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cena em cinza

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Pois bem, deixe que eu seja, por momentos, mais pessoal, mais humano do que eu gostaria de ser, mais inapto ao convívio do que deveria ser.
Acabo de voltar de um bar, se tomei um copo de cerveja foi muito, fumei alguns cigarros para curar a ansiedade de estar num lugar que não me sinto confortável, com muitas pessoas ao redor, com música mais alta do que eu gostaria, músicas ruins, aliás. Acendo cada cigarro para ficar em paz, por alguns breves minutos, meu único companheiro quando não posso estar com minhas letras ou meu violão.
Ri, com certeza ri muito, mas esses momentos parecem ser sobrepujados de maneira intratável por qualquer outro sentimento de retração, ira ou dor que possa vir. Acendo outro cigarro para tentar expelir junto com a fumaça essa dor, e então continuar rindo, sorrindo, ouvindo o que me falam, mesmo que tu me pareça bobagem, e tudo me parece bobagem desnecessária. Sinto-me deslocado.
Estou investigando algumas coisas sobre mim, digo, estou apenas procurando confirmação científica do que há (ou não há) em mim. Sou incapaz de sentir o que deveria, e se alguém quiser definições melhores sobre isso (não falarei nada por enquanto) procure no google por despersonalização.
Como posso, então, sair e não me sentir um estranho? Ao menos se eu bebesse, como vinha fazendo há anos, seria mais social e instintivo, então tudo estaria bem. Hoje não bebi, ontem não bebi, em nenhuma das últimas noites eu bebi. Assisti às pessoas e não soube me incluir muito bem no contexto. Estou ficando mais e mais deslocado.
Agora, ouço algo gritando em mim, um urro desesperado, irado, estridente e rasgado, quase um ruído terrível, e estou rachando. Não sei o que esperar, tentei abafar muitas vezes esse verme, mas acho que preciso abraçá-lo e colocá-lo de frente com meu resto. Sinto-me dividido.
Preciso por as ideias no lugar. Não sei o que disse, não irei reler o que disse. E se é de humanidade que há sede, pois aqui está um pote cheio de fraquezas e defeitos, e não vejo nada mais humano, e assim será, sem revisões, sem editar, o meu humano cru. Sinto-me nu.

uma anedota pro rei do pop

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E se acontecesse mais ou menos assim: terça-feira, às 10h da manhã em Los Angeles, 14h aqui no Brasil pelo horário de Brasília, o ginásio dos Lakers, Staples Center, completamente lotado de pessoas histéricas, ou muito mais do que histéricas. Do lado de fora mais outras tantas milhares de pessoas se empurrando numa confusão sem tamanho para assistir pelo telão posto do lado de fora.
São dez horas da manhã da terça-feira, 07 de julho, lá em Los Angeles, o telão, por enquanto, está com a imagem fixa do centro do ginásio, onde muitos seguranças estão se esforçando para manter um círculo com velas e tapete vermelho para onde há apenas um acesso vindo dos vestiários. De repente os gritos que haviam se acalmado recomeçam, ensurdecedores.
Seis homens vestidos de preto, seguidos por alguns poucos familiares e amigos, entram pelo corredor com tapete vermelho carregando, lentamente, o féretro do cantor. Enquanto se encaminham para o centro do ginásio os gritos se tornam tão fortes que até pensar se torna difícil. A agitação é enorme, os seguranças se esforçam muito para que não seja quebrada a segurança.
O caixão é depositado sobre quatro hastes que já estavam lá, revestidas em dourado. Tudo parece um incrível cenário de filme, com brilhos, luzes e toda a grandeza de Hollywood. Alguns minutos se passam após o ataúde ser deixado no centro e então, finalmente, o público parece começar a se acalmar.
Outros tantos minutos até que haja silêncio total. Janet está com o microfone em mãos, parada, imóvel, esperando pelo silêncio. Vira-se de frente para o caixão, inclina-se e um grito ecoa pelo ginásio, pelo lado de fora através dos alto-falantes, pelas casas que estão assistindo à transmissão ao vivo do funeral. O silêncio continua.
Como se viesse de longe, uma bateria começa a tocar com um ritmo implacável. Quase a atenção é desviada do caixão, onde Janet continua debruçada, impedindo a visão sobre o rosto de Michael. Então, outro grito alto e instrumentos se juntam à bateria. É claro, começa a música They Don`t Care About Us.
Janet sai de cima do caixão e o cantor, como num filme de terror, começa a se levantar. As pessoas que estão assistindo àquilo ficam sem reação, umas choram, outras ficam em transe, outras gritam, enfim, uma maré de sentimentos invade o ginásio Staples Center, e todos que assistem ao espetáculo. Lá está o astro, em pé, vivo, inexorável, brilhando em seu terno preto e prata e cantando.
Tudo se resolve, como num sonho bom, como na Terra do Nunca, e ele está em pé, cantando com sua irmã, no maior espetáculo que já se teve notícia. Todos parecem incrédulos do que está acontecendo, mas é inegável, lá está Michael Jackson.
Não seria de se admirar se algo assim acontecesse, tendo em vista a mania de grandeza do cantor e sua obsessão por clipes e filmes lúgubres. Não consigo imaginar melhor maneira de promover sua própria turnê.

