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Fragmentos – Gertrud (II)

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HESSE, Hermann. Gertrud. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

“E nisso ocorreu-me uma sentença de Muoth que repeti ao meu pai. Muoth dissera, certa vez, se bem que não a sério, que considerava a juventude como o período mais difícil da existência, e que achava que as pessoas idosas são, nas mais das vezes, muito mais alegres e contentes do que os jovens. Meu pai riu e depois, pensativo, opinou:

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whiter shade of pale

1

Ele olhou em volta, havia tantas portas, uma infinidade, um sem número, incontáveis e todas da mesma forma. Nenhuma inscrição, nenhum número de identificação, entretanto, em cada uma havia uma, podemos assim dizer, aura diferente. Ele deveria, pela primeira vez, refutar toda sua racionalidade e, finalmente, mergulhar na sua incosciência e sensibilidade, descobrir o que cada uma lhe traria sem saber o que havia por trás. Uma vez escolhida a porta, as outras se trancariam eternamente, talvez tivessem entradas por outras salas, mas isso é só uma hipótese.
Pobre, tinha tanta dificuldade em se despir da sua razão e apenas sentir o que elas lhe diziam que ficou tanto tempo parado, sem sequer se aproximar, tendenciosamente, de uma delas.
Por fim, resolveu obedecer a um impulso ignoto, coisa de animal, o tipo de sentimento que ele costumava relevar, ou omitir, ou até mesmo esconder de si mesmo. Aproximou-se de uma das portas e, lentamente, começou a ser invadido por um saudosismo. Mas aquilo não tinha sentido algum, era uma sala cheia de portas, fechadas, sem janelas, uma parca luz vinda de algum lugar, era óbvio que sentiria uma sensação do tipo, seria jogado para a infância, lugares na memória onde se sentiria confortável e seguro.
No entanto, as lembranças ficavam cada vez mais nítidas. Lembrou-se de um dos dias em que saiu pela rua com seus amigos para fazer nada, tinham todos entre dez e onze anos, compraram uma coca-cola e vários salgadinhos, e caminharam em direção a praça. Era perto das cinco horas da tarde, o horário de verão ainda não havia começado, em cerca de uma hora iria escurecer, e eles se sentiam livres, leves, donos de si, com guloseimas e um mundo imenso ao seu redor.
Havia um cheiro suave das árvores ao redor, e eles sentaram no banco da praça, estavam entre quatro. O clima não era mais tão frio, era agradável, havia um vento não tão suave vindo do sul, e eles conversavam sobre rock and roll, sobre as namoradinhas da sexta série. Tudo era divertido, cheio de ingenuidade.
Ele se afastou da porta. Sentiu a tristeza de olhar para trás, tinha a certeza de que jamais teria anos tão felizes quanto aqueles da sua juventude.
Sentia um aperto no coração, literalmente, parecia que se lhe houvessem socado no peito não seria tão ruim. O amargo o fez recuar e se dirigir para uma porta mais à esquerda. Ao chegar perto sentiu um cheiro de comida, era carne de panela e feijão. Parecia que podia tocar no cenário, mas se via um adolescente agora, já tinha quinze anos, era meio-dia e chegara do colégio para almoçar, sua mãe preparava o almoço, e ele estava brigado com seu pai, já manifestava os primeiros sinais de auto-afirmação. Olhava para o pátio da casa e observava as nuvens escuras chegando rapidamente com o vento, em breve iria chover, e ele poderia ficar o dia inteiro em casa, sem fazer nada de especial. Sentia naquilo tudo um vazio, ali começara sua derrocada, naqueles momentos sóbrios de ociosidade infrutífera, iniciara ali seu afastamento do mundo, o pequeno lobo aprendendo a ser selvagem, mostrando os dentes.
Afastou-se dessa porta também, não sabia o que mais lhe doía, se era a saudade de tempos incontestavelmente ótimos ou o reconhecimento de erros tão distante e pueris que, mesmo podendo ser concertados, demandariam um esforço quase sobre-humano em sua psique. Ele já era matéria sólida, sua teimosia em si mesmo residia como um parasita lhe sugando uma seiva vital.
Permaneceu um tempo parado no centro da sala oval, olhando para o chão, vendo a luz fraca se espalhar. Batalhava contra si mesmo, o lobo queria dar um jeito de sair do jogo, estava cansado e precisava morder alguma coisa, o homem queria saber de cada porta, o que elas significavam e outras tantas coisas.
Num esforço, voltou-se para trás e foi rapidamente para outra porta. Tocou nela, sentiu sua textura, era madeira, cedro, espessa, escura, fria. Aquela frieza o lembrou de tempos não tão distantes, das suas buscas vãs por um espírito satisfeito, por uma alma sadia, mas o mais perto que chegou foi do sadismo. Havia sexo ali, e só sexo, já não conhecia o amor apaixonado da adolescência, nem o amor comedido dos seus vinte anos. Já estava com vinte e cinco, recém formado, trabalhava e ganhava um dinheiro bom. Saía aos finais de semana com os poucos amigos que tinha, e estes ele sempre os mantinha a certa distância com medo não se sabe de que. No seu quarto só entravam mulheres, às vezes até mais de uma na mesma noite. Era sexo, e só sexo. Sentia falta do amor, e esse vazio o fazia distante, satisfazia-as com prazer, mas nunca com sentimento, não por maldade, mas por impossibilidade. Já nao era apto ao verbo amar.
Meditava, outras vezes, com seus exercícios espirituais, sem nunca saber ao certo se estaria fazendo a estrada correta. E essa dúvida revivida o fez recuar da porta e pensar que poderia ter seguido por escolhas erradas atrás de outras também erradas, enganando-se de porta em porta, já não poderia voltar nem mesmo imaginar alguma outra hipótese de vida.
Com toda certeza, aquela foi a porta que mais lhe esvaziou os sentimentos. Não era dor, era comedimento e resignação. O lobo estava angustiado, já babava de raiva, mas o homem sufocava o instinto, e a ira ficava contida.
Resolveu tentar outra vez. Havia uma porta reto a sua direita, e ele se dirigiu para lá. Ao chegar bem perto, sentiu nada, absolutamente nada. Era como se ficasse envolto de uma luz totalmente branca, a maior alvidez possível, o próprio princípio da luz. E já não sabia quantificar o espaço ou o tempo, não sabia se situar em coordenadas ou dimensões.
Havia cansado de memórias, de lamentações. As ilusões eram as mesmas, invariavelmente. As lembranças estariam sempre ali para ele se lamentar de suas escolhas, sem nem ao menos lhe ser permitido saber se teria possibilidade de ter feitos caminhos diferentes. Às vezes acreditava que não podia, nunca, ter feito nada diferente, se lhe dessem mil ocasiões repetidas, ele seria impelido por forças incognoscíveis a fazer mil vezes exatamente o mesmo.
Ah,ele abriu a porta e entrou, resoluto.

cena ii

2

Estou lendo o jornal do dia num café no centro da cidade, são quase onze horas da manhã. Meu café está quente e forte, por isso o tomo devagar, com calma, e assim posso, também, observar bem o lugar em que me encontro.
Lá fora está frio, mas aqui dentro não, tem uma lareira atrás de mim, a umas três mesas de distância, que esquenta o ambiente.
Há na minha frente uma moça, deve ter uns trinta anos, isso já me faz crer que deveria estar vendo meus netos se formando no ensino médio. Pois bem, a mulