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Da folha em branco e a nova velha forma de escrever

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Hoje comprei um pacote de folhas de ofício. Minha necessidade de escrever há dias vem se arrastando e minha cabeça tem resistido a estas teclas que uso no momento. Teimei…teimei, então resolvi tentar à moda antiga: papel e caneta.

Sentei numa mesa, na frente do Café & Afins, em Balneário Camboriú, coloquei as folhas na minha frente, peguei a caneta na mão e esperei, talvez uns cinco minutos e pronto, uma história começou a criar forma, algo que não tinha me passado pela cabeça ainda, tenho quase certeza de que não foi uma das milhares ideias que me vêm e vão sem que eu anote ou escreva logo.

Tá, não vou contar nada por enquanto, vou deixar que o enredo tome forma mais clara. O importante, aliás, o interessante é observar o processo de construção na forma manual. É irrefutável: escrever com papel e caneta exige (ou simplesmente confere) uma forma de criação um tanto diferente, está-se consciente dos erros, eles ficam gravados como na vida real, não podem ser apagados por um backspace ou um delete, assim, eles não são esquecidos, ou se são, sempre se pode voltar e lembrar onde, como e porque ele aconteceu.

Quando se escreve em papel uma história as ideias fluem de uma forma diferente, elas são construídas com cuidado, porém, subjetivas, espera-se reler alguns pedaços para encontrar o sentido claro do que foi escrito, apoderar-se da acepção contida nas entrelinhas e continuar.

A vida é algo assim. Uma imensa folha branca na sua frente, um monte delas, aliás; você olha para ela com um certo receio, não sabe bem como começar, como grafar a primeira letra, aliás, não se sabe bem nem com que palavra se começa cada capítulo, mas assim mesmo se vai escrevendo, pouco a pouco, um trabalho de formiga, com paciência e, geralmente, sem muita sapiência, inicialmente.

Com muito cuidado e atenção as palavras, além de mais coesas e sensatas, podem, outrossim, principiar a indicar uma certa direção. Você erra, risca, rasura, mas a caneta não pode ser apagadas, não sem deixar severas marcas. Assim mesmo é com a vida, porém, você não tem permissão para amassar a folha e jogar fora, isso não.

Acredito que, se a partir de hoje, você tentar prestar atenção às palavras que tem escrito, logo começará a compreender melhor o rumo da história, logo perceberá como os personagens interagem, e poderá, talvez até, modelar de forma mais sábia esse roteiro.

E não se preocupe, lapsos de criatividade acontecem, é só esperar com calma.

5S – Seiton – Senso de Organização

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SEITON

O Senso de Organização é um problema de magnitude de firmamento para nossa mente, digo de firmamento porque não se enxerga um verdadeiro fim, apenas um pretenso momento em que tudo parece se juntar de forma coesa, mas esse momento sempre está lá, ao longe; de fato, a verdadeira organização da mente é um trabalho hercúleo, para não dizer impossível.

Organizar as gavetas da cozinha ajuda a cozinheira.

Organizar fichários do escritório ajuda a secretária.

Organizar as roupas ajuda o adolescente e a mãe desesperada com a bagunça.

Organizar as pastas do computador ajuda na hora de encontrar arquivos.

Enfim, organizar toma tempo e dá trabalho, mas jamais ficará sem trazer algum resultado proveitoso, nem que seja o de utilizar o Seiri, colocando fora aquela coisa que já não prestava mais e estava perdida em meio à desorganização.

Assim é com a mente.

Dá muito trabalho, oferece muita dor como um corte na alma, por muitas vezes. Noutras vezes, é regozijante, prazeroso, mexer nas gavetas dos pensamentos para colocá-los em ordem (na melhor possível, e isso, geralmente, é insatisfatório e dura pouco).

Mesmo que não consigamos colocar emoções em caixas e separá-las por data, nome, classe ou extensão, nem dar estrelinhas a elas, os pensamentos relacionados a estudos e conhecimentos podem ser ordenados de uma maneira mais ou menos sistemática.

Para que se tenha uma mente um pouco menos bagunçada é necessário bastante esforço. Recursos de associação são indiscriminadamente utilizados, a mente trabalha assim, em associações, uma coisa leva a outra.

Quem já meditou com um pouco de afinco percebeu que o fluxo de ideias é irrefreável e muito turbulento; contudo, se se consegue evitar um pouco sua velocidade enorme, se se consegue controlar sua viscosidade, eles podem se tornar mais laminares, assim, passíveis de observação.

No momento em que se consegue observá-los de uma maneira um pouco satisfatória, entende-se que eles seguem uma linha, como se andassem em fila indiana; melhor, como se brincassem de mãos dadas, em círculo, girando e girando.

Pra quem vê algo girando em velocidades extremas a sensação de vertigem se torna presente, as cores e formas se distorcem e a organização se torna impossível; porém, se a velocidade diminui, as qualidades se tornam mais perceptíveis, e a organização é mais sustentável.

Então, com um breve momento de organização, pode-se proceder a um passo importante para o crescimento espiritual: a limpeza, o Seiso.

5S – Seiri – Senso de Utilização

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SEIRI

O Senso de Utilização aplicado à mente parece um tanto quanto impossível, conscientemente. Talvez até mesmo seja impraticável voluntariamente, mesmo assim, se se considera possível essa prática, deve-se dizer que ela é importante. O fato é que, mesmo involuntário, mesmo inconscientemente, o senso de utilização ocorre.

Já pensou se não esquecêssemos de nada? Claro que já pensou, mas talvez não tenha considerado a hipótese de que isso pudesse ser uma terrível maldição; Nietzsche, contudo, considerou, e formulou aquela frase pop “abençoados os que esquecem, pois aproveitam melhor até seus equívocos”, ou algo assim.

