Ela foi à cafeteria sozinha, porque se sentia sozinha, porque era sozinha, mesmo não sendo. Tinha amigos, mas nenhum gostaria de acompanhá-la em um café, sentar em uma mesa, calma, com um café e um pão de queijo, um DVD do Paul McCartney tocando, ocupando o lugar, enchendo o que poderia ser preenchido por solidão. “Speaking words of wisdom… let it be”.

Ela sentou e pediu um café e um pão de queijo. Esperou, enquanto olhava para o celular e para a tela que não piscava, para o toque que não desatinava.

Para a cadeira a sua frente que não era ocupada.

Vazia a cadeira.

Vazia a rotina dela. Normalmente.

Ela tinha dinheiro.

Tinha o que se poderia chamar de beleza exótica.

Cabelos crespos, castanhos.

Seios grandes.

Olhos escuros, penetrantes, quase intimidadores.

Talvez as pessoas tivessem medo dela.

Quando ela falou comigo, eu senti pena, eu senti desespero na voz firme.

Ela me contou algumas coisas.

Pediu um café para levar, pagou a conta e foi embora.

Ela parecia ser uma pessoa interessante.

Não me interessou, nunca ficarei sabendo se interessaria.

O problema é que ela não se interessava por si mesma.

Esse é um grande problema.

Grande problema.