Posts tagged pensamentos

estrelas

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Vivemos como se dançássemos… o bom e velho rock’n’roll. Comemoramos nossa própria indignação, avivamos a chama de qualquer sentimento, elogiamos o inimigo, pois, assim, maior é a nossa vitória.
Saímos sob as estrelas, bebemos em nome da própria vida, comemoramos a nós mesmo, e tudo o mais que estivermos com vontade. Nascemos pra fazer filosofia, de bar, de vida, pobre, fingida, ébria e esquecida…esquecida.
Fumamos, a fumaça nos faz recordar a etérea esperança de retornar ao etéreo. Voamos em pensamento, nos comprazemos diante de qualquer brilho de beleza, de força, seja sob a forma que quiser se manifestar.
Dançamos parados, nossos pensamentos são tão rápidos e altivos quanto uma águia… são águias. Mas eles que são, nós mesmo ainda não, por isso eles podem ter um horizonte muito mais amplo pra vislumbrar, mas nós teremos um dia, todos eles, toda singular vastidão de cada um, são profundos e leves.
Somos de nós, somos para nós, só depois nos damos, nos engrandecemos. Somos viajantes, renovadores, novos, mutáveis e voláteis; somos a águia e a serpente, o fogo e a água, de tudo que há, escolhemos o nosso, e aquele é o nosso pão, nada mais… nada mais.
E já é muito.

silencia

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Ah, se as notas brumosas
Calassem em minha mente,
Deixassem-me ausente
De suas marcas belicosas.

Cessaria minha poesia,
Matar-me-ia a ferocidade;
Ah, que felicidade:
Mente e alma em cortesia.

Porém, essas megeras quimeras
Vêm assaltando meus pensamentos,
Sorteando-me tormentos,
Por infindáveis eras.

Ao abismo indecifrável

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Acima do prédio, ele estava no parapeito do terraço. Olhava para baixo, apenas algumas luzes na avenida movimentada ele conseguia observar, pois, além da enorme altura em que estava, o vento gelado fazia seus olhos lacrimejarem, atrapalhando a visão.
Como disse, ventava, muito, gelado. Seus cabelos voavam desordenadamente, e até em sua barba sentia o vento. Absorto em um mundo impensável, ele percebeu novamente seu corpo por um frio na espinha. Ao acordar de seus devaneios, tirou a camiseta e a soltou de lá mesmo, para o chão.
Assistiu a queda daquele pedaço de tecido, não muito barato. Ia caindo sem direção certa, às vezes flutuava um pouco, mas normalmente ia sendo tragado pelas rajadas. Lembrou-se de sua vida, sempre fora carregado como aquela camiseta, inerte e impotente, seguia a corrente, descaracterizado de si mesmo, vivera às custas das decisões alheias. Fantoche, robô, respondia a estímulos externos sem reagir por si, cada escolha fora feita por influência de seus pais.
Impotente!! Gritava para si mesmo.
Impotente!! Gritava para o mundo, sabendo que ninguém lhe escutaria.
Em um acesso de fúria, voltou ao centro do terraço, correndo, tremendo, não pelo frio que sentia, mas pelo sentimento inominável. Era indecifrável para si mesmo, um mundo de infinitas possibilidades, e ele temia sua própria infinitude. Pegou um tijolo que estava lá, provavelmente pela construção ainda incompleta de um jardinzinho, e o jogou na torre de antenas. O bloco bateu nas grades de ferro e se despedaçou, estilhaços se espalharam pelo ar.
“Minha consciência é o conjunto desses estilhaços: se todos juntos, sou impassível e letárgico; entretanto, quando provocados por uma ação, separa-se em milhares de pensamentos, consciências difusas dentro de mim mesmo, perco o foco, fico inócuo, inconcusso. O inferno se estabelece em mim, perco-me. Paranóia!!”
Juntou um pedaço grande do tijolo. Rabiscou no chão uma frase:
“Ao mundo indecifrável, devoro o fogo que me consome, conquisto minha independência”
Pensava que aquela era a primeira e última vez que tomava uma decisão por si só.
Largou o bloco. Levantou-se, algumas lágrimas, estufou o peito como um guerreiro que enfrentará sozinho uma tropa. Correu até o parapeito e, no ato mais covarde, como ainda teve tempo de reconhecê-lo como tal, saltou contra a vida.
Segundos, milésimos de segundos, antes de perder a consciência, percebeu a infantilidade de sua atitude. Questionara-se: se foi capaz de tal ação, do que mais não seria capaz? A maior das covardias alicerçada numa intransponível coragem.
Caiu, já inconsciente, sobre o meio fio da calçada.
Finado Mr. Money.

Artista…I

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Comecei a ler Cinzas do Norte de Milton Hatoum. Por quê? Entrei na biblioteca para procurar um livro do S. Hawking que, aliás, não estava lá, e me deparei com o primeiro; como já havia lido Memórias de um certo oriente do Hatoum também, decidi que valia a pena dar uma olhada. Enfim…
Raimundo, um dos personagens, é um jovem iniciando seus passos na Arte (visual, no caso), ele desenha o tempo todo (ao menos até onde li), mostra-se bastante introspectivo, de comportamento alheio e indiferente. Seriam assim os artistas?
Por coincidência (?), no mesmo dia, peguei um livro do C. G. Jung (A formação da Psique, se bem me lembro). Pois bem, logo no primeiro capítulo Jung fala sobre a relação entre o consciente e o inconsciente, sobre a compensação deste em relação àquele. A terapia teria uma influência sobre o paciente conferindo-lhe ferramentas para transcender a linha separativa entre os dois, sabendo uma nova forma de se comportar, percebendo de forma diferente as duas partes já citadas.
Agora, o que isso tem a ver? O artista me parece uma pessoa que já transcendeu essa relação, ao menos em alguns momentos. A arte vem do inconsciente em associação ao consciente, a criatividade está lá no âmago (Nuit), porém, precisa do consciente (Hadit) para se manifestar de forma mais coesa. Poderia ser também, a arte, fruto de uma mente tão abafada pelo consciente que, nos delírios do inconsciente, encontra subterfúgio externando aquilo tudo.
A arte se manifesta sob várias formas, o inconsciente, nossa mente espontânea e ilimitada, é um artista infinitamente criativo, basta atentarmos a ele. Quanto mais atentos conseguimos ser ao interno, mais percebemos a sutileza da arte acontecendo em cada minuto de nossa vida.
Há, no entanto, a arte jubilosa e a melancólica. Faça a Ode como quiser, cada uma soará de um jeito na superfície, o mundo é tão plástico quanto os pensamentos são.
Ah, o livro, sim…tô adorando.

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