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O apedrejamento

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Sakineh Mohammadi-Ashtiani.

Todo mundo deve ter ouvido falar nesse nome essa semana.

Sakineh é uma iraniana de 43 anos e mãe de dois filhos (sério, Christian? Pensei que fosse mãe de dois avôs!).

Sakineh era casada. Seu marido morreu, portanto, viúva.

Sakineh é acusada de ter mantido (ou apenas “tido”?) relações sexuais com dois homens após a morte do marido. Sim, após a morte do marido.

É claro que, pra atenuar a história toda, numa tentativa vã de dizer “viram, ela merece isso”, diz-se que ela está relacionada à morte do marido, quase como uma mandante.

Bom, sem entrar na questão do merecimento ou não, o fato é que Sakineh foi sentenciada à pena de morte. À pena de morte por apedrejamento.

Apedrejamento… em que século estamos? Em que mundo vivemos?

Pena de morte, por si só, já é uma medida extremista, no entanto, apedrejamento me parece um sadismo desnecessário de quem vive.

Condenar alguém à morte por apedrejamento não é como dizer “ei, você fez coisas erradas demais, não é seguro que você viva em sociedade, tampouco em cárcere, portanto, iremos aplicar-lhe a pena de morte.”.

Não.

Não é assim. A morte por apedrejamento parece uma diversão pra bestialidade humana. Parece que estou vendo os aplicadores da pena, em meio a gargalhadas altas e terríveis, gritando palavrões, xingando, e jogando pedras, tentando machucar apenas, adiando ao máximo o alívio da dor e da agonia do apenado.

“Ei, estamos adorando te ver sofrer, e sangrar, e chorar, e pensar que, de uma forma ou de outra, uma força divina vai te salvar!”

Essa é a imagem bestial do homem.

Não intervir nisso. Aliás, não intervir em milhares de coisas erradas e estúpidas que acontecem através do mundo inteiro comprova duas coisas:

  1. A ONU é uma besteira sem tamanho, uma fachada, uma máfia, um fiasco como representante dos direitos humanos e do bem-estar social;
  2. Em milhares e milhares de anos, o homem (eu estou reiterando isso, quem me lê com constância sabe dessa minha implicância) não evoluiu, ele desenvolveu tecnologias, obteve conhecimento, mas jamais evoluiu como animal, jamais deixou sua condição simiesca, e se o fez, o fez por muito pouco.

Pois bem, quem sou eu pra falar disso tudo, não é?

Quem somos nós, que ficamos, diariamente, assistindo a vida passar, que não levantamos a mão pra ajudar ninguém quando o ajudar nos custa um pouco mais do quem um tempinho? Quem somos nós, que deixamos um pão secar em casa, uma fruta apodrecer, mas que não convidaríamos alguém com fome para repartir dessa nossa comida?

Eu acho que temos medo, medo de compartilhar mais do que o alimento. Temos medo de compartilhar nossa decadência, nossa inabilidade para com a vida, nossa infelicidade.

Temos medo de perceber que outros, com tão pouco, podem ser tão ou mais sábios que nós.

Temos medo de que exista um outro rei naquele que se apresenta a nós, e então, apedrejamos.

Apedrejamos em silêncio.

Há um inferno dentro de mim

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Há um átomo dentro de mim,

Ele guarda um inferno em seu núcleo,

E é como um radical livre:

Vai transmitindo o descompasso.

Um a um vão se contaminando os outros átomos

Até tudo se tornar necrosado.

Há um inferno dentro de mim

Guardado pelo meu núcleo;

No meu peito: uma chaga aberta;

Por ela se escapa um átomo;

Somos, ele e eu, um só fruto podre,

Contaminamos, pouco a pouco, o meio que nos rodeia:

- Um centro de pestilência!

Até que, por fim, tudo cheire a enxofre e podridão.

Há um inferno no mundo,

Escondido no centro da escuridão do infinito,

Num buraco negro desconhecido,

Num planetinha colorido,

E eles se colidem e se contaminam

E espalham ao universo um fim pútrido,

A via Láctea é o pus dessa ferida,

Que mata os elétrons e toda a vida.

E tudo torna a se recolher em morte profunda.

E há um inferno na morte.

Mas eu hei de nascer de novo,

Com o mesmo átomo dentro de mim.

Caminho certo (ao túmulo)

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Morte.

Assunto complicado esse: morte.

As pessoas vão caminhando, a vida inteira, para o destino certo que é a morte. Caminham e caminham, o tempo todo, com cada respiração, carregando todos desejos e vontades, no entanto, caminham de costas.

Ninguém quer enxergar o fim da linha.

Ninguém quer entender que vai morrer.

Ei, segredinho pra ti: tu vais morrer, meu caro.

Pode ser numa overdose, num acidente, por um problema de saúde ou outra coisa qualquer, mas é certo, tu vais morrer.

Não gosto de caminhar de costas para esse destino, gosto de olhar bem nos olhos dessa senhora de hábitos delicados e exigentes e dizer “quando tu estiveres pronta”.

- Ai, que coisa horrível de se dizer, Christian!

Não, justamente o contrário.

Horrível é ter medo, horrível é olhar para si e pensar que não está satisfeito com o que fez ou faz, que está protelando, dia após dia, o momento em que vai encarar a si mesmo e dar o seu melhor (ainda que isso possa parecer pouco para outros) para buscar ser tudo o que pode ser.

São freqüentes as noites em que páro e penso que estou pronto, satisfeito.

Atenção, estar satisfeito não é estar saciado.

Voracidade é uma arte, e é preciso ter talento.

Estar satisfeito é olhar para o caminho e dizer, com sinceridade: acredito que estou indo certo.

Acredito? Sim, acredito, se tiver certeza, ótimo, mas pensar estar certo já um enorme passo. Quão pior seria olhar para o que se fez até hoje e dizer: só isso? Ou então: onde estou?

Se tu olhas pra ti numa noite escura, sozinho no quarto, e te pergunta: caso não acordasse amanhã, morreria feliz? E a resposta é não, seja atento, seja esperto, diga a ti mesmo “vamos recomeçar”.

Não importa quantos milhares de vezes tenhas que repetir essa frase quase de auto-ajuda, vá plantando as sementes dessa mudança, até que um dia possas olhar e perceber que retomaste um caminho, “O” caminho.

Caminha de frente para o túmulo. Não queira chegar até ele, mas cuida do modo como vais até lá.

Luta pra ser satisfeito contigo, sempre.

Luta.

Prefira chegar ao fim repleto de machucados de lutas do que repleto de desculpas que usaste para escapar das intempéries.

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