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Pele e perfume
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Uma vida para respirar esse ar
Que suavemente se abarrota
Dessa boa bela branca nota:
- É a existência diáfana em par.
Nos meus dedos que entrelaçam
E tocam quase sem tocar,
Num momento, fazem arrepiar
As melodias que se avançam.
Na pele e nos cabelos que, molhados,
Parecem, pois, conter um jardim;
Entro beija-flor que busca Jasmim
Num corpo de sabores temperados.
Alva
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Tinha os olhos miúdos, pequenos e belos, duas esferas negras contrastando, monocromaticamente, com aquela pele tão alva. As bochechas levemente rosadas revelavam, ao se moverem, um sorriso encantador, era ali que aqueles olhos se fechavam ainda mais, apenas uma leve luz escapava daquela gravitação que atraía.
A primeira vez que abriu a boca para lhe falar qualquer coisa, ele ouviu aquela voz suave, com um rouco, como se arrastasse uma garrafa de malbec por sobre a mesa, estendendo-lhe uma taça. Qualquer coisa, não lembrava o que ela havia lhe dito, ao certo, fora algo com muita timidez, demasiadamente sucinta, a garota dos olhos pequenos.
Ele tentava entender o que acontecia atrás daquele sorriso, que revelava uma espontânea timidez e uma tímida espontaneidade, que mostrava uma coisa, mas escondia outras mais. Cada palavra que dizia lançava luz à mais tantas, uma frase significava um livro. Ele se afogava naquela história que ela ainda não lhe contara, mas que já lhe servia tão bem.
Ele tentava entender o que havia naquela cabeça.
Queria saber o que tinha sob aquela pele, alva, suave, de cheiros não definidos, que oscilam ora entre os melhores que já sentira, ora entre os mais deliciosos que poderia sentir. Era barroca só por vaidade, permitia-se mudar, pois era assim, uma nuvem que se movia com beleza e brancura, com o direito mais íntimo variar entre o ótimo e o excelente.
Ele a tocou em um dia de calor, ele a sentiu em uma noite longa e ele a soltou numa manhã triste. Naquele dia o sorriso fez o sonho, de olhos miúdos, que cheirava a volúpias doces e tímidas, de bochechas rosadas que não podiam sentir culpa nem medo, estavam acima daquela vaidade que o ser humano tem em inventar ética e moralidade.
Ela vivia como uma nuvem e ele fez daquela nuvem solta e liberta um sonho para quando acordasse triste pudesse dormir de novo, contando cada pêlo que surgia daquela pele como um tesouro. Era rico, milionário, e só tinha ela, ou a lembrança dela, e um perfume fixo nos lençóis.
Os mineiros do Chile
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Todos viram os mineiros que saíram da mina em que ficaram presos, todos estão sabendo da história e todos viram a capacidade da engenharia atual para fabricar geringonças enormemente úteis. Ponto.
O que eu realmente não entendo no meio disso tudo é, aliás, são os vários “presentes” que estão sendo dados aos homens resgatados e ao heroísmo infundado que lhes está sendo atribuído.
Em primeiro lugar, herói foi Gandhi, foi Newton, foi Einstein, foi sei lá mais quem. Heróis são pessoas que fazem alguma coisa extraordinária para a humanidade, heróis são pessoas que se destacam em um mundo cheio de mazelas, de preconceitos e de absurdos.
Quem faz algo importante e, claro, muito difícil e honroso para si mesmo ou para sua família ou para um grupo de pessoas não é um heróis, é somente uma pessoa honrada, forte e que teve ímpeto de fazer uma coisa corajosa e importante. Ser heróis está além disso. Ponto.
Agora, os presentes. Como assim os mineiros ganharam ingressos para jogo do Real Madrid? Como assim ganharam viagem de descanso para a Grécia? Ipads? Camiseta do Pelé autografada?
Sério, se fosse pra melhorar a segurança no Brasil o rei do futebol não daria uma camiseta para leilão. Se bem que a chance de que o dinheiro arrecadado no leilão fosse desviado seria enorme.
Enfim, o que eu me pergunto é: o que, diabos, tem a ver futebol, Ipad e Grécia com uma tragédia que aconteceu com esse homens?
Sei que os mineiros foram corajosos e agüentaram uma situação extrema, mas quem tem que ressarci-los pelo trauma é a própria mineradora, ela que os indenize.
Eles, os homens que saíram do buraco (também metaforicamente), têm motivos e motivos pra comemorar, mas essa coisa toda de presentes, hino nacional do Chile, et cetera, sei lá, me parece meio forçado.
Nós somos feitos de experiências, nós nos construímos e nos destruímos sobre e sob experiências diversas, somos atitudes, pensamentos, conseqüências e tudo isso, somado, faz de nós seres humanos, e não podem ser classificados em bons ou maus. Estamos vivendo nossas experiências, boas ou ruins, diariamente, constantemente, intensamente ou não.
Comemoremos, também, se for o caso, uma conta atrasada que foi paga, uma promoção no trabalho, uma nota alta, qualquer conquista. São vitórias nossas, assim como foi uma vitória daqueles homens ter mantido a sanidade sob essas condições, assim como foi uma vitória dos engenheiros e bombeiros que trabalharam no resgate.
Mas, cá pra nós, o que Steve Jobs, Pelé e companhia têm a ver com isso? Hein?
E amanheceu num instante
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Sem permissão, invades uma noite silenciosa,
E sorris a essa vida ao abrir a porta,
E iluminas, dourada, ígnea, artificiosa,
Revives sala, quarto, espírito e alma morta.
Traz, do fogo lindo que há em teus pertences,
Qualquer quê quimérico quando queres;
Faz-te similar à vida viva, e assim me vences,
Tiras de mim as defesas, as roupas e os dizeres.
Em vermelho me envolves, em castanho me olhas,
Em branco me tocas e eu, em preto, me acalmo
Como quem compartilha no parque a queda das folhas;
Hoje tenho as mãos quentes, sinto a pele a cada palmo.
Fito-te os olhos de fabuloso fulgor fugaz,
Deleito-me num aroma flamejante
Que dança sobre tua pele, que me apraz,
E tudo vira luz, ouro e amanhecer num instante.