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Sidarta e a roda da vida
1“Veio-lhe à memória que perante Kamala gabara-se de saber realizar três coisas, de dominar três artes, nobres, insuperáveis: jejuar, esperar e pensar. Isso representava tudo que então possuía. Servira-lhe de esteio sólido. Dera-lhe força e poder. Nos anos duros, laboriosos, de sua juventude, Sidarta assimilara essas três artes, só elas. Mas depois as perdera. A essa altura nenhuma delas pertencia-lhe: nem a arte de jejuar, nem a de esperar nem a de pensar.” (Sidarta – Hermnann Hesse)

Esse é um trecho do livro Sidarta do autor alemão Hermann Hesse. O personagem Sidarta era, quando novo um brâmane, estudioso, aplicado e único na inteligência e espiritualidade, porém, insatisfeito com o que a erudição lhe dava, ou melhor, com o que ela não lhe dava, pois seu coração continuava sedento, nele ainda morava um vazio opressor, Sidarta foi ter, então, com os samanas, monges peregrinos.
Sidarta já era um rapaz quando se juntou aos samanas, deles aprendeu muitos truques, meditações, habilidades e, com eles, obteve inúmeros transes e insights; contudo, o jovem Sidarta continuava sedento e vazio.
Gotama, o Buda da história, é encontrado por Sidarta quando este decide deixar os samanas. Sidarta conversa brevemente com o Buda e entende que, apesar da doutrina de Gotama ser perfeita, ele não deve seguir doutrina alguma, pois que sua maior busca é a si mesmo.
É nessa busca incessante que Sidarta, de certa forma, se perde pelas vilanias do jogo, da avareza, do dinheiro e do sansara. Assim, no trecho citado acima, o já não tão novo Sidarta, agora beirando os 40 anos, resolve se desfazer das riquezas acumuladas nos “anos de desvio”, sentindo profundo asco de si mesmo.
Numa epifania, percebe que, de algum jeito, estava aprendendo seu caminho, ali entende que já não era mais o Sidarta do passado, mas ainda era Sidarta, reconhecia-se não sendo ele mesmo.
A rápida compreensão de que já não sabia mais as principais artes que o constituíam o faz, de certa forma, sentir-se bem. Aí entra a história toda: a mudança.
Somos assim, nossa vida passa enquanto reclamamos, enquanto cansamos, enquanto brigamos com coisas que não podemos mudar. Nesse emaranhado de emoções conturbadas, perturbadas, nessa entropia que vai aumentando em nossa mente, esquecemos de aprender, de observar, de pensar.
Eu também soube, um dia, jejuar (não tanto quanto o personagem), soube esperar e soube pensar. Hoje não domino mais essas artes.
Aprendemos e desaprendemos tantas coisas. Não me refiro apenas às matérias do colégio que nunca mais usamos, quero me referir ao jeito que fomos. Muitos de nós aprenderam a ser rápidos e responsáveis, mas desaprendemos a calma e o relaxamento. Criamos vínculos com coisas desnecessárias e não sabemos mais cortar essas raízes; desvinculamo-nos de coisas boas e nos importamos demais.
Logo depois, Sidarta “escuta” o rio, entende que, como o rio – que não tem passado nem futuro, pois está na sua fonte, na sua foz, no estreito, na balsa, nas cataratas, e tudo no único momento presente -, nós também somos um único ser, com sombras do passado e do futuro, somos o ido e o porvir, porém, o somos somente agora.
Eu já não sei jejuar, nem esperar, tampouco sei pensar como antes. Agora, espero que a vida me ensine a “escutar” o rio, entender da roda da vida e das ilusões do mundo das configurações.
5S – Seiri – Senso de Utilização
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SEIRI
O Senso de Utilização aplicado à mente parece um tanto quanto impossível, conscientemente. Talvez até mesmo seja impraticável voluntariamente, mesmo assim, se se considera possível essa prática, deve-se dizer que ela é importante. O fato é que, mesmo involuntário, mesmo inconscientemente, o senso de utilização ocorre.
Já pensou se não esquecêssemos de nada? Claro que já pensou, mas talvez não tenha considerado a hipótese de que isso pudesse ser uma terrível maldição; Nietzsche, contudo, considerou, e formulou aquela frase pop “abençoados os que esquecem, pois aproveitam melhor até seus equívocos”, ou algo assim.
Quando falamos em memórias, quando falamos em lembrar de tudo, esse tudo se refere à conhecimento, a lembranças úteis para o nosso desenvolvimento. E ainda que sensações e emoções de tristeza possam nos ser bastante úteis (tenho poucas dúvidas de que são as mais úteis), se pudéssemos esquecê-las viveríamos como em um mundo de fantasia, sem culpas ou pesares.
É, nós não somos muito propensos a seguir o Seiri, contudo, nossa mente não é nossa subordinada, aliás, está muito longe disso. Nossa psique parece ser programada para obedecer esse senso.
Frequentemente esquecemos daquilo que nos é incomodativo, esquecemos de momentos traumaticamente definitivos em nossa vida, e isso porque nos é útil apagar essas memórias, fingir que temos medo de determinada situação simplesmente porque ela pode ser perigosa e não porque, em algum recôndito da nossa mente, ela repousa em uma memória sem luz.
Deixar de lado aquilo que parece ser ameaçador, portanto, não-útil, parece ser uma habilidade bastante peculiar da mente, ela distorce, altera, esquece, apaga, ou seja como for, ela manipula com maestria nossa vida interna, se não estamos atentos.
Pode parecer meio amedrontador, mas já pensou no caos e no mundo recheado de conflitos que seríamos se simplesmente lembrássemos de tudo? Tenho certeza de que não dançaríamos um tango, mas uma marcha fúnebre.
Ou nasceríamos diferentes. Não sei, não me decidi.
Ajuda a opinar?