainda não havia começado, em cerca de uma hora iria escurecer, e eles se sentiam livres, leves, donos de si, com guloseimas e um mundo imenso ao seu redor.
Havia um cheiro suave das árvores ao redor, e eles sentaram no banco da praça, estavam entre quatro. O clima não era mais tão frio, era agradável, havia um vento não tão suave vindo do sul, e eles conversavam sobre rock and roll, sobre as namoradinhas da sexta série. Tudo era divertido, cheio de ingenuidade.
Ele se afastou da porta. Sentiu a tristeza de olhar para trás, tinha a certeza de que jamais teria anos tão felizes quanto aqueles da sua juventude.
Sentia um aperto no coração, literalmente, parecia que se lhe houvessem socado no peito não seria tão ruim. O amargo o fez recuar e se dirigir para uma porta mais à esquerda. Ao chegar perto sentiu um cheiro de comida, era carne de panela e feijão. Parecia que podia tocar no cenário, mas se via um adolescente agora, já tinha quinze anos, era meio-dia e chegara do colégio para almoçar, sua mãe preparava o almoço, e ele estava brigado com seu pai, já manifestava os primeiros sinais de auto-afirmação. Olhava para o pátio da casa e observava as nuvens escuras chegando rapidamente com o vento, em breve iria chover, e ele poderia ficar o dia inteiro em casa, sem fazer nada de especial. Sentia naquilo tudo um vazio, ali começara sua derrocada, naqueles momentos sóbrios de ociosidade infrutífera, iniciara ali seu afastamento do mundo, o pequeno lobo aprendendo a ser selvagem, mostrando os dentes.
Afastou-se dessa porta também, não sabia o que mais lhe doía, se era a saudade de tempos incontestavelmente ótimos ou o reconhecimento de erros tão distante e pueris que, mesmo podendo ser concertados, demandariam um esforço quase sobre-humano em sua psique. Ele já era matéria sólida, sua teimosia em si mesmo residia como um parasita lhe sugando uma seiva vital.
Permaneceu um tempo parado no centro da sala oval, olhando para o chão, vendo a luz fraca se espalhar. Batalhava contra si mesmo, o lobo queria dar um jeito de sair do jogo, estava cansado e precisava morder alguma coisa, o homem queria saber de cada porta, o que elas significavam e outras tantas coisas.
Num esforço, voltou-se para trás e foi rapidamente para outra porta. Tocou nela, sentiu sua textura, era madeira, cedro, espessa, escura, fria. Aquela frieza o lembrou de tempos não tão distantes, das suas buscas vãs por um espírito satisfeito, por uma alma sadia, mas o mais perto que chegou foi do sadismo. Havia sexo ali, e só sexo, já não conhecia o amor apaixonado da adolescência, nem o amor comedido dos seus vinte anos. Já estava com vinte e cinco, recém formado, trabalhava e ganhava um dinheiro bom. Saía aos finais de semana com os poucos amigos que tinha, e estes ele sempre os mantinha a certa distância com medo não se sabe de que. No seu quarto só entravam mulheres, às vezes até mais de uma na mesma noite. Era sexo, e só sexo. Sentia falta do amor, e esse vazio o fazia distante, satisfazia-as com prazer, mas nunca com sentimento, não por maldade, mas por impossibilidade. Já nao era apto ao verbo amar.
Meditava, outras vezes, com seus exercícios espirituais, sem nunca saber ao certo se estaria fazendo a estrada correta. E essa dúvida revivida o fez recuar da porta e pensar que poderia ter seguido por escolhas erradas atrás de outras também erradas, enganando-se de porta em porta, já não poderia voltar nem mesmo imaginar alguma outra hipótese de vida.
Com toda certeza, aquela foi a porta que mais lhe esvaziou os sentimentos. Não era dor, era comedimento e resignação. O lobo estava angustiado, já babava de raiva, mas o homem sufocava o instinto, e a ira ficava contida.
Resolveu tentar outra vez. Havia uma porta reto a sua direita, e ele se dirigiu para lá. Ao chegar bem perto, sentiu nada, absolutamente nada. Era como se ficasse envolto de uma luz totalmente branca, a maior alvidez possível, o próprio princípio da luz. E já não sabia quantificar o espaço ou o tempo, não sabia se situar em coordenadas ou dimensões.
Havia cansado de memórias, de lamentações. As ilusões eram as mesmas, invariavelmente. As lembranças estariam sempre ali para ele se lamentar de suas escolhas, sem nem ao menos lhe ser permitido saber se teria possibilidade de ter feitos caminhos diferentes. Às vezes acreditava que não podia, nunca, ter feito nada diferente, se lhe dessem mil ocasiões repetidas, ele seria impelido por forças incognoscíveis a fazer mil vezes exatamente o mesmo.
Ah,ele abriu a porta e entrou, resoluto.

