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fragmento I
0As palavras se esmorecem num poema natimorto
Quando tu nem vens ver se há, ainda, em mim, cores
Que possam trazer vida diferente da minha ausência
De mim mesmo, como barco perdido do seu porto.
O poema nasce sem objetivo, senão o próprio defeito
Idiossincrático, jogado ao acaso para minha consciência;
E salvei-me da morte na minha racionalizada insolência
Ao fazer do objetivo a dor, e o meio a poesia meio sem jeito.
Do que cresce em mim, não vejo jardins nem os pagos
Que queria ter cultivado em cada manhã gelada,
Vejo o cativado despedaçado, a enseada maculada
E o esquecimento enegrecido dos teus afagos.
Não há lótus brilhando no lodo que me circunda,
Não há ar puro nesse enxofre denso e sufocante;
Morro na dor prometéica, diariamente e a cada instante,
Só perdura minha doença, intocada, viva e profunda
do sol que apaga
0Por que quereria eu um dia de sol
Se em mim vejo nuvens carregadas,
E teus olhos brilham em outras enseadas ,
E daquele horizonte não sou arrebol.
Só poderia sorrir em dias desanuviados
Se em ti me visse novamente como um,
Não ser apenas lembrança comum,
Viver em ti, volver aos vergéis velados.
Cantar em ti minhas poesias,
Cheirar a pele tua em cada hora dos dias
- Tu nua em minha cama cheia de melodias – .
Porém, os dias de sol são sem alegrias,
E se rebentar em ondas dum temporal
Abrandar meu coração, anseio por tal final.
posse
1Mas vês, ainda assim possuís a mim;
E me tens, sempre sem saber.
E calo no que deveria dizer,
E pronuncio o calar sem fim.
Falo em teorias, em poesias,
Em textos, em palavras parcas…
Farto das próprias marcas,
Distraio, a ti e a mim, em fantasias.
Prolixo, silencio no importante.
Firme, falo, em fria fonética,
Da alma, mente, moral e ética,
Para trazer-te a mim num instante.
E, ainda assim, em olhos me tens,
E em pele, ouvido, cheiro e boca,
Quando, numa voz baixa e rouca,
Sussurro: tu assim me tens.
carência de si, ou de mi
1Acho que foi no Zero Hora, li uma entrevista com a Fernanda Young. Primeiramente, devo elogiá-la pelo caráter, por ser ela mesma independente do que falam ou pensam, podem até não gostar dela, mas a sinceridade e retidão para consigo que ela tem, ou ao menos demonstra ter, deve ser parâmetro e exemplo para nós.
Aliás, quem tem visto o programa O Sistema, da rede Globo? Ela é escritora do programa, junto com, acredito eu, seu marido. Estou adorando, é uma viagem completa, uma ironia não muito forte, mas divertida, e piadas inteligentes ou, talvez, intelectuais.
Enfim, já ia me esquecendo o porque de ter citado ela. Retomemos: foi numa entrevista com ela que li sobre a “necessidade” dela de escrever, não vou lembrar exatamente os termos que usou nem os porquês mais precisos, o que também não vem ao caso.
Meus caros, e raros, leitores, este que aqui lhes fala compartilha da Sra. Fernanda Young no que tange a uma necessidade de escrever. Pois bem, vejamos, o ser humano sente uma necessidade de viver, é inquieto, insatisfeito, incompleto e inacabado. Não vejo muitas exceções a essa regra. Se mamíferos humanos são impelidos a viver como caçadores, antes de comida para sobreviver, hoje de qualquer coisa que os compraza, se há essa necessidade, e eu vejo nescidade nisso tudo, nessa imperfeição, nesse ser desajeitado e desorientado, se vejo tolice em grande parte das coisas que vejo quando estou são – seria muito mais sábio admitir sermos ainda animais completamente reacionários aos instintos e impulsos externos. Nesse sentido, e nessa tendência minha à exclusão, vejo a arte como um meio de propagar sentimentos intensos e pesados, aqueles que não vivo, pois se me apaixono não dura mais do que uma ressaca.
A certeza do que escrevo é estúpida, amanhã é incerta. Assim são os poemas incrivelmente negros: metamórficos e mutáveis. No que escrevo existem apenas possibilidades, mas dificilmente verdades completas (e verdade pela metade é mentira). Escapo por ali na minha vontade de viver intensamente, se há algo ali é inveja de não conseguir ser sempre desatento e superficial (por isso há o álcool, e, ainda assim, em doses altas).
Portanto, caro leitor, cuidado: sou ficcionista, romântico e irônico; uma verruga na vida da poesia. Quem me há de cauterizar? Sou animal, instintivo, e aqui expresso o que não é para que, ao menos finja, por alguns segundos, ser; afinal, como escreveu o Marcelo Camelo (ou o Rodrigo Amarante), “e alguma coisa a gente tem que amar, mas o que eu já não sei mais”. Além da família, amigos de verdade, eu mesmo, meu SAG e minha nódoa de razão desajuizada que chamam de poesia, não há nada mais para amar. Escrevo na necessidade de amar algo que não alcanço e não termino(a), pois sou animal insatisfeito.
Minguante
0I
Carrega a alma na poesia,
Satura versos de pestilência,
Revela toda a ausência
Da felicidade que trazia.
Em negro pesadume,
Engenha estrofes de enxofre;
Como irado limítrofe,
Queima por dentro, grande lume.
II
E, sob sombra anêmica,
Escondia-se meu não desejo
De viver um malfazejo
De fuga hiperglicêmica.
Diziam-me as feras: desiste!
Mas lutava em escuridão;
Cego, minha boa intenção
É que me fazia em riste.