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Releitura

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Tá, eu elogiei bastante esses dias dois best-sellers aqui no blog.

Ta, eu sei que daqui um tempo eles deixarão de ser best-sellers e poderão ser lidos e criticados com mais imparcialidade.

Não quero desdizer o que disse, não quero me retratar. Aliás, reitero, A Menina Que Roubava Livros e O Guardião de Memórias são dois livros excelentes.

No entanto, sinto falta de um livro intenso do lado de dentro, que nos pegue pela alma. Que pegue nossa alma como quem pega um pano sujo do chão e vai lavando, e vai mostrando de que que é cada mancha que está sendo retirada e vá além, que nos mostre a água suja no balde e diga “viu só tudo que saiu”, só não diz um “e ainda tem mais” por ser orgulhoso de si mesmo, o livro.

Sinto falta de nunca ter lido Demian, Sidharta e O Lobo da Estepe do Hermann Hesse, de nunca ter lido A Insustentável Leveza do Ser e A Brincadeira do Milan Kundera, de nunca ter lido Assim Falou Zaratustra do Nietzsche. Sinto muita falta de quando não tinha lido esses e muitos outros livros bons (que nos pegam pela alma).

Sinto falta de quando eram alheio a essas palavras porque eu podia lê-las como quem lê a si mesmo pela primeira vez, como quem tem uma janela aberta para o horizonte pela primeira vez, como quem acorda de um sonho… pela primeira vez.

Ter o inédito em nossas vidas é tão valioso que se torna, ao menos para mim, insustentável seguir sem buscar uma coisa nova. Por isso não sossego com autores e bandas, vou fuçando até encontrar algo novo e bom.

Vou me tornando um poço de cultura inútil pra minha área de atuação profissional, mas não tem muita importância, isso é m hobby, é por prazer (ou por amor?).

Porém, sinto falta de nunca ter lido esses livros supracitados, acima de tudo (creio eu), por ter sido ignorante sobre as sujeiras do pano.

Preconceito com Best Sellers

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Sempre fui muito orgulhoso ao dizer: não, eu não leio best sellers.

Que estúpido eu fui, por muito tempo.

Ficava elogiando num ciclo eterno meus queridíssimos, e ainda prediletos, Milan Kundera, Hermann Hesse, Amós Oz, entre outros.

Adorava falar do 1984 do Geroge Orwell, comentar sobre o Partículas Elementares do Michel Houellebecq.

Dizia, com certo desdém, que não havia gostado tanto assim de Tolstoi e Dostoievski.

Enfim, boçalmente presunçoso. Um comportamento de leitor juvenil, né?

Porém, nesse semestre aprendi uma coisa muito valiosa: best sellers podem, sim, ser bons, aliás, mais do que bons, ótimos livros.

Duas surpresas me fizeram mudar essa opinião intransigente e preconceituosa.

1- O Guardião de Memórias, de Kim Edwards: a estadunidense me surpreendeu de diversas maneiras com esse romance extremamente delicado e tenso, como se durante a história toda uma tênue linha estivesse esticada, desfiando, quase arrebentando e liberando toda a tensão possível.

O Guardião de Memórias trata com uma sutileza e precisão incrível o mundo de um casal jovem que tem filhos gêmeos, um deles, a menina, com Síndrome de Down. A reação desencadeada por esse fato segue proporções ad eternum.

Mais tarde, vemos um casal desestruturado, desatendido do que chamamos de amor; ambos alheios a esse sentimento, senão por um amor por seu outro filho, que se torna um adolescente estrangeiro em seu próprio lar, carregando o peso da decisão dos seus pais.

Todos, pai, mãe, filho e filha, unidos em uma corrente sem elos, presos pela culpa e, ao mesmo tempo, distantes pela culpa e dor, impossível de se comunicar.

Edwards foi extremamente perspicaz na elaboração dos personagens, complexos e cheios de perturbações. Sua astúcia na elaboração das evoluções psíquicas e do desenrolar do enredo foi louvável, ainda mais em se tratando de um romance de estréia.

2- A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak: esse escritor australiano, no entanto, surpreendeu-me por outros motivos.

A forma delicada com que redigiu o romance me fez ficar embasbacado.