C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor

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Ontem à noite vi um filme. Deus, isso por si só já é um grande evento, porque nos últimos tempos não havia macumba que me fizesse ou ficar acordado ou vencer a ansiedade pra não trocar de canal no meio do filme, ou ainda fazer outra coisa ao mesmo tempo. Então, falemos do grande evento que me foi assistir esse filme (ai ai, suspiro saudosista da minha época de cinéfolo – folo?).
Pois bem, o nome do filme é C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor. Há tempos eu via as chamadas nos intervalos do Telecine e ansiava por vê-lo, ontem dei sorte de ligar a televisão bem na hora que começava.
A história é de uma família comum, isso implica em problemas, vidas conturbadas, drogas, brigas, homossexualidade, bebedeiras e muita música boa. Zac, um dos filhos de um casal europeu bastante típico, é o protagonista, e possui 4 irmãos: o mais velho (creio eu), extremamente rock and roll, drogas, sexo (hetero), tatuagens e cigarro o tempo todo; um outro irmão, que não recordo o nome, estilo semi-nerd, inteligente, um promissor na arte almofadinha; o terceiro, um esportista, jogador de algum esporte, com tudo que tem direito o estereótipo; Zac, o sexualmente indefinido, oscilando entre homossexualidades e garotas (mas hetero do que homo), não tantas drogas quanto o irmão mais velho, um estilo meio poser, um fã de David Bowie, que mais tarde ganha a vida como discotecário; e, finalmente, o mais novo, gordinho, cabeludo, sem importância nisso tudo.
São vários os momentos interessantes do filme. A fotografia é ótima, mas melhor ainda é a trilha sonora, impecável. Quanta intensidade naqueles relacionamentos, e a fundamentação psicológica dos personagens, com suas impressões, idiossincrasias e nuances.
Fiquei extremamente tentado a dar detalhes, descrever minhas opiniões, mas não o farei. Veja o filme, só digo isso. O final nos reserva momentos de incrível emoção, coisas q Hollywood não faz por você, mas o cinema europeu faz. Uma lição de tolerância, de valores de uma família de verdade.
Valores? Sim, valores. Ser casto, asseado, branquinho e polido o tempo todo não é a essência. A humildade, o saber voltar atrás, o saber perdoar ofensas, saber que o sentimento de paternidade, maternidade, irmandade, qualquer relação desse tipo, está muito acima de efêmeras inconveniências.
Filmes inspiradores assim me deixam tão desinspirado.

achou?

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Alguém viu um pedacinho de vida por aí?
Se viu me avisa, é meu. Não sei onde deixei.

E se eu deixei na escola, no meio do pátio do recreio?
Já devem ter levado e estão aproveitando do pedacinho.

E se eu deixei nos cortes da adolescência?
Sangrou pelo ralo e não percebi.

Será que foi no trago com rock and roll?
Sabe como é… amigos e tragos…

E se esqueci em casa, junto com o nescau e as bolachas recheadas?
Será que a mãe colocou no lixo, sem querer, junto com os farelos do pão?

Ou no campo de futebol?
Lembro do final de tarde, após o jogo, eu conversava com os amigos e fui embora distraído. Posso ter deixado lá.

Ah, não!
E se esqueci, naquela madrugada, naquela casa?
Será que ficou guardado?

estrelas

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Vivemos como se dançássemos… o bom e velho rock’n’roll. Comemoramos nossa própria indignação, avivamos a chama de qualquer sentimento, elogiamos o inimigo, pois, assim, maior é a nossa vitória.
Saímos sob as estrelas, bebemos em nome da própria vida, comemoramos a nós mesmo, e tudo o mais que estivermos com vontade. Nascemos pra fazer filosofia, de bar, de vida, pobre, fingida, ébria e esquecida…esquecida.
Fumamos, a fumaça nos faz recordar a etérea esperança de retornar ao etéreo. Voamos em pensamento, nos comprazemos diante de qualquer brilho de beleza, de força, seja sob a forma que quiser se manifestar.
Dançamos parados, nossos pensamentos são tão rápidos e altivos quanto uma águia… são águias. Mas eles que são, nós mesmo ainda não, por isso eles podem ter um horizonte muito mais amplo pra vislumbrar, mas nós teremos um dia, todos eles, toda singular vastidão de cada um, são profundos e leves.
Somos de nós, somos para nós, só depois nos damos, nos engrandecemos. Somos viajantes, renovadores, novos, mutáveis e voláteis; somos a águia e a serpente, o fogo e a água, de tudo que há, escolhemos o nosso, e aquele é o nosso pão, nada mais… nada mais.
E já é muito.

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