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Há um inferno dentro de mim
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Há um átomo dentro de mim,
Ele guarda um inferno em seu núcleo,
E é como um radical livre:
Vai transmitindo o descompasso.
Um a um vão se contaminando os outros átomos
Até tudo se tornar necrosado.
Há um inferno dentro de mim
Guardado pelo meu núcleo;
No meu peito: uma chaga aberta;
Por ela se escapa um átomo;
Somos, ele e eu, um só fruto podre,
Contaminamos, pouco a pouco, o meio que nos rodeia:
- Um centro de pestilência!
Até que, por fim, tudo cheire a enxofre e podridão.
Há um inferno no mundo,
Escondido no centro da escuridão do infinito,
Num buraco negro desconhecido,
Num planetinha colorido,
E eles se colidem e se contaminam
E espalham ao universo um fim pútrido,
A via Láctea é o pus dessa ferida,
Que mata os elétrons e toda a vida.
E tudo torna a se recolher em morte profunda.
E há um inferno na morte.
Mas eu hei de nascer de novo,
Com o mesmo átomo dentro de mim.
Dos frutos podres – Parte Um
2Foi ontem ou anteontem, acordei perto das 07h da manhã para me arrumar para sair, fui até a cozinha esquentar água para um café e olhei pela janela, lá fora há uma bergamoteira, não está na minha casa, mas na casa do vizinho, contudo, a maior parte das frutas fica pro lado de cá. O que acontece é que, por não comer as bergamotas, a maioria delas apodreceu ainda no galho, e para que perceba aonde anda minha mente, eu tive alguns pensamentos um tanto peculiares.
Logo que vi esse cenário, pensei em mim, é claro. Sinto-me como uma dessas frutas que, sem conseguir se desvincular dessa rede infinita, sempre nutrida por algo envolvente, vai apodrecendo por tempos lentos e densos, sem saber precisamente como irá terminar. Vendo isso, temos duas opções para um fim: ou ser derrubado por um vento forte e terminar partindo ao meio no chão, com a queda não resta muito da fruta que já estava pútrida, a força do impacto, normalmente, é grande o suficiente para terminar com aquilo que dá características de uma fruta e transformá-la numa massa amorfa no chão; ou então ir secando, lentamente, secando e murchando, ficando escura, sem, contudo, se desligar da rede.
A segunda opção para o final que descrevi me parece a mais recorrente, a mais comum. Não são muitos aqueles que se percebem independentes, que conseguem, levemente, anular os efeitos autômatos do comprar e vender, e se vender; e são pouquíssimos aqueles que, tendo se apercebido nessa ilusão, conseguem se desvincular, esses são os frutos doces que logo são colhidos e têm um destino mais nobre. No entanto, eu falo dos que não têm força para fazer valer essa individualidade notada, e passam a vida secando, de dentro pra fora, murchando o espírito junto com a pele, perdendo o sabor enquanto assistem a uns frutos apodrecerem, a outros cairem, e assim por diante.
No nosso mundinho existem também aquelas pessoas que são folhas, nunca se tornarão frutos, passam a vida assistindo, sendo facilmente balançadas por qualquer brisa. E o destino mais belo para uma folha dessas é ser arrancada da árvore e voar alto com o vento, talvez essa tenha sorte de se transformar em matéria orgânica que alimentará uma causa maior, talvez ela mesmo se degrade e suas células se tornem parte de frutos vindouros.
Coloquei a água no café solúvel e voltei ao quarto para terminar de me arrumar.
só isso
2Hoje sou arauto da gangrena que é nossa vida
Esse pus que escorre em nosso cotidiano
Hoje vejo essa necrose no sentido de nossas vidas
E aperto firme, forte, para que doa
E que a dor nos faça abrir os olhos
Ninguém vai sarar, mas poderemos ver
Ah, que enxergar a podridão e não poder lavá-la é como a insaciedade anímica
Más notícias, meus caros, nossa sujeira não pode ser limpa
sem sal
1Ai, que eu cansei dessa nossa vida moreninha,
Tão bronzeada de sol,
Tão pacata e bonitinha,
Nesse insosso arrebol.
Deixa o calo doer e sangrar a ferida;
Nessa rede, descansados, tá tão ralo,
Todo esse nosso viver, querida;
É do adoecer e curar que eu falo.
É do cair e levantar nessa poeira
Que eu vi em nós a podridão,
E ali também outros verão
Essa loucura que nos beira.