Percebe-se que o autor pesou de forma muito cuidadosa cada palavra jogada no livro. Cores e cheiros, nuvens e animais, livros e mortes, todos eles assumiam papéis sinérgicos e sinestésicos. É preciso estar atento para compreender a sutileza dessas minúcias tão ricas de sentimentos e vivas.

A história se passa com uma menina, Liesel Meminger, numa ruazinha da alemanha nazista. A garota, apaixonada por livros, acaba nutrindo uma ardente dor e raiva pelas palavras, porque foram elas que trouxeram toda a sua desgraçada, a desgraça daquelas que ela amou e a desgraça da alemanha. Foram elas, as palavras, que puseram Hitler no comando de uma empreitada desgovernada e insensata.

O livro é quase uma poesia narrada pela Morte, sim, a narradora é a fria coletora de almas. Com notas intercaladas ao longo do texto, trazendo miudezas do que forma uma vida, muitas vidas, um mundinho pesado e cinza.

Ah, meus caros leitores, se vocês também são preconceituosos com livros populares, como eu sou – ou era, ainda não sei definir -, tentem deixar de lado isso por alguns momentos, para alguns casos (não sou extremista a ponto de incluir Eclipse e seus séqüitos aqui).

E lembrem-se: Machado, Gregório, Azevedo e companhia, já foram pop, já foram leitura de periódicos, de jornais e de madames burguesas.

Da mesma boca

3

Tem gosto de traição,

 Ainda que assim não seja;

 Não é doce como cereja

 Pois me é amargo, então.

Cabe a mim sentir na boca,

 Na língua que me tocou,

 O gosto de cinzeiro que restou

 Dessa comoção em bancarrota.

 Desliza por entre os braços

E cai em mãos alheias,

 Diz-me quem tu anseias

Enquanto rompo os laços.

Da boca que na minha esteve,

Da língua que me falava doce,

Também se pode esperar tal coice,

Mesmo na serenidade que manteve.

Causos abafados

3

Por que a vida alheia é tão importante? Por que é tão necessário se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber notícias das vidas que não as nossas?

Quanto mais chocante, melhor. A audiência e a importância crescem de forma diretamente proporcional à intensidade da desgraça.

Também, temos uma enorme necessidade de expôr, de colocar pra fora, de limpar a alma falando ou escrevendo sobre nossos medos, angústias, ansiedades, dores, alegrias, conquistas, vangloriamo-nos e assim nos queremos bem.

Pois bem, tendo tudo isso em vista – e fazendo desse site uma espécie de divã nada junguiano, muito menos freudiano, e nem vou falar de Lacan, behaviourismo, et cetera -, à partir de hoje fico à disposição de quem quiser contar sobre sua vida para que seja dramatizada aqui.

A idéia funciona assim: tu me contas os fatos, o cenário, a situação e tudo que puderes, acrescentas como quer que seja romantizado, e eu faço a peça trocando nomes e qualquer característica que possa denunciar quem são as pessoas. Será como se assitir sob os olhos de outra pessoa e, ainda, com uma dose de fantasia.

Qualquer situação tá valendo: no ônibus, na balada, numa viagem, na divagação mais impossível da vida humana.

Voltamos ao lema: sua angústia compreendida ou seu dinheiro de volta.

Augusto dos Anjos – Monólogo de uma Sombra

2

Não gosto e nem costumo postar textos que não sejam meus, mas esse é necessário. Minha vida na literatura é dividida em eras, e uma delas foi marcada pela presença constante da poesia desse poeta deslocado de sua geração.

O poema Monólogo de uma Sombra é, como quase todos poemas de Augusto, intenso, soturno, impressionante, denso, e uma série de adjetivos impotentes diante da força de sua poesia.

Diz-se que ele costumava construir suas poesias em voz alta, caminhando, declamando, e isso faz muito sentido, pois a sonoridade delas é sempre muito enérgica.

Monólogo de Uma Sombra

Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A sáude das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da
Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como urna vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infurtúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

E unia trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, á noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual á luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descamada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na cavema escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
E a fauna cavernícola do crânio
- Macbetbs da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de
horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de urna esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandiloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta á quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

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