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Quase parte ao meio, quase parte ao sul

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Quase se desmorona de si mesmo sobre si

Recaindo em lembranças de cheiros e perfumes,

Do quanto se misturam em seus costumes

E em seus corpos, de mesma cor e frenesi.

Quase parte ao sul, mais longe ainda,

Em mãos que arquitetam felicidade

E dedos que se movem em celeridade,

Em prazer de calor que não se finda.

E de saudade quase parte ao meio

Por não tocar na pele tão singular

E contar o que se sabe exato: par,

Que pinta teu corpo e teu seio.

Há precisão metódica no estudo que faz

E conta cada detalhe de cor, cada matiz

Dos cabelos dourados, quase, por um triz,

Iguais, que se somam na noite que apraz.

E amanheceu num instante

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Sem permissão, invades uma noite silenciosa,

E sorris a essa vida ao abrir a porta,

E iluminas, dourada, ígnea, artificiosa,

Revives sala, quarto, espírito e alma morta.

Traz, do fogo lindo que há em teus pertences,

Qualquer quê quimérico quando queres;

Faz-te similar à vida viva, e assim me vences,

Tiras de mim as defesas, as roupas e os dizeres.

Em vermelho me envolves, em castanho me olhas,

Em branco me tocas e eu, em preto, me acalmo

Como quem compartilha no parque a queda das folhas;

Hoje tenho as mãos quentes, sinto a pele a cada palmo.

Fito-te os olhos de fabuloso fulgor fugaz,

Deleito-me num aroma flamejante

Que dança sobre tua pele, que me apraz,

E tudo vira luz, ouro e amanhecer num instante.

Da pedra

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Chegava a mim como uma pedra no pára-brisa. Não terminava, não colocava um fim a esse ocaso eterno que ia escurecendo mais e mais, mesmo quando parecia impossível – um buraco negro engolindo, lentamente, a luz do presente.

Ela me vinha como uma pedra, e eu vidro, atingido, rachado, despedaçado sem me desmontar. Deixava-me em cacos, unidos por uma infantilidade brutalmente boba.

Essa infantilidade era aplaudida por ela.

Amava me ver quebrado e amando a pedra que me quebra, a algoz.

Ela amava me ver atrapalhado, sem entender direito se me soltava e caía em fragmentos ou me agarrava à bobice e continuava a adorando.

Era só esperança de continuar sendo útil naquele estado.

Estava tão despedaçado, difuso, que era inútil olhar por mim, pois a visão não chegava ao outro lado: parava, embaralhava.

E me era igualmente impossível olhar através de mim mesmo. Perdia-me nas minhas próprias rachaduras.

Que ironia essa tua, quebrar-me até a metade e parar para assistir: até quando resiste minha resiliência.

Mas sou apenas um pára-brisa, quebrado por uma pedra, o que posso eu saber da minha matéria? O que sei eu da minha resistência?

Eu apenas sigo.

Beijo em lágrimas

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Nenhum beijo tem sabor igual ao do beijo dado com lágrimas, aquele beijo misturado ao pranto, ao choro emergido das vísceras, aquele que mostra a alma do seu jeito mais convulso.

Quando se beija entremeado de sentimentos aflorados, da dor mais viva, ou da esperança e alegria mais guardadas, traz-se ao mundo a maior parcela de humanidade que se pode manifestar em um ato que tem se transformado tão corriqueiro.

O que há de obscuro e secreto em nós é aquilo que nós, de fato, somos, nossa essência mais rústica, dura, pura e animalesca, e se é necessário que situações extremas sejam atingidas para que possamos nos manifestar é, realmente, uma pena.

O calor do beijo dado em meio às lágrimas, tendo surgido elas por razão qualquer, é um tépido compartilhamento de vida, de sensações e emoções, é uma entrega igualada em poucas situações – não está impregnada de excesso de sexo nem desprovida, uma vez que o sexo é, mesmo que queiramos e sejamos tentados a negar, uma das forças primevas de nosso âmago.