therapeople

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Neste inverno, as tendências são: piadinhas de ironia popular, tão infrutíferas e sem sentido quanto a acomodação interpessoal de escolhas musicais, vestuárias, intelectuais e (oh! Que surpresa) desanimo anímico.
Vejo uma onda crescente do “cool”, descolado, desleixado, tudo isso tendendo a uma preocupação excessiva e excessivamente destoante da preleção inicial do estilo adotado. Pois bem, sinto-me cansado e com asco desse maneirismo.
Cresce, também, o gostinho pelo rockzinho iêiêiê, o orgulho de dizer “oi, sou retrô e escuto rock com quatro acordes”. Os Beatles estão voltando na pele de cordeirinhos copiões chamados The Kooks, The Kinks ou The qualquercoisaassim; Dylan na mão de outros pretensiosos Vanguart, Mallu Magalhães e outros jovens músicos ainda muito crus. Pois posso até comparar essa tendência às músicas fracas e simples com o Anticristo de Nietzsche, é como idolatrar o fraco, o não virtuoso, somente para aliviar a culpa de sermos tão pequenos e nos conformarmos com essa posição de músicos desajeitados. Ainda que eu tenha uma simpatia pelo Camelo pelo Los Hermanos, seu álbum solo me soou bastante necromante, ressucitando o que havia de mais simples na MPB há anos atrás.
Essas tendências nunca vêm sozinhas. O gênero das novas piadinhas despretensiosas, acusando o indivíduo de um auto-elogio ao se pensar tão inteligente e sarcástico de poder ter inventado tal jocosidade. As anedotas estão ficando cada vez mais rasas e inúteis, nada surpreendente para o nonsense tão em voga. Existem os que pensam que esse nonsense é pura arte moderna, a expressão do self, como um “limpar a chaminé” primitivo.
Contudo, o asco maior vai aos resultados dessa embromação psico-moderna: a falta de ânimo no espírito. Perdidos nas redes de como parecer ser não sendo nem o pretendido – é assim mesmo, um vai e não vai concomitante, talvez até o duplipensar do G. Orwell aqui cairia bem – o pessoalzinho vai perdendo a fibra, a força e a coragem. Eis o ócio no seu sentido mais vão, a preguiça mais inexorável e a desatenção mais perigosa.
Por conseguinte, só posso ver um resultado disso tudo: marasmo. Ficar estagnado, assistindo aos diversos papéis sem escolher um, fingindo ser protagonista quando nem figurante se é. A platéia bate palmas enquanto escapam de sua vida interna, secando cada vez mais.

céus desencontrados

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Céus assim eu conheci um dia
Um azul destes, tão leve e puro, eu pude admirar
Ai, que hoje meus olhos não conseguem contemplar essa dimensão viva
Já não sustentam tanta beleza, tanta inocência, como dessas nuvens
Essas parcas nuvens retorcidas, brancas, espalhadas aleatoriamente
Elas, que nem se movimentam por falta de vento, sob esse azul insuportável
Aprender ser adulto é fácil, aprender a ser sábio e recordar da criança que não deve morrer é obra de sobre-homens
E guardar pequenas lembranças é pura escravidão
Troca-se roupas, cheiros, músicas, mulheres, mas a vida insiste com sinais de recordações
E desses não se escapa, desses não se desfaz, desses laços o homem é servo
E céus assim já não sei enxergar, esqueci da criança
Hipocampo e córtex, e as relações estão cortadas
Já não se lembra, já não se aprende, já não se vê
E assim se esvai o que não deve exaurir
Como se o vento viesse de repente e soprasse as nuvens que se desmancham facilmente
Ai, que o vento hoje bate sobre mim, que sou nuvem cinza.
Será que vou chover?

Enigmas

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Essa semana encontrei uma um jogo muito bom (muuuito bom) de enigmas, pra quem quiser compartilhar: http://decifra.me .
Pra quem gosta de resolver problemas, de pensar de uma forma pouco usual, tá aí a dica. Põe uma booooa lista de músicas no teu player e começa a te divertir.

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