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Quase parte ao meio, quase parte ao sul
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Quase se desmorona de si mesmo sobre si
Recaindo em lembranças de cheiros e perfumes,
Do quanto se misturam em seus costumes
E em seus corpos, de mesma cor e frenesi.
Quase parte ao sul, mais longe ainda,
Em mãos que arquitetam felicidade
E dedos que se movem em celeridade,
Em prazer de calor que não se finda.
E de saudade quase parte ao meio
Por não tocar na pele tão singular
E contar o que se sabe exato: par,
Que pinta teu corpo e teu seio.
Há precisão metódica no estudo que faz
E conta cada detalhe de cor, cada matiz
Dos cabelos dourados, quase, por um triz,
Iguais, que se somam na noite que apraz.
E amanheceu num instante
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Sem permissão, invades uma noite silenciosa,
E sorris a essa vida ao abrir a porta,
E iluminas, dourada, ígnea, artificiosa,
Revives sala, quarto, espírito e alma morta.
Traz, do fogo lindo que há em teus pertences,
Qualquer quê quimérico quando queres;
Faz-te similar à vida viva, e assim me vences,
Tiras de mim as defesas, as roupas e os dizeres.
Em vermelho me envolves, em castanho me olhas,
Em branco me tocas e eu, em preto, me acalmo
Como quem compartilha no parque a queda das folhas;
Hoje tenho as mãos quentes, sinto a pele a cada palmo.
Fito-te os olhos de fabuloso fulgor fugaz,
Deleito-me num aroma flamejante
Que dança sobre tua pele, que me apraz,
E tudo vira luz, ouro e amanhecer num instante.
Beijo em lágrimas
3Nenhum beijo tem sabor igual ao do beijo dado com lágrimas, aquele beijo misturado ao pranto, ao choro emergido das vísceras, aquele que mostra a alma do seu jeito mais convulso.
Quando se beija entremeado de sentimentos aflorados, da dor mais viva, ou da esperança e alegria mais guardadas, traz-se ao mundo a maior parcela de humanidade que se pode manifestar em um ato que tem se transformado tão corriqueiro.
O que há de obscuro e secreto em nós é aquilo que nós, de fato, somos, nossa essência mais rústica, dura, pura e animalesca, e se é necessário que situações extremas sejam atingidas para que possamos nos manifestar é, realmente, uma pena.
O calor do beijo dado em meio às lágrimas, tendo surgido elas por razão qualquer, é um tépido compartilhamento de vida, de sensações e emoções, é uma entrega igualada em poucas situações – não está impregnada de excesso de sexo nem desprovida, uma vez que o sexo é, mesmo que queiramos e sejamos tentados a negar, uma das forças primevas de nosso âmago.
O beijo de algum tipo de dor é a contradição mais incrível que o ser humano pode conhecer, um ato de carinho para o que lhe machuca, é a maior aproximação daquilo que os cristãos chamam de amor de Cristo. Querer dar amor e prazer num ato de suprema entrega, ainda que isso custe uma parcela de dor sobre-humana, é a própria redenção ou rendição ao incompreensível, posto que emoções não me parecem entendidas, por completa, pela psicologia.
O gosto salgado das lágrimas misturado ao calor morno dos lábios num gesto de amor e passagem é a vida desabrochando, é um botão de flor se abrindo, um momento em que não se é nem broto nem flor, quando se é pré e pós, mas não se é nada. Entregar-se nesse símbolo dorido de vida é deixar a si mesmo, e perceber-se como liberdade.
Nuit Blanche – Sobre o amor
4Nuit Blanche from Spy Films on Vimeo.
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O cenário é clássico, que isso possa ser entendido como sinônimo de típico – ou clichê. Contudo, não é assim o tal do “amor”? As coisas são sempre iguais, as histórias não mudam, os personagens tem uma forma bastante limitada de participar dessa emoção, desse sentimento, e a equação disso é complexa, porém conhecida: umas reações químicas ali, outras físicas aqui, umas sinapses, uns olhares, umas conversas, sexo, ingredientes que fazem a paixão que precede (ou sucede, ou orbita, ou sei lá) o amor.
Assisti a esse vídeo hoje à tarde e achei excelente.
Não posso relevar a fotografia impressionantemente bem feita, bem calculada, e muitos outros bens por aí. As cores foram escolhidas com perfeição, o tom escuro, a cor do vinho, os olhos, tudo, e gostaria muito de saber me expressar melhor sobre cinema para poder dar pitacos por aqui.
A primeira coisa que acontece é a troca de olhares, o momento em que as ondas e partículas de luz cruzam esse espaço-tempo e conectam os dois estranhos se mostra insustentável e edênico.
Logo após o primeiro contato, aquilo que é pra ser uma coisa ígnea, o amor a primeira vista, o tempo pára, ou quase isso. Reparem que as pessoas começam a caminhar mais devagar, tudo fica mais devagar, e o tempo se dissocia do espaço e não mais anda, arrasta-se, como quem não quer perder o que está prestes a presenciar.
Não bastando o tempo se curvar nessa gravidade imensa que se criou entre os dois personagens, tudo afora o contato parece perder o sentido, e muito mais, perde também toda e qualquer força. Molécula, átomos, elétrons, mésons, destituem-se de energia, decaem, cedem à força que se criou entre o casal que submerge numa hiper-realidade.
É assim no amor, não é? Tudo é possível, as coisas que não estão envolvidas na relação perdem valor, os obstáculos perdem a força que antes tinham e não mais podem oferecer resistência ao agora inevitável. Um carro se dobra como uma árvore nova, o vidro se quebra como um finíssimo cristal, a chuva não molha, o vento não resfria, e toda a física, de Newton à Schroedinger, passa a necessitar de um novo entendimento.
A imagem da mulher, depois de estilhaçar o vidro e indo encontrar o homem é perfeita, a fisionomia de pureza, a beleza imaculada compõem o arquétipo desse ato, e isso na realidade é fato, não numa realidade absoluta, mas na mente do próprio homem: a amada é imaculada para ele.
Quando o casal constrói para si uma realidade única e compartilhada, aí sim penso que se possa acreditar no relacionamento. Isso, obviamente, não é tão poético quanto aparece no filme, nem tão evidente, no entanto, o compartilhamento de emoções, sensações e pensamentos não é exclusividade de um casal, isso acontece com multidões.
Mas ao final, quando se descobre um devaneio, ainda há a possibilidade de fazer acontecer, pois a imaginação é assim, uma ponte ilimitada e cheia de ornamentos entre a realidade e o desejo.

