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Filhos das estrelas

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Acho incrível a fascinação que as estrelas me causam.

Lembro que desde criança gostava de ficar muito tempo deitado, ao ar livre, olhando o céu da noite, a lua e as estrelas, sem uma causa aparente, sentia uma atração por isso, uma sensação boa, de paz, calma, sossego e harmonia.

Inicialmente, havia algo puramente místico nisso, como se nesse simples ato de observação e, por que não, integração, eu estivesse transcendendo o que sou, passando a uma espécie de outro nível de consciência, e é um absurdo perceber, agora, que eu fazia isso nos idos dos meus treze anos, talvez até menos.

Com o tempo as coisas foram mudando, meu interesse por astronomia cresceu, bem como pela física. Aos poucos fui entendendo o funcionamento de algumas coisas sobre esses astros, a ideia de que aquilo era uma assinatura divina foi dando espaço, ou melhor, coabitando, vivendo em simultaneidade harmônica com o entendimento de que eram luzes, fótons, átomos, ondas, energias e milhares de coisas puramente físicas que, depois de muito tempo, chegavam a Terra com essas informações. A luz hipnótica era tão comum quanto o sol, diferindo (simploriamente) apenas pelo fato de demorar um tempo maior para chegar até nós. Aquela velha história, a luz que vemos de uma estrela hoje pode ter saído dela há mais de dez anos; pode ser que estejamos vendo somente um fantasma, pois não se descarta a hipótese de que esse astro possa ter morrido nesse meio tempo.

Ainda assim, a noite e suas estrelas conserva sua poesia eterna, misteriosa e perfeita. Se não me engano, foi em um livro do Dawkins que li uma vez que a física não estragaria a poesia, a beleza dos fenômenos, apenas daria um novo sentido, e eu devo complementar: um sentido mais profundo e intrigante, portanto, mais poético.

Acho que essa questão astronômica continua tendo seu peso esmagadoramente introspectivo e ensurdecedoramente transcendente porque, mesmo inconscientemente, sabemos que aquilo faz parte da nossa história, da história do universo inteiro. Um dia fomos apenas átomos, pó, carbono ou nem isso, uma energia amorfa e desarmônica, ou, colocando isso de uma forma mais bonitinha: poeira cósmica.

Somos filhos de um mesmo evento.

Somos irmãos em matéria e energia.

Saímos da mesma mãe e do mesmo pai, e podemos chamá-los Cosmos.

Talvez seja isso que nos deixe perplexos diante da insustentável infinitude da noite, o fato de ela tentar nos contar, diariamente, que somos fruto de uma coisa só.

Talvez seja por isso que ficaremos eternamente impressionados com a imensidão do universo, precisamos entender, trazer do inconsciente ao consciente a ideia, ou o fato, de que somos irmãos de Éons atrás.

Também, talvez o universo se expanda conforme a nossa ignorância, a nossa prepotência e a nossa arrogância: antes éramos um condensado único, esse deve ter sido nosso auge, depois disso viramos matéria e fomos nos distanciando, abrindo, cada vez mais, espaço para um vazio que agride nossa alma.

Hoje, há um imenso vazio, e ele pode ser chamado de estupidez humana.

Personagens

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Acredito que, de certa forma, em maior ou menor grau, todos acabamos interpretando algum tipo de papel. Só sabemos ser nós mesmos, de verdade, sozinhos… e de olhos fechados, e isso, digo, a muito custo ainda.

Alguns de nós passam anos e anos interpretando esse papel, escolhe-se um, ou o papel nos escolhe ou nos é imposto, e assim seguimos, teimosos ou persistentes, como queira, fazendo o que essa pessoas faria. A maioria de nós se apodera desse personagem, o torna parte de si mesmo, e passamos, por conseguinte, a chamá-lo de “Eu”.