O beijo de algum tipo de dor é a contradição mais incrível que o ser humano pode conhecer, um ato de carinho para o que lhe machuca, é a maior aproximação daquilo que os cristãos chamam de amor de Cristo. Querer dar amor e prazer num ato de suprema entrega, ainda que isso custe uma parcela de dor sobre-humana, é a própria redenção ou rendição ao incompreensível, posto que emoções não me parecem entendidas, por completa, pela psicologia.

O gosto salgado das lágrimas misturado ao calor morno dos lábios num gesto de amor e passagem é a vida desabrochando, é um botão de flor se abrindo, um momento em que não se é nem broto nem flor, quando se é pré e pós, mas não se é nada. Entregar-se nesse símbolo dorido de vida é deixar a si mesmo, e perceber-se como liberdade.

Nuit Blanche – Sobre o amor

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Nuit Blanche from Spy Films on Vimeo.

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O cenário é clássico, que isso possa ser entendido como sinônimo de típico – ou clichê. Contudo, não é assim o tal do “amor”? As coisas são sempre iguais, as histórias não mudam, os personagens tem uma forma bastante limitada de participar dessa emoção, desse sentimento, e a equação disso é complexa, porém conhecida: umas reações químicas ali, outras físicas aqui, umas sinapses, uns olhares, umas conversas, sexo, ingredientes que fazem a paixão que precede (ou sucede, ou orbita, ou sei lá) o amor.

Assisti a esse vídeo hoje à tarde e achei excelente.

Não posso relevar a fotografia impressionantemente bem feita, bem calculada, e muitos outros bens por aí. As cores foram escolhidas com perfeição, o tom escuro, a cor do vinho, os olhos, tudo, e gostaria muito de saber me expressar melhor sobre cinema para poder dar pitacos por aqui.

A primeira coisa que acontece é a troca de olhares, o momento em que as ondas e partículas de luz cruzam esse espaço-tempo e conectam os dois estranhos se mostra insustentável e edênico.

Logo após o primeiro contato, aquilo que é pra ser uma coisa ígnea, o amor a primeira vista, o tempo pára, ou quase isso. Reparem que as pessoas começam a caminhar mais devagar, tudo fica mais devagar, e o tempo se dissocia do espaço e não mais anda, arrasta-se, como quem não quer perder o que está prestes a presenciar.

Não bastando o tempo se curvar nessa gravidade imensa que se criou entre os dois personagens, tudo afora o contato parece perder o sentido, e muito mais, perde também toda e qualquer força. Molécula, átomos, elétrons, mésons, destituem-se de energia, decaem, cedem à força que se criou entre o casal que submerge numa hiper-realidade.

É assim no amor, não é? Tudo é possível, as coisas que não estão envolvidas na relação perdem valor, os obstáculos perdem a força que antes tinham e não mais podem oferecer resistência ao agora inevitável. Um carro se dobra como uma árvore nova, o vidro se quebra como um finíssimo cristal, a chuva não molha, o vento não resfria, e toda a física, de Newton à Schroedinger, passa a necessitar de um novo entendimento.

A imagem da mulher, depois de estilhaçar o vidro e indo encontrar o homem é perfeita, a fisionomia de pureza, a beleza imaculada compõem o arquétipo desse ato, e isso na realidade é fato, não numa realidade absoluta, mas na mente do próprio homem: a amada é imaculada para ele.

Quando o casal constrói para si uma realidade única e compartilhada, aí sim penso que se possa acreditar no relacionamento. Isso, obviamente, não é tão poético quanto aparece no filme, nem tão evidente, no entanto, o compartilhamento de emoções, sensações e pensamentos não é exclusividade de um casal, isso acontece com multidões.

Mas ao final, quando se descobre um devaneio, ainda há a possibilidade de fazer acontecer, pois a imaginação é assim, uma ponte ilimitada e cheia de ornamentos entre a realidade e o desejo.

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