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O Grito – Edvard Munch
6Têm poesias que, por mais que se tente, engasgam entre sinapses, não vêm do jeito que têm que vir ao mundo externo. Palavras às vezes se esquecem de ser alma, mas gritos são sempre alma, são sempre espírito, puro, diáfana, sincero.
O famosíssimo O Grito do Edvard Munch é a expressão mais sincera que consigo lembrar agora.
A arte é esgotar a si mesmo para se descobrir, descobrir os outros, aos outros, é descobrir o rosto diante do espelho.

uma anedota pro rei do pop
3E se acontecesse mais ou menos assim: terça-feira, às 10h da manhã em Los Angeles, 14h aqui no Brasil pelo horário de Brasília, o ginásio dos Lakers, Staples Center, completamente lotado de pessoas histéricas, ou muito mais do que histéricas. Do lado de fora mais outras tantas milhares de pessoas se empurrando numa confusão sem tamanho para assistir pelo telão posto do lado de fora.
São dez horas da manhã da terça-feira, 07 de julho, lá em Los Angeles, o telão, por enquanto, está com a imagem fixa do centro do ginásio, onde muitos seguranças estão se esforçando para manter um círculo com velas e tapete vermelho para onde há apenas um acesso vindo dos vestiários. De repente os gritos que haviam se acalmado recomeçam, ensurdecedores.
Seis homens vestidos de preto, seguidos por alguns poucos familiares e amigos, entram pelo corredor com tapete vermelho carregando, lentamente, o féretro do cantor. Enquanto se encaminham para o centro do ginásio os gritos se tornam tão fortes que até pensar se torna difícil. A agitação é enorme, os seguranças se esforçam muito para que não seja quebrada a segurança.
O caixão é depositado sobre quatro hastes que já estavam lá, revestidas em dourado. Tudo parece um incrível cenário de filme, com brilhos, luzes e toda a grandeza de Hollywood. Alguns minutos se passam após o ataúde ser deixado no centro e então, finalmente, o público parece começar a se acalmar.
Outros tantos minutos até que haja silêncio total. Janet está com o microfone em mãos, parada, imóvel, esperando pelo silêncio. Vira-se de frente para o caixão, inclina-se e um grito ecoa pelo ginásio, pelo lado de fora através dos alto-falantes, pelas casas que estão assistindo à transmissão ao vivo do funeral. O silêncio continua.
Como se viesse de longe, uma bateria começa a tocar com um ritmo implacável. Quase a atenção é desviada do caixão, onde Janet continua debruçada, impedindo a visão sobre o rosto de Michael. Então, outro grito alto e instrumentos se juntam à bateria. É claro, começa a música They Don`t Care About Us.
Janet sai de cima do caixão e o cantor, como num filme de terror, começa a se levantar. As pessoas que estão assistindo àquilo ficam sem reação, umas choram, outras ficam em transe, outras gritam, enfim, uma maré de sentimentos invade o ginásio Staples Center, e todos que assistem ao espetáculo. Lá está o astro, em pé, vivo, inexorável, brilhando em seu terno preto e prata e cantando.
Tudo se resolve, como num sonho bom, como na Terra do Nunca, e ele está em pé, cantando com sua irmã, no maior espetáculo que já se teve notícia. Todos parecem incrédulos do que está acontecendo, mas é inegável, lá está Michael Jackson.
Não seria de se admirar se algo assim acontecesse, tendo em vista a mania de grandeza do cantor e sua obsessão por clipes e filmes lúgubres. Não consigo imaginar melhor maneira de promover sua própria turnê.
(re)trato
3Sou desequilíbrio na corda bamba,
Um melancólico na roda de samba,
Enchendo minhas idéias de vento.
E um nó me aperta e cinge,
E só, vejo tudo que se passa,
Na indiferença se faz disgraça;
E o poeta finge que finge.
Grito em bemol para um mundo surdo,
Imagino o que há além dessas paredes
De galáxias ou pensamentos verdes,
Fora de estação, como eu no mundo.
E se tua mão me fosse estendida
Sei que não cairia, e o nó soltaria,
Calando o grito numa aurora em euforia;
Ah, se tua mão me fosse estendida.
