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Ainda sobre o fetiche por pés

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Engraçado, o texto que escrevi ano passado no Descompassado sobre fetiche por pés sempre me rendeu muita trollagem, xingamentos e, no entanto, por muito tempo foi meu texto mais lido.

Contudo, o último comentário que fizeram sobre ele realmente me fez pensar um pouco, e me sinto obrigado a dizer que já não sustento mais a mesma opinião pueril daquela forma que fiz no texto. Quer dizer, pés femininos continuam sendo irrelevantes pra mim, prefiro olhos, bocas, seios e pernas, mas é aquela história, cada um com seu cada qual, não acho mais o absurdo que achava gostar tanto de pés.

Encarem isso como uma retratação humilde.

E introspectiva.

Introspectiva. No mesmo comentário, o leitor fala que “sempre gostou dos meus textos” mas aquele era ridículo e estragava muito do que eu já tinha feito. Exato! Reitero, não deveríamos carregar para sempre o estigma de palavras ditas há tempos, por isso digo que aquela opinião já se foi, não é mais minha nem eu sou dela, simples assim.

(Leia: http://descompassado.com/o-peso-do-passado/)

É interessante o quanto uma nota errada pode desconstruir toda melodia, tirar tudo do ritmo e do tom. Posso ter escrito cem textos bons (e não to dizendo que fiz isso), mas basta ter um ruim nestes tantos (pior ainda se esse ruim for justamente o único lido) para que todo o empenho, talento ou sei lá o que, sejam afogados numa privada de um banheiro de beira de estrada, assim, sem dignidade nenhuma.

Falando em dignidade, temos uma peculiaridade nesse nosso sistema cultural muito diferente do que dizemos ser bonito e bom. Retratar-se em público, mudar de opinião (não superficialmente), investigar-se e se descobrir diferente do que era há um, dois, dez anos atrás parece uma heresia, um pecado; como se o homem que pedisse desculpas ou se arrependesse perdesse toda a sua virilidade no mesmo instante.

Estamos cercados de exemplos de orgulho, de soberba, de pessoas que se vangloriam por sua teimosia insensata, a que chamam de caráter e persistência. Não, seguir burro não é ter caráter e persistência.

A única fidelidade que se deve ter é a si mesmo, todo o resto é teimosia descartável.

E, afinal, pés não podem ser tão ruins assim, não é? Deve ter sido algum trauma na minha psique sendo exorcizado de maneira indecorosa naquele texto, algum psicólogo deve saber explicar. Mas enquanto não me explicam, fica aqui meu retratamento para com os que se sentiram ofendidos e para os pés, coitados, que, como diria o ratinho do Castelo Rá-tim-bum, nos agüentam o dia inteiro.

O peso do passado

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Não deveríamos ter que carregar para sempre o peso daquilo que falamos, escrevemos ou fazemos. Mas carregamos.

Até hoje sou trollado por um dos meus textos mais radicais e famosinhos do blog (sobre fetiche por pés). É claro que fiz questão de ser incisivo, na verdade, queria ser jocoso, e não me arrependo particularmente desse texto, no entanto, existem outros que leio e só não deleto porque não quero negar o que fui, o que pensei.

Assim é com tudo, assim funciona com todos nós. É natural.

Repetem ad nauseum um “provérbio” que diz que existem três coisas que não voltam, a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. É uma pena que esse provérbio tenha vulgarizado, ele é ótimo.

Mudamos incessantemente, somos novos a cada dia, nossas ideologias são mutantes, e acredito que isso seja muito mais válido do que passar a vida acreditando em uma coisa só. Mudar significa sair da inércia, não ficar estagnado, estar disposto a procurar coisas novas e tentar melhorar.

Tenho certeza de que alguns olharão pra trás daqui uns anos e dirão “e eu nem acredito que já fui emo”.

Não podemos julgar as pessoas, não sabemos o que as levou até ali, dos processos que se desenvolveram em sua mente e em sua vida somos ignorantes. Somos ignorantes de nós mesmos.

À medida que vamos nos conhecendo, percebemos algumas nuances em nossa mente, percebemos o quanto somos infantis e corriqueiros, o quanto somos egoístas e imperfeitos. Por isso, mudamos, olhamos para trás e temos uma espécie de arrependimento, uma culpa, uma vontade de gritar, pedir desculpas, abraçar pessoas, agir de forma diferente diante de uma situação que, infelizmente, ficou no passado.

É quase uma injustiça carregar a culpa do próprio passado, é quase como carregar os erros de outra pessoas, pois é certo que somos frutos do que fomos um dia, mas não somos mais aquilo que passou. É, eu acho que é isso: não somos mais aquilo que passou.

Somos outros, somos novos, somos diferentes. Nem sempre mudamos para melhor, infelizmente, mas mudamos.

Não tenho ideias hiperativas, que ficam gritando e pedindo atenção para que eu não as esqueça. Não tenho uma ideologia para morrer por ela, não sou Gandhi, nem Che, nem Hitler, nem Newton.

Poder se desprender de coisas, de pessoas e de ideias é difícil, contudo, por vezes, é mais difícil ainda se deixar prender, se deixar fisgar, morder a isca desse mundo e dizer que se tem os pés no chão, que vive-se, de fato, num mundo de pessoas de carne, osso e lágrimas.

