Chegava a mim como uma pedra no pára-brisa. Não terminava, não colocava um fim a esse ocaso eterno que ia escurecendo mais e mais, mesmo quando parecia impossível – um buraco negro engolindo, lentamente, a luz do presente.

Ela me vinha como uma pedra, e eu vidro, atingido, rachado, despedaçado sem me desmontar. Deixava-me em cacos, unidos por uma infantilidade brutalmente boba.

Essa infantilidade era aplaudida por ela.

Amava me ver quebrado e amando a pedra que me quebra, a algoz.

Ela amava me ver atrapalhado, sem entender direito se me soltava e caía em fragmentos ou me agarrava à bobice e continuava a adorando.

Era só esperança de continuar sendo útil naquele estado.

Estava tão despedaçado, difuso, que era inútil olhar por mim, pois a visão não chegava ao outro lado: parava, embaralhava.

E me era igualmente impossível olhar através de mim mesmo. Perdia-me nas minhas próprias rachaduras.

Que ironia essa tua, quebrar-me até a metade e parar para assistir: até quando resiste minha resiliência.

Mas sou apenas um pára-brisa, quebrado por uma pedra, o que posso eu saber da minha matéria? O que sei eu da minha resistência?

Eu apenas sigo.