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baque
3Escrevo porque tenho saudade.
Sinto falta da falta do que fazer ao lado dos amigos, sinto falta dos amigos que foram sendo jogados pra longe de mim, ou eu fui sendo afastado deles. Fins de tarde na frente da escola, sem preocupações, finais de semana com a banda, noites com a rua, os amigos e as cachaças baratas.
Tenho saudade de sentir frio nas tardes, nas noites, nos bailes, nas festas, nos nadas e nos tudos, nas horas de filosofia adolescente. Lembro de jogar RPG, de escutar música e apenas escutar música, de jogar futebol de calça jeans, porque isso não era sempre um compromisso marcado, mas uma distração ao acaso.
Fico remoendo o que era toda aquela vontade, todo aquele desejo, dores, amores, fervores e paixões; ficam-me, hoje, como uma sombra do passado apenas lembrando que aquilo tudo foi divertido, foi intenso, valeu a pena, mas reconhecer isso não me conforta nem fortalece.
Lembro nomes, lembro rostos, cheiros, sons, luzes, vapores e gostos, que agora se disfarçam de cotidiano. Penso em como seria ter novamente um objetivo para lutar, para morrer, para viver.
Ah, que me aperta coração e garganta esse recordar e não reviver, esse lembrar sem ter potência de recuperar o que foi deixado pelo caminho.
Queria rever-me, mas não sei aonde me encontrar. Que saudade sinto de mim.
cena ii
2Estou lendo o jornal do dia num café no centro da cidade, são quase onze horas da manhã. Meu café está quente e forte, por isso o tomo devagar, com calma, e assim posso, também, observar bem o lugar em que me encontro.
Lá fora está frio, mas aqui dentro não, tem uma lareira atrás de mim, a umas três mesas de distância, que esquenta o ambiente.
Há na minha frente uma moça, deve ter uns trinta anos, isso já me faz crer que deveria estar vendo meus netos se formando no ensino médio. Pois bem, a mulher carrega no colo uma criança, e por isso me remeti aos meus netos, deve ter quase dois anos de idade, tem olhinhos azuis e cabelos loiros e crespos, um anjinho, faz-me lembrar minha filha quando era criança. A jovemzinha acaba de me dar um sorriso tão belo que senti vontade de chorar, não sei porque, acho que a idade este me deixando mole, mas apenas esbocei um sorriso o mais simpático possível. Realmente, parecia um anjinho, e brinca com seus dedinhos como se o mundo inteiro estivesse ali, nada mais, nada além, e seu riso suave chegava aos meus ouvidos fazendo com que, involuntariamente, meu sorriso seja mantido.
Eis que me distraio. Um casal acaba de entrar no café. Ambos devem estar na casa dos vinte e poucos, com certeza menos de vinte e cinco. Ele usava roupas pardas e tinha passos firmes, a abraçava pela cintura. Ela usava roupas mais claras, e seus olhos brilhavam pela companhia do rapaz. Tem coisas que apenas a idade nos faz perceber, esses vários anos de experiência podem trazer certa sabedoria à alma, certo que não sou nenhum sábio, mas já não sou tão inocente e ingênuo como fui em minha juventude. Ele puxou a cadeira pra ela sentar, tirou o casaco e colocou na cadeira e depois se sentou.
Ouço uma música ambiente no café, é um blues, e isso me faz lembrar de quando morava na Inglaterra, quando ainda era produtor de discos. Tomei um gole do café, e voltei os olhos ao jornal. Meus pés batem no ritmo da música que toca, é tão bom sentir esse ritmo, a mulher que canta tem uma voz agradável, forte e ao mesmo tempo suave. O casal que entrou depois sorri, a mocinha agora brinca com um guardanapo que pegou na mesa de sua mãe.
O que não daria pra ela estar aqui agora, minha companheira, observando essas cores, sentidos esses cheiros, pulsando o ritmo da música, quem sabe até arriscando um vocalize sobre a base tocada. Ah, nem a velhice tirou a beleza e o brilho dos olhos daquela minha doce companheira, mas o tempo veio arrancá-la de minhas mãos.
Já não presto atenção no jornal. Olho em volta novamente enquanto busco a xícara para tomar o último gole restante ali, e nem está mais quente. Levanto, dou uma olhada para o casal, e não posso negar, há ciúmes nos meus olhos, mas há ainda mais uma espécie de alegria compartilhada, sinto feliz de ver que nem tudo mudou, apesar da distância das pessoas ainda pode haver sentimentos. Sorrio para a criança, e ela me abana com a mãozinha que agora estava na boca, meio babada. Pago meu café, enrolo o cachecol no pescoço e saio. Mas a voz do blues do café ainda soa na minha cabeça, balançando minha alma como se a ninasse, evocando memórias como se me colocasse num sonho.
licença, Zé
2Há alguns dias terminei de ler o excelente livro de José Saramago “Ensaio sobre a cegueira”. Sinto-me impelido a fazer algumas citações dos diálogos dos personagens ou de observações do próprio escritor, mas não o farei. Claro que a história contém vários elementos um tanto tangentes à realidade, no entanto, a realidade psicológica se torna tão crua e fiel que podemos relevar algumas minúcias.