Quando falamos em memórias, quando falamos em lembrar de tudo, esse tudo se refere à conhecimento, a lembranças úteis para o nosso desenvolvimento. E ainda que sensações e emoções de tristeza possam nos ser bastante úteis (tenho poucas dúvidas de que são as mais úteis), se pudéssemos esquecê-las viveríamos como em um mundo de fantasia, sem culpas ou pesares.

É, nós não somos muito propensos a seguir o Seiri, contudo, nossa mente não é nossa subordinada, aliás, está muito longe disso. Nossa psique parece ser programada para obedecer esse senso.

Frequentemente esquecemos daquilo que nos é incomodativo, esquecemos de momentos traumaticamente definitivos em nossa vida, e isso porque nos é útil apagar essas memórias, fingir que temos medo de determinada situação simplesmente porque ela pode ser perigosa e não porque, em algum recôndito da nossa mente, ela repousa em uma memória sem luz.

Deixar de lado aquilo que parece ser ameaçador, portanto, não-útil, parece ser uma habilidade bastante peculiar da mente, ela distorce, altera, esquece, apaga, ou seja como for, ela manipula com maestria nossa vida interna, se não estamos atentos.

Pode parecer meio amedrontador, mas já pensou no caos e no mundo recheado de conflitos que seríamos se simplesmente lembrássemos de tudo? Tenho certeza de que não dançaríamos um tango, mas uma marcha fúnebre.

Ou nasceríamos diferentes. Não sei, não me decidi.

Ajuda a opinar?

Assistindo de olhos fechados

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Em que momento foi que perdemos a nossa habilidade de sentir e estar presente aos momentos? Quando foi que esquecemos de presenciar a própria vida como parte dela? Quando deixamos de lado a atenção a todas as sensações causadas pelos cheiros, sons e luzes que nos tocam o tempo todo?

Ontem à noite, antes de dormir, liguei a TV na MTV e estava passando um clipe muito velho, isto é, do meu tempo de criança: Kid Abelha, na rua na chuva na fazenda. Tudo bem, nunca gostei tanto dessa música quanto eu gosto da Paula Toller, no entanto, ela me lembra minha casa em Cruz Alta, aquela onde cresci com meus irmãos.

Ao fechar os olhos ouvindo a música pude reviver momentos simples, distantes, e, ainda assim, significativos, de alguma forma, pro que sou hoje. Momentos assim, miúdos, aparentemente insignificantes, acabam se somando e construindo o que nós somos, fazem nossos hábitos e vícios, traumas e vontades.

Como ia dizendo, fechei os olhos e comecei a ouvir a música, sem prestar atenção na letra, apenas sentindo a melodia e percebendo o que aquilo ressuscitava em mim: o céu azul de um verão escaldante no clube onde costumava jogar tênis, o olhar através da janela para a chuva numa tarde assistindo The Goonies enquanto comia doce, o cheiro do xampu que usava naquela época, as brincadeiras na rua até escurecer e o horário de ir pra casa assistir Cavaleiros do Zodíaco e comer bolacha ou pipoca.

Naturalmente, essas lembranças boas trariam uma sensação de paz e sossego; contudo, mesmo quando as memórias invocadas são aquelas de alegria menos expressiva, a sensação de paz e sossego continua…

Continua porque naquela época ainda era presente em minha própria vida, porque sentia aquele cheiro e atentava à ele, porque via a chuva e queria tocá-la e sentí-la, gelada, em mim, esquecendo de um possível resfriado, era apenas viver o momento, quase incauto.

A música tinha sempre um tom de novidade, e disso eu realmente sinto falta, a música era muito mais alma do que instrumento.

E como retornar a esse estado de percepção da vida?

Tenho certeza de que revirar a infância não resolve nossos problemas, nossa apatia, no entanto, deve haver uma forma de trazer de volta esse sentimento de presença, de vida eminente, uma sensação que de tão pesada chega a nos prender, mas nos prende num lugar muito acima daquele em que nos sentamos e ficamos observando a vida continuar, esquecendo de fechar os olhos e sentir, e ouvir, e cheiras, e tocar…

Sétima poltrona, terceira fila.

Ter-te em mim

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               Noites assim, em que sentir tua falta é a atração principal, e chorar é tão somente um passatempo, pra ver se passa o tempo eu acendo o cigarro, pra ver se passa o tempo eu risco o céu com um giz branco, pra ver se passa o tempo eu me afogo em minúcias de memórias. Será que foi tudo tão assim assim?

                Nessas noites de poesia confusa, de prosa difusa, de confusão intensa, de confundir o preto com o branco e soltar a corda para cair no poço, eu canto em mi, canto em sol, faço todas as escalas pra ver onde mais te encontro. Não consigo nunca decidir qual teu tom, tua melodia parece tão completa, e do jeito que ela é só a mim toca os ouvidos, pois eu sei te ouvir com ouvido absoluto.

                Deitei o violão no colo, eu não imito tua presença com a música, tu traz a música a minha presença. Traz de novo? Eu te ouviria do outro lado do oceano, mesmo no teu timbre mais suave, pois que cada passo teu é uma nota, e eu imagino essa música diariamente, como se tocasse minha pele cada vibração, cada onda mecânica desse som.

                Em noites assim, de música silenciosa, que só toca na minha cabeça, eu quero tanto cantar, mas o silêncio me acomete, e eu calo. Quieto, ouço tua voz na lembrança, e a firmeza de tuas palavras, e a frieza das minhas atitudes. Eu me apavoro.

                Hoje acordei feliz, e só descobri porque dez minutos depois: eu havia sonhado contigo. Hoje o dia me acordou com música. Hoje eu fui uma melodia.

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