É injusto que nos façam ficar presos ao que dissemos quando éramos mais jovens. Não somos mais os mesmos, não temos mais o mesmo discurso, não lançamos mais a flecha da mesma maneira.

A esquerda não é mais a mesma, a direita não é mais a mesma. O socialismo se confunde com o capitalismo em países desse planeta. O preto vai virando o branco e a gente nem percebe, no entanto, somos sectaristas e conservadores quando se trata de apontar o dedo e jogar uma pedrinha.

5S – Seiketsu – Senso de Normalização

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SEIKETSU

O Senso de Normalização se torna complicado quando se trata da psique humana.

Vamos com calma, então, pequeno gafanhoto.

Numa empresa, Seiketsu poderia ser aquele mural pendurado na sala comunitária.

Um quadro de avisos, com procedimentos e prazos. Tudo com muita clareza.

Cores e desenhos podem, e devem, ser utilizados para melhorar o entendimento e a fixação do conhecimento na mente de cada funcionário.

Assim, se isso parece funcionar tão bem numa empresa ou escritório, por que não tentarmos trazer essa técnica pro nosso mundinho interno?

Isso pode se tornar bastante simples ou, se quisermos levar a um nível mais extremo e profundo (o que pode valer muito a pena), pode se tornar bastante cientificamente místico (sim, é possível).

Sejamos simples, de início.

Pensemos assim: tu és uma pessoa preguiçosa, adoras deixar tudo pra depois, olhas televisão o dia inteiro mas sabes que isso tá errado. E agora?

Agora assim: levanta essa mãozinha preguiçosa, pega uma caneta e um post it e escreve alguma palavra motivadora, assim bem auto-ajuda, algo como “DISCIPLINA” e cola isso do lado da TV. Toda vez que vires esse post it anotado, lembre-se do seu intuito, do efeito que ele deve ter sobre ti. Segue assim, escreve outros, cola em vários lugares.

Cola um na geladeira: GORDO.

Cola outro na porta de saída de casa: VONTADE.

Vai assim.

Quando te acostumares com eles, troca-os, todos e um por um.

Escreve com letras grandes, coloridas, em papéis diferentes. Anexa fotos, imagens, coisas que possam te trazer uma determinada emoção ou sensação interna que provoque um clique nas idéias.

Tenho certeza de que, se fores rígido e atento, terás resultados interessantes.

O lado mais espiritual existe. A magia é recheada de símbolos, palavras, cheiros e muitas outras propriedades subjetivas que têm a função de servir como ferramentas para um crescimento interno.

Rituais com determinados elementos têm o objetivo de nos fazer buscar as forças e a atenção necessárias para determinado fim dentro de nós mesmos. Não há muito mistério nisso, há, sim, muita desinformação e força nisso.

Quanto mais difícil e trabalhosa for uma prática, seja ela mágicka ou simples como a técnica dos post its, quanto mais elaborada ela for e mais tempo demandar, acredito que funcionara tanto melhor ainda.

É como escrever o prazo no mural do escritório, ele está lá, o vemos diariamente e, de tanto ver aquilo, acabamos trazendo pro nosso pensamento que a data é aquela e o trabalho precisa ser feito.

E nada disso doeu, né?

E no mural: VORACIDADE e VONTADE!

Como mudamos com o tempo

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Não sou um cara muito chegado a fotos, quero dizer, odeio tirar fotos, sou tímido pra isso, e não é de hoje, acho que desde pequeno fui assim, por tal motivo, é muito difícil encontrar fotografias minhas de quando era criança ou adolescente.

Contudo, às poucas fotos que tenho gosto de dar certa atenção especial, não por narcisismo (obviamente não), mas por uma ânsia de me descobrir, de encontrar algum segredo bem escondido naquele rosto que já não é mais o mesmo, naqueles olhos que já não têm o mesmo brilho, no corpo bem diferente.

É interessante perceber as pequenas, as ínfimas, sensações que essas observações podem nos trazer, bem como alguns eventuais insights importantes no caminho tão abstrato do auto-conhecimento.

Eu olho sempre nos meus próprios olhos nas fotografias, lembro de Demian, personagem do livro homônimo do escritor alemão Hermann Hesse. Tive um olhar sagaz, penetrante, e, ao mesmo tempo, cheio de vida, quase zombando da própria vida. Hoje está mais para um olhar de quem assiste Big Brother e acha que assistir Luciana Gimenez e criticar o que está passando é bom para a alma (tá, exagerei).

Fico perplexo ao perceber o quanto vamos perdendo território dentro da própria psique para uma espécie de piloto automático, para convenções sociais, pra costumes e tradições nem sempre muito saudáveis para a mente.

Olho para fotos antigas e me pergunto “quem é esse cara? Pra onde ele foi?”. Fica tão distante que não sei perceber o fio que me liga até esse passado, a linha que une essas pérolas nesse colarzinho que é o Self.

Inevitável lembrar da música dos Titãs, Não vou me Adaptar, que traduz de forma bem simples essa perda de continuidade da mente, essa cisão do que “sou” e do que “fui”.

A vida é dinâmica, e acompanhar o que sucede dentro e fora da gente nem sempre é fácil.

Soltar laços, desapegar, deixar que as coisas vão e talvez não voltem pode ser doloroso, no entanto, não se pode impedir que isso aconteça.

Como que eram os seus olhos nas fotos de criança? Famintos de vida? E agora?

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