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Memórias sem luz
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Ele havia encostado o revólver sob seu queixo. Ele pensou em como era engraçada a sensação do aço gelado encostando sua pele, era como se experimentasse o tato através de outra pessoa, não sentia, de verdade, que era ele quem segurava o peso daquela arma, escura, carregada de pólvora e chumbo e de medo e angústia.
Não tremia, um segundo do frio na sua pele parecia representar anos e anos de vida marcada pela falta de presença de si em si, sempre como se assistisse um teatro, em fato, a vida acabava lhe parecendo uma enorme galeria de personagens, e ele era livre para pegar e largar o papel que quisesse a hora que bem entendesse, era assim que se relacionava com os outros, com o mundo, mas não consigo.
Sua relação com consigo mesmo ou inexistia ou existia com demasiada sinceridade e falta de medo. É confuso. Por vezes, o medo que temos de encarar o que somos, o que pensamos, nos protege, somos programados para nos protegermos de nós mesmos. Há um monstro no abismo.
Uma rajada de vento soprou no nono andar, um vento morno e denso, parecia que, ao tocar seus cabelos poderia varrer seus pensamentos ruins. Mas o que está na alma está gravado pra sempre, com letras em negrito.
O vento quente era prenúncio de temporal, longe, no horizonte, já podia enxergar raios cortando o céu, mostrando sua imponência.
Lembrou de quando era pequeno, numa noite assim, exatamente assim. Deveria ter uns 10 anos, já era noite e ele estava na rua brincando com os vizinhos, sua mãe o chamou para jantar. Havia sopa. Naquela época a comida tinha um gosto diferente, era sempre boa, era sempre confortável.
Naquela época não havia grades isolando as casas, às vezes muros. As portas ficavam abertas, deixando o vento abençoar a pele de cada, trazendo o cheiro de deus para dentro da alma, e deus tinha cheiro de vida e flores naquela época. Ah, e sopa de ervilha.
A luz apagou. O vento ficou forte, o temporal já havia chegado em algumas partes da cidade e a luz havia caído, mesmo assim, com velas que teimavam em ficar acesas, lutando contra o vento, puderam jantar. Essa noite ficaria pra sempre guardada.
Seria lembrada, também, como o dia da morte do filho mais novo de uns vizinhos. Uma outra vizinha veio avisar enquanto jantávamos, ele lembrou de como ela chegou, um pesar enorme em seu rosto, lágrimas contidas em olhos vermelhos.
Não compreendia muito bem o que acontecia. Seus pais se levantaram, conversaram com a vizinha que trouxe a notícia no lado de fora e depois voltaram, pediram para a irmã mais velha dele tomar conta de tudo que eles precisavam sair.
A luz apagou. Mas a janela estava aberta, os raios iluminavam a noite e o vento morno no nono andar esquentavam suas mãos, e o aço esfriava seu queixo.
A luz apagou, e não havia velas.
O cheiro de deus não era de sopa de ervilha, nem de flores…
A luz apagou.