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Releitura

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Tá, eu elogiei bastante esses dias dois best-sellers aqui no blog.

Ta, eu sei que daqui um tempo eles deixarão de ser best-sellers e poderão ser lidos e criticados com mais imparcialidade.

Não quero desdizer o que disse, não quero me retratar. Aliás, reitero, A Menina Que Roubava Livros e O Guardião de Memórias são dois livros excelentes.

No entanto, sinto falta de um livro intenso do lado de dentro, que nos pegue pela alma. Que pegue nossa alma como quem pega um pano sujo do chão e vai lavando, e vai mostrando de que que é cada mancha que está sendo retirada e vá além, que nos mostre a água suja no balde e diga “viu só tudo que saiu”, só não diz um “e ainda tem mais” por ser orgulhoso de si mesmo, o livro.

Sinto falta de nunca ter lido Demian, Sidharta e O Lobo da Estepe do Hermann Hesse, de nunca ter lido A Insustentável Leveza do Ser e A Brincadeira do Milan Kundera, de nunca ter lido Assim Falou Zaratustra do Nietzsche. Sinto muita falta de quando não tinha lido esses e muitos outros livros bons (que nos pegam pela alma).

Sinto falta de quando eram alheio a essas palavras porque eu podia lê-las como quem lê a si mesmo pela primeira vez, como quem tem uma janela aberta para o horizonte pela primeira vez, como quem acorda de um sonho… pela primeira vez.

Ter o inédito em nossas vidas é tão valioso que se torna, ao menos para mim, insustentável seguir sem buscar uma coisa nova. Por isso não sossego com autores e bandas, vou fuçando até encontrar algo novo e bom.

Vou me tornando um poço de cultura inútil pra minha área de atuação profissional, mas não tem muita importância, isso é m hobby, é por prazer (ou por amor?).

Porém, sinto falta de nunca ter lido esses livros supracitados, acima de tudo (creio eu), por ter sido ignorante sobre as sujeiras do pano.

Milan Kundera e a existência

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“Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem: Nietzsche esta saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, e justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divorcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. E este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, “senhora e proprietária da natureza”, prossegue sua marcha para a frente.”

A Insustentável Leveza do Ser

(Retirado do http://pt.wikiquote.org/wiki/Milan_Kundera )

Relembrando algumas coisas do Kundera, me deparei com esse trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser. Li esse livro quando ainda fazia faculdade de Direito em Cruz Alta, provavelmente em 2005. Marcou-me muito o estilo de escrita, o conteúdo tão intimista e filosófico, foi o primeiro livro do Milan Kundera que li, e foi à partir desse que virei fã do autor e li tudo dele que caiu nas minhas mãos até agora.

O trecho está, obviamente, descontextualizado, contudo, o importante, no momento, é a idéia principal e inicial que ele me traz à mente, e uma conclusão quase lógica e escatológica (sim, isso mesmo).

O ser humano, essa enorme peste que habita o planetinha, transformou-se num parasita de primeira, e isso é irrefutável, só não enxerga quem tem demasiado orgulho de se sentir humano, quando, na verdade, poderíamos excluir o ‘humano’ e ficar apenas com o ‘ser’, um vivente pouco pensante.

Pois bem, mergulhado em diversas divagações, terminei por entender que, de fato, o que mais me encanta na humanidade é essa capacidade tão pouco explorada de cair na “loucura” e deixar que sensações, emoções e pensamentos tenham vazão, da forma que vierem à superfície, sem retaliações imediatas da mente, sem preconceitos.

Ao deixarmo-nos sentir e pensar o que se é levado a sentir e pensar no momento, sem se penitenciar por isso ou aquilo ser feio ou proibido, é que teremos a oportunidade única de observar quem somos, o que somos, como fomos nos construindo ano após ano e qual a idiossincrasia que vai nos por em contato com nossa própria cabecinha (não a de baixo).

Acontece que tudo é tão feio e digno de repressão hoje. Ao passar por um negro mal vestido na rua um não pensa nada, outro pensa em segurar bem sua carteira, outro ainda pensa em linchamento, mas quem está errado? Quem está certo? Cada um passou por experiências únicas e sabe (na verdade não sabe, mas seu inconsciente deve saber) porque, instintivamente, age de tal forma.

Como um thelemita, me obrigo, a contragosto, a citar uma frase do Líber AL vel Legis: “A palavra de pecado é restrição”. Cada um sabe o que carrega dentro de si, e só terá luz para analisar o que há em seu cérebro quando deixar que as coisas venham à superfície.

Nietzsche sentiu algo incrível e irrefreável na cena descrita no trecho acima, assim como a personagem Tereza com o cão Karenin. E é assim, no limite, quando somos jogados ao extremo do colapso e desestruturação, que temos a ferramenta necessária para jogar luz ao âmago e perceber o que há em nós de tão humano (ou louco, se preferir).

Particularmente, acho muito mais interessante aquela pessoa que percebe seus conflitos e os trata como parte de si e não do mundo, prefiro aquele que se olham sem medo àqueles que têm suas unhas cravadas no braço da poltrona com medo de sair de frente da televisão.

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