O que vem ao caso é o que seria de nós num mundo de cegos? É certo que teríamos, inicialmente, diversos problemas de higiene e alimentação, de desenvolvimento de tecnologias e de organização social. Porém, acredito que teríamos ainda razão suficiente para superar tudo isso e passar a um novo estado (estágio) de (sobre)vivência.
O que mais me admira, entretanto, é como o foco de nossas atenção estaria sendo desviado. Eu explico. É que, atualmente, vejo mais do que 50% da nossa vida ser guiada pelas aparências visuais (e ressalto desde já que não sou absolutamente nada contra isso, talvez até seja um tanto a favor, o que também não vem muito ao caso). Antes de ouvir, observamos; antes de nos apresentarmos, observamos; antes de cheirar, observamos. Analisamos as pessoas, os alimentos e produtos em geral pelas cores, pelas formas visuais, mas e se tudo isso fosse, de repente, apagado? E se restasse para nós apenas o cheiro, o tato, o paladar e a audição para que nos comunicássemos com o mundo?
Será que cegos aprenderíamos (inventaríamos) uma nova forma de vaidade, de estética? Eu poderia muito bem ser atraído por uma mulher unicamente por sua voz, combinada com a textura de sua pele e seu cheiro, afinal, no fim das contas é isso que conta juntamente com a beleza visual. Porém, não penso que existiria um padrão de beleza tão rígido e senso comum, parece-me que sob tal condição nos abriríamos a novas formas de experimentar os corpos alheios e o próprio corpo, teríamos mais tato e nos aproximaríamos mais, ouviríamos mais o que têm para nos dizer, seríamos mais atento ao recheio daquelas mentes que se escondem em panos e laços.
E melhor ainda seria se, depois de perdermos a visão, voltássemos a tê-la no momento mais inoportuno, para vermos, de fato, o que a realidade não-visual nos trazia em tal hora.
Será que seríamos seres humanos melhores ou piores? Penso que seríamos os mesmos, com aquilo que chamamos de “futilidade”, mas no fundo tanto nos prende, desviada para outro tipo de sensação.
Mas a música, com certeza, seria mais deliciosa.
dança
2Alguém que se desprenda, eis o que precisamos. Um salvador, um Zaratustra.
Há demasiada carência em nossas almas, procuramos por sustentações, usamos os outros de bengalas; portanto, é necessário que nasça o nosso pilar maior.
Falo de outro profeta, alguém que entenda o povo e o leve à consciência. Não falo em pastores, mestres, padres… não falo em igreja universal da puta que pariu, do quadrado da sétima constelação do santo do último dia no apocalipse… nada disso. Precisamos dum centro de pensamentos, ele será o salvador, não uma pessoa, não uma instituição, uma corrente, uma filosofia, um novo jeito de pensar e agir. Não terá olhos nem boca, mas deve ver e falar. Será estrelas, vales, mares, matas, muitas coisas que queremos conceber.
E tudo isso, numa fagulha de inovação, far-nos-á despertar para a Dança Cósmica que nos convida a Natureza há milhões de anos.
Não, o santíssimo não nasceu, ele está há mais tempo do que é permitido nascer. Mas não parou desde então a sua dança. Apoiemo-nos nesse par e dancemos, pois esta é a nossa fortaleza, firme.
Zaratustra disse à mente sagaz de Nietzsche que só poderia crer em um Deus que soubesse dançar. Pois aí está, para todos, a dança, a música e o dançarino. Chega de guerra com os galhos que vão quebrar no outono e no inverno.
Dancemos sobre as folhas.
Sexta-feira santa
1Sexta-feira santa, coisa linda não é?
Era pra ser um dia de respeito (para os cristãos ao menos) e compaixão, afinal, o maior mártir do mundo católico, evangélico e essas outras igrejas que existem, morreu nessa data. Não sei quando se convencionou que a carne era proibida na sexta-feira santa (outros não comem durante toda a semana), o fato é que se come carne, a não ser que não partamos do princípio de que peixe é animal. Será que pensam que ele é uma espécie de “fruto” do mar?
Enfim, a morte já deveria estar saturada na mente daqueles que crêem em Jesus e todas as histórias da bíblia; porém, é exatamente nesses dias que se sente pelas ruas, lixos, cozinhas e casas inteiras um cheiro típico de peixe morto. Ora, quanta compaixão não é? Poupemos, ao menos um dia, o gado, as ovelhas e os porcos e matemos peixes, porque pescado não é feio matar. Certo?
Não sei aonde eu me perdi nisso tudo. Ele nasceu dia 25 de dezembro, correto? Mas morreu quando? Sexta-feira santa. Mas que dia é Sexta-feira santa? Não tem data fixa. Alguém explica a este pobre blogueiro?
Também, li que não se deve gritar, escutar música alta, ser indecoroso; e que se deve procurar ser mais introspectivo, educado, talvez até jejuar. Quanta beatitude, não é? Só não entendi em qual parte das práticas de boas maneiras da semana santa se encaixa a matança de peixes pra comer.
Alguém que esteja disposto a explicar com clareza e paciência essas e outras perguntinhas, por favor, ilumine isso aqui, sinta-se a vontade.