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Mundos ideais
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Todos nós idealizamos uma espécie de mundo ideal, não um lugar dos sonhos, ainda que um sonho represente perfeitamente bem aquilo que, teoricamente, queremos.
Passamos dias, meses, anos imaginando, detalhando, aprimorando e destruindo um lugar que nos parece ser perfeito, uma situação queria o máximo da possível a uma vida experimentar nessa encarnação e um estado de espírito perfeito, harmonicamente dinâmico.
Pois é justamente aí que reside o principal e mais real (e, provavelmente o mais terrível) erro: o estado de espírito, a disposição anímica.
Se prestarmos atenção, são incontáveis as vezes em que o ideal se apresenta na nossa frente, nos dá a mão e nos convida para um passeio. Está tudo perfeito, tudo ótimo, e a vida é só café, flores, sol e amor.
Isso acontece repetidas vezes, muito mais do que somos capazes de avaliar e entender, simplesmente acontece e nós deixamos passar. Ou ficamos assistindo, ou deixamos escapar por desleixo, ou ainda, largamos da mão do perfeito e vamos em busca de outra coisa.
Nosso estado de espírito é como as cinzas de um cigarro fumado no sétimo andar em um dia de vento: saem voando sem rumo certo, e vão se despedaçando, virando partículas cada vez menores até que deixamos de enxergar.
O vento rasgou o dia e levou as cinzas.
A vida rasgou nossa força e levou nossa constância, somos espíritos inconstantes e medrosos, e é por isso que há a necessidade de construir um novo mundo ideal toda vez que outro, que já não serve mais, é destruído ou alcançado.
Não é a insatisfação que nos move, é o medo.
Viver de café e flores, sol e sexo, rock and roll e risos.
Os mundos platônicos vêm e vão, mas a nossa maior habilidade é ser constante em nossa inconstância. Mudar, mudar e mudar e nunca mudar de verdade.
O apedrejamento
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Sakineh Mohammadi-Ashtiani.
Todo mundo deve ter ouvido falar nesse nome essa semana.
Sakineh é uma iraniana de 43 anos e mãe de dois filhos (sério, Christian? Pensei que fosse mãe de dois avôs!).
Sakineh era casada. Seu marido morreu, portanto, viúva.
Sakineh é acusada de ter mantido (ou apenas “tido”?) relações sexuais com dois homens após a morte do marido. Sim, após a morte do marido.
É claro que, pra atenuar a história toda, numa tentativa vã de dizer “viram, ela merece isso”, diz-se que ela está relacionada à morte do marido, quase como uma mandante.
Bom, sem entrar na questão do merecimento ou não, o fato é que Sakineh foi sentenciada à pena de morte. À pena de morte por apedrejamento.
Apedrejamento… em que século estamos? Em que mundo vivemos?
Pena de morte, por si só, já é uma medida extremista, no entanto, apedrejamento me parece um sadismo desnecessário de quem vive.
Condenar alguém à morte por apedrejamento não é como dizer “ei, você fez coisas erradas demais, não é seguro que você viva em sociedade, tampouco em cárcere, portanto, iremos aplicar-lhe a pena de morte.”.
Não.
Não é assim. A morte por apedrejamento parece uma diversão pra bestialidade humana. Parece que estou vendo os aplicadores da pena, em meio a gargalhadas altas e terríveis, gritando palavrões, xingando, e jogando pedras, tentando machucar apenas, adiando ao máximo o alívio da dor e da agonia do apenado.
“Ei, estamos adorando te ver sofrer, e sangrar, e chorar, e pensar que, de uma forma ou de outra, uma força divina vai te salvar!”
Essa é a imagem bestial do homem.
Não intervir nisso. Aliás, não intervir em milhares de coisas erradas e estúpidas que acontecem através do mundo inteiro comprova duas coisas:
- A ONU é uma besteira sem tamanho, uma fachada, uma máfia, um fiasco como representante dos direitos humanos e do bem-estar social;
- Em milhares e milhares de anos, o homem (eu estou reiterando isso, quem me lê com constância sabe dessa minha implicância) não evoluiu, ele desenvolveu tecnologias, obteve conhecimento, mas jamais evoluiu como animal, jamais deixou sua condição simiesca, e se o fez, o fez por muito pouco.
