Posts tagged Poesia
Poesia suja
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Essa poesia branca e limpinha já não é a alma;
Essa poesia, cosida em um tapete de algodão branco,
Que se escorre, viscosa, por dedos magros
Não tem mais cheiro de espírito, somente de fantasia.
Essas nuvens alvas, redondas, que cobrem meio sol;
Essas aves que voam um vôo perfeito… são só imagens,
São escarros da nossa consciência,
São escape da nossa inocente inabilidade de ver.
Essa poesia que se enche de louros e outros ouros,
Essa poesia que, garbosa, vem bater na face da realidade
Não tem força, é muito menos real que um vômito de enjôo de uma viagem no mar.
Não existe métrica na fome, não existe rima na guerra.
Não existe leveza no mundo, senão nessa poesia branca e limpinha
Nessas palavras de poetas mentirosos.
Pele e perfume
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Uma vida para respirar esse ar
Que suavemente se abarrota
Dessa boa bela branca nota:
- É a existência diáfana em par.
Nos meus dedos que entrelaçam
E tocam quase sem tocar,
Num momento, fazem arrepiar
As melodias que se avançam.
Na pele e nos cabelos que, molhados,
Parecem, pois, conter um jardim;
Entro beija-flor que busca Jasmim
Num corpo de sabores temperados.
Há um buraco
1Da minha sacada eu vejo a rua
Há um buraco no asfalto
Todas as noites os carros passam por ali
E eu ouço o barulho dos pneus passando pelo buraco
E eu vejo as luzes indo e vindo
E isso tudo me faz companhia
Pois há um buraco…
Cinzeiro
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Sacode a poeira como se fosse um cinzeiro
Lança as cinzas só para dar espaço a outras mais
Mais frias, mais secas, mais tristes…
.
Deixa que lhe descartem os restos
Apaga a última chama do que lhe trouxe prazer
É um fim em si e isso é tudo, um semprefim
.
Apóia o passado apagado
Carrega em si os lábios que tocaram as sobras
Tem o gosto da ressaca de um mundo cinza
Dá gosto à ressaca da alma que lhe toca
.
E permanece assim, guardando as cinzas por necessidade
Coleciona cada boca amarga que lhe toca
Como um cigarro de prostituta
Um deserto
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Tem um modo de chover diferente;
É seco, semi-árido, no que vejo,
Em cada gesto ensaiado o ensejo
De parecer permanecer indiferente.
.
Não diz nada, cala como fosse eterno,
Quando fala não fala o que quer falar;
Corre os dedos pelas palavras, sem ar,
Escolhe uma a uma, um par,
E anota em um caderno.
.
Possui mundos que colidem em rotas confusas,
Que explodem em luzes soturnas,
Mostrando profundezas absurdas.
.
Naquele abismo, tudo é uma ofensa absurda,
Tal recôndito esquecido pela razão,
Lá chove, escorrem oceanos de lágrimas
Que pesam ao semi-árido lá fora.
.
E outro mundo colide.