N.R.: existe uma frase na música Beyond The Pale da banda Pain of Salvation que diz “life seemed to him merely like a gallery of how to be”, traduzindo seria algo como “a vida parecia para ele apenas como uma galeria de ‘como ser’”. Existem pessoas assim, aquelas nunca adotaram um papel para si, apoderam-se de um ou outro personagem, o são por algum tempo, o largam como se ele nunca tivesse existido, sem emoções, sentimentos nem ressentimentos, apenas uma cerca cicatriz que poderia ser chamada de abismo entre o que é SER alguém e ESTAR alguém. É meio desesperador.

Pois bem, miseravelmente, existem aqueles que se deixam dominar completamente pelos papéis histéricos, aqueles que vêem a vida com olhos de lantejoula. Sim, esses são mais miseráveis do que aqueles que não conseguem (ou não precisam, ou não querem) cruzar o abismo entre ser e estar, eles são os cegos, são aqueles que não se perguntam, nunca se perguntaram e, muito provavelmente, jamais se perguntarão, com sinceridade, quem são.

Eles estão dormindo, mas tomam todos os energéticos da mesa com o whisky 12 anos para impressionar e fazer a vida parecer um palquinho, uma cirandinha, e depois suas balas e pílulas consomem uma noite com alguma menininha tão sonolenta quanto.

Tenho um misto de pena e raiva desses, os atores profissionais do dia-a-dia.

Existem aqueles que bebem e se sentem bem, alegres ou tristes, mas sentem-se como queriam sentir; existem, também, aqueles que bebem porque faz parte do personagem, precisam interpretar o papel e enganar o mundo. Os miseráveis.

Encaixar-se em um papel chama-se, apoderar-se dele, corriqueiramente, personalidade. Não ter um papel, não saber como usá-los apropriadamente, pode ser chamado de despersonalização, acredito eu. Ser apoderado por um papel, vivê-lo na mais intensa fantasia do mundo da Barbie e do Ken, pode ser denominado… bom, acho que você entendeu, podemos dar vários nomes, estamos cheios de exemplos.

Não se deixe enganar, as diferenças às vezes são sutis, é possível enganar-se a si mesmo, pensar-se dono do papel mas, pelo contrário, ser apropriado pelo personagem.

Enquanto isso, a balada faz brilhar os olhos de lantejoulas, dois papéis se procuram num roteiro de novela barata onde as pessoas pensam que sabem o que fazem…

Mas e se…

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Quando começamos a correr muito, a ir depressa demais, as coisas começam a se perder pelo caminho. Os valores vão caindo da carroça, a moralidade e a ética ficam em alguma estalagem beirando a estrada, as pessoas importantes vão dando um adeus tímido através da poeira do caminho e nós nos vemos apenas como sombras, e vamos, meio sem querer, vivendo o que acontece.

É comum inúmeras posses e pessoas terem seus ciclos fechados em nossa vida, é natural que muito disso se torne apenas lembrança. No entanto, a pressa do dia-a-dia, a ânsia por mais e a vontade de ganância abafam muitas cores que ainda deveriam brilhar inocentemente em nossas vidas. Mas nos mexemos tão rápido que essas cores se tornam borrões no espaço deixado pra trás.

Aliás, borrões são, mais ou menos, aquilo que enxergamos da realidade.

Não só nos é impossível ter uma compreensão completa e exata do que cada coisa significa para uma pessoa, ou até pra nós mesmos, como somado à isso parecemos fazer questão de perder a pequena habilidade de razão e entendimentos, que nos são inerentes como seres humanos, e perdemos isso por descuido, por pressa e por ansiedade.

Mas e se tudo isso (ansiedade, pressa, afobamento, desatenção et Cetera) for apenas um resultado tão simples e notório da angústia que a vida nos traz? Se for assim, como deixar o brilho voltar às cores? Como permitir que a angústia encontre uma porta de saída e nos deixe em paz naquela clareira em que paramos na estrada, cheia de flores e sons e cheiros de sossego?

Mas e se só soubermos levantar hipóteses e não conseguirmos parar para entender o que a estrada está nos dizendo?

São tantos “mas e se” que eu me canso.

Vou pro meu sossego.

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