Pois bem, quem sou eu pra falar disso tudo, não é?
Quem somos nós, que ficamos, diariamente, assistindo a vida passar, que não levantamos a mão pra ajudar ninguém quando o ajudar nos custa um pouco mais do quem um tempinho? Quem somos nós, que deixamos um pão secar em casa, uma fruta apodrecer, mas que não convidaríamos alguém com fome para repartir dessa nossa comida?
Eu acho que temos medo, medo de compartilhar mais do que o alimento. Temos medo de compartilhar nossa decadência, nossa inabilidade para com a vida, nossa infelicidade.
Temos medo de perceber que outros, com tão pouco, podem ser tão ou mais sábios que nós.
Temos medo de que exista um outro rei naquele que se apresenta a nós, e então, apedrejamos.
Apedrejamos em silêncio.
Inteligência e Sabedoria
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A diferença não é nada sutil, ainda assim, muitas pessoas costumam confundir inteligência com sabedoria. Então, deixa-me contar um segredo: inteligência e sabedoria são coisas bem diferentes.
A inteligência é a habilidade de manejar conhecimento e aplicá-lo. Se uma pessoa passa 16 horas por dia estudando sozinha ela se torna inteligente, quer dizer, ao menos deveria ser assim se não há problemas de atenção ou cognitivos no processo.
Enfim, uma pessoa pode ficar inteligente com muito estudo, mas uma rotina que afaste sua atenção dos próprios processos mentais e emocionais e psíquicos, das relações do seu próprio âmago e também das relações interpessoais jamais permitirá que ela se torne sábia.
Sabedoria é uma virtude em falta atualmente. Crianças são criadas para ser boas em línguas, matemática, física, química, passar no vestibular, ser o número um, etc. Crescer nessa competitividade nos trouxe um avanço fenomenal na capacidade de reter, interpretar e aplicar informações; com isso, inventamos o carro, o avião, a bomba, a internet, os transplantes, e muitas outras coisas, no entanto, nesse emaranhado de novidades e desejos de ter e comprar, nos perdemos.
A sabedoria não nasce do cárcere de idéias. Uma pessoa que pode se tornar sábia é uma pessoa atenta, alguém que sabe aprender com situações, seja com os bons ou maus momentos, com exemplos.
Também não é sinônimo de experiência, passar por inúmeros problemas sem que se saiba avaliar e pesar os acontecimentos não faz de nós sábios. Aliás, sabedoria poderia ser explicada como uma espécie de mistura entre experiência e inteligência. É saber calcular e estudar com atenção as experiências, é ter humildade para reconhecer quando se erra e não se vangloriar de vitórias.
Em uma parte da música Nihil Morari do Pain of Salvation é dito o seguinte: You think we have developed fast; that we’re civilized and intelligent
I’ll let you in on a secret: we have developed Things!
The rest is simply knowledge passed on
Hell, 99% of humanity couldn’t put together a simple light bulb if you
put a gun to their heads!
And the intellect rubs off on fear.
Estamos em um período assim, passando conhecimento adiante, seria otimista demais, temos sido assim desde sempre, apenas passando conhecimento.
Em não muito tempo teremos uma sociedade extremamente madura em tecnologia e conhecimentos, contudo, completamente infantilizada no campo emocional, que nos faria sábios. O egoísmo, a posse, a guerra, a raiva, são sentimentos nosso, inatos, mas é impossível deixar de vê-los como, e tão somente, nossa animalidade se manifestando.
Vejo homens ricos, bem sucedidos, mestres, doutores, pesquisadores, médicos, advogados, todos, atolados em carros importados e móveis de luxo, sem a mínima noção de humildade, de vivência emocional, são pedras teimosas que assistem televisão e discutem a tabela FIPE e falam do dólar, e isso é tudo que podem fazer, é tudo que aprenderam a fazer.
Pois eu vou lhes contar um outro segredo: somos inteligentes, mas não o suficiente para usarmos essa inteligência em nós mesmos, não para avaliarmos a necessidade de sabedoria.
Enquanto isso, na Casa Branca, Dalai Lama se encontra com Obama…