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Da simplicidade de deus

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Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

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Essas são as palavras do Alberto Caeiro, heterônimo do Fernando Pessoa. Alberto era notavelmente simples, um pastor cercado pela natureza e pelo pensamento sincero e sereno, e lê-lo é como entrar em comunhão com deus o tempo todo.

Esse verso, em especial, mostra sua relação com deus, de uma forma única, crua, que não deixa espaços para dúvidas ou vaguezas. Alberto acredita em um deus que é o Todo, que é tudo, a todo momento, dinâmica e estaticamente, bem como místicos crêem também. Aliás, colocar a palavra crer neste momento seria um erro, eles todos têm certeza de deus, não há espaço para dúvidas.

Se deus é a beleza dos montes, flores, sol e luar também é a terrível força dos furacões, terremotos, miséria e ganância. Não há distinção.

Eu jamais poderia acreditar (ou ter certeza) de um deus que permitisse algo que não fosse dele, como dizem alguns religiosos em relação às mazelas desse mundo. Deus não tem moralidade, nós é que a inventamos, nós é que chamamos isso ou aquilo de bom ou ruim, de bem ou mal, isso é pura invenção do homem, e, portanto, não serve de parâmetro para a compreensão de deus.

Nietzsche, mais precisamente seu personagem Zaratustra, diz que só poderia crer em um deus que soubesse dançar. Tudo bem que fora do contexto fica complicada essa frase, mas seguindo na senda da simplicidade do Alberto Caeiro, é mais ou menos isso mesmo, deus é dança, é alegria, é ressaca, é ira, é luxúria, deus é tudo que há por aí e por aqui, é o que está dentro e o que está fora, é um pensamento seu, é o movimento de um elétron, é um chute a gol…

Mas por que complicarmos a história toda? Quando pensamos em deus esquecemos dele, fragmentamos, apesar de que jamais poderíamos conhecer a totalidade da vida, nossa única possibilidade é separar em partes e se contentar em não compreender tudo. É simples.

Deus é as flores, os montes, o sol e o luar, e assim podemos chamá-lo, chamá-los, ou não. Deus, Alá, Pai Celestial, Grande Arquiteto do Universo, Cronos… chame como quiser, mas seja satisfeito com sua ideia de deus, pois é tudo que podemos ter, uma simples ideia.

Ter uma simples ideia, e na verdade isso tudo me parece uma grande brincadeira, essa de nos colocar em um palco demasiadamente grande para que possamos observar e entender a peça inteira, nos colocar em uma casa chamada psique e nos dar ímpetos de buscar a nós mesmos fora dessa casa, obviamente não encontraremos nada, não temos pontos de referência pois somos tudo que conhecemos e estamos em todo lugar que pensarmos, pois é a nossa versão de mundo.*

Observando essa gigantesca brincadeira, só poderia repetir Nietzsche e dizer “só poderia crer num deus que soubesse dançar”.

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*Ideia retirada da música Diffidentia da banda Pain of Salvation

Ser caminho, ser estrada

2

I wanted to be changed by the road.

I so wanted to change the road.

But somehow we both resisted change.

Somehow we were both too strong.

And yet we have both winded away,

unsure of where we head.

And it’s like we’re both confused

as to who is who.

As if, late in the night,

you can’t tell the wanderer from the road

- the walker from the walked.

Maybe I’m just the road,

dreaming that I walk.”*




Essa é uma estrofe de uma das músicas novas do CD Road Salt do Pain of Salvation, a música se chama Of Dust.

Por alguma razão, isso ficou martelando na minha cabeça dias a fio; aliás, continua martelando. Talvez seja essa a razão de eu estar iniciando esse texto sem rumo, sem objetivo certo.

A vida, cedo ou tarde, acaba nos parecendo um jogo de um sarcasmo imprevisível, e tudo está tão intimamente ligado que, quando percebemos um pouco dessa teia incrível que é formada, só podemos sorrir e continuar caminhando de um novo jeito.

Quantas vezes não tentamos mudar as coisas ao nosso redor sem ter a menor preocupação em analisar se, na verdade, não somos nós quem devemos mudar e nos adaptar ao contexto?

Não importa o grau de profundidade em que você já mergulhou em si mesmo, a percepção de que você se adapta à vida e ela se adapta a você geralmente ocorre de qualquer forma; e é estranho perceber como é esse vai e vem, essa mola que ora nos empurra, ora nos puxa de volta, numa brincadeira de gangorra com a vida – o viajante e o caminho.

Estamos tão bitolados e preocupados com nossas tarefas diárias, com nossos lazeres entediantes, repetitivos e hipnóticos, que não colocamos o pé na estrada que há dentro de nós, não investigamos esse caminho terrivelmente vasto e escuro que vai, aos poucos, com esforço, se abrindo diante de nós.

Espero que sua resposta seja sim, mas vamos lá: você já parou pra pensar nas possibilidades que há em você? Na potência escondida, latente, em sua cabecinha acostumada à rotina, ao claustro cotidiano e ao conforto?

Já tentou enxergar o que você poderia fazer se, simplesmente, pudesse esquecer por um momento o medo, o orgulho, a preguiça e outros fatores que nos impedem de voar, de viajar no sentido literal, de conhecer o mundo e, talvez assim, mergulhar com mais voracidade em sua alma?

Tenho convicção de que quando fizer isso, mesmo na menor escala cabível, não verá tanta diferença entre você e o caminho, entre você e o meio em que vive, entre você e as situações da vida e suas atitudes para com ela. Tudo isso forma um emaranhado de causas e conseqüências indissolúveis, tão indissociáveis quanto o viajante da estrada; eles são um só, não há diferença. Aliás, creio que nem mesmo deva existir diferença substancial entre sonhar ser o viajante que caminha na estrada e ser o viajante que caminha na estrada.

Pra nós, as coisas são muito confusas, elas se confundem, se misturam e formam um mosaico que, no fim das contas, chamamos de vida.

Talvez eu tenha parado no meio da estrada, talvez eu tenha apenas sentido o cheiro da estrada, sem jamais colocar um pé nela. Só sei que o que vejo é um infinito escuro de possibilidades e incertezas, e isso tem um gosto terrivelmente bom, como sexo.

___

*

“Eu quis ser mudado pela estrada.

Eu quis tanto mudar a estrada.

Mas, de alguma forma, ambos resistimos às mudanças.

De alguma forma, ambos éramos muito fortes.

Assim, ambos ficamos sem fôlego,

Incertos de onde íamos.

É como se estivéssemos confusos de quem é quem.

Como se, tarde da noite,

Você não pudesse distinguir o viajante da estrada

- o caminhante do caminho.

Talvez eu seja apenas a estrada, sonhando que eu caminho.”

Pain of Salvation – Road Salt (2010)

1

Como muitos já sabem, sou fã da banda Pain of Salvation, pelo estilo musical, pela qualidade instrumental, pelo vocal excelente e pelas letras incríveis que o vocalista, Daniel Gildenlöw, compõe.

Pois esse ano sai o novo CD da banda, o Road Salt. Sei que já está pronto, gravado, mixado e tudo mais, só não saiu pra venda ainda.

Fica aqui uma das músicas do novo álbum, espero que vocês gostem.

Pain of Salvation – ! (Foreword) – Ending Themes DVD

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WALK WITH ME!

There are worlds to see!

Pra quem anda pensando que a vida é só novela e livros dos vampirinhos do que tão bombando, sugiro que tome um gole de força de vontade e saia da mesmisse. Existem tantas formas de se viver, mas ser mais um nas massas não me parece uma escolha sábia.

Caminhe comigo, existem mundos para se ver.

“Are you brave enough to leave me in control?”

Ouça Pain of Salvation, leia PoS, investigue PoS e o que eles investigaram.

“World is in your hand!”

Logo as coisas ficam claras.

da tônica

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À caminho de casa eu me perdi, então sentei sob toldo nenhum, sobre pedra alguma, e comecei a pensar: quem mesmo?

Lembro que nasci em Cruz Alta – RS, depois eu esqueci, agora estou em Santa Maria – RS. Mas quem mesmo?

Fui bastante, hoje sou muito, mas muito pouco. Ainda assim, pra preencher o bastante que fui, me encho de nadas.

Um dia estudei leis, mas me enjoei (ou enojei?). Hoje curso Engenharia Química, mas como nada satisfaz também canto e toco guitarra e violão, mas como nada satisfaz eu leio.

Das leituras: Hermann Hesse, Milan Kundera, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Amós Oz, Friederich Nietzsche, Aleyster Crowley, Israel Regardie, etc.

Das músicas: Dream Theater, Pain of Salvation, Opeth, Pink Floyd, Led Zeppelin, Angra, Nightwish, Metallica, Yngwie Malmsteen, e outras coisas, até mesmo pop rock nacional.

Agora que o tempo secou, vou tentar achar o caminho de novo.

Mas… quem mesmo?

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