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deveras pensante
3Quinta-feira de muita chuva, quando acordei não estava tão frio, por sorte escutei a faxineira que me disse “leva um casaco garoto”, eu obedeci, como me foi ensinado a obedecer os mais velhos. Durante a vinda de ônibus para a universidade, olhando as nuvens escuras que se aglomeravam e também, outro pouco, olhando para o chão do ônibus com serragem para não ficar liso, para os meus pés calçando all-star e foi só isso.
Estranho dizer “foi só isso”, é como se isso fosse um vazio, um espaço, um interlúdio, mas não, isso é, justamente, o todo, o preenchimento, o recheio de uma mente dispersa e incontida. Cheguei a conclusão que minha mente é como uma empresa em desenvolvimento com um dono auto-suficiente.
No início tudo era simples, uma empresa de pequeno porte, com produtos baratos e simples, fáceis de se fabricar e de vender, com apenas um sorriso se vendia de tudo, e também recebia donativos de empresas maiores, migalhas importantes pra construção do que viria. Depois começou a expansão, abriu-se uma filial que exigia mais atenção e queria produzir produtos novos, diferentes da proposta inicial, e assim ela passou a ter mais autonomia. Sucedeu-se, então, que essa empresa exigia cada vez mais coisas extravagantes, queria produtos impecáveis, mas de pouca utilidade, ainda assim, foi crescendo de forma espantosa. Concomitantemente, a empresa original crescia, sua taxa exorbitante de informações e dados se transformava numa pilha diárias de laudas lidas e relidas e confundidas.
dear fellow
0então a paranóia me disse:
- Pode crer, tô sempre contigo.
companheira fiel
Ao abismo indecifrável
0Acima do prédio, ele estava no parapeito do terraço. Olhava para baixo, apenas algumas luzes na avenida movimentada ele conseguia observar, pois, além da enorme altura em que estava, o vento gelado fazia seus olhos lacrimejarem, atrapalhando a visão.
Como disse, ventava, muito, gelado. Seus cabelos voavam desordenadamente, e até em sua barba sentia o vento. Absorto em um mundo impensável, ele percebeu novamente seu corpo por um frio na espinha. Ao acordar de seus devaneios, tirou a camiseta e a soltou de lá mesmo, para o chão.
Assistiu a queda daquele pedaço de tecido, não muito barato. Ia caindo sem direção certa, às vezes flutuava um pouco, mas normalmente ia sendo tragado pelas rajadas. Lembrou-se de sua vida, sempre fora carregado como aquela camiseta, inerte e impotente, seguia a corrente, descaracterizado de si mesmo, vivera às custas das decisões alheias. Fantoche, robô, respondia a estímulos externos sem reagir por si, cada escolha fora feita por influência de seus pais.
Impotente!! Gritava para si mesmo.
Impotente!! Gritava para o mundo, sabendo que ninguém lhe escutaria.
Em um acesso de fúria, voltou ao centro do terraço, correndo, tremendo, não pelo frio que sentia, mas pelo sentimento inominável. Era indecifrável para si mesmo, um mundo de infinitas possibilidades, e ele temia sua própria infinitude. Pegou um tijolo que estava lá, provavelmente pela construção ainda incompleta de um jardinzinho, e o jogou na torre de antenas. O bloco bateu nas grades de ferro e se despedaçou, estilhaços se espalharam pelo ar.
“Minha consciência é o conjunto desses estilhaços: se todos juntos, sou impassível e letárgico; entretanto, quando provocados por uma ação, separa-se em milhares de pensamentos, consciências difusas dentro de mim mesmo, perco o foco, fico inócuo, inconcusso. O inferno se estabelece em mim, perco-me. Paranóia!!”
Juntou um pedaço grande do tijolo. Rabiscou no chão uma frase:
“Ao mundo indecifrável, devoro o fogo que me consome, conquisto minha independência”
Pensava que aquela era a primeira e última vez que tomava uma decisão por si só.
Largou o bloco. Levantou-se, algumas lágrimas, estufou o peito como um guerreiro que enfrentará sozinho uma tropa. Correu até o parapeito e, no ato mais covarde, como ainda teve tempo de reconhecê-lo como tal, saltou contra a vida.
Segundos, milésimos de segundos, antes de perder a consciência, percebeu a infantilidade de sua atitude. Questionara-se: se foi capaz de tal ação, do que mais não seria capaz? A maior das covardias alicerçada numa intransponível coragem.
Caiu, já inconsciente, sobre o meio fio da calçada.
Finado Mr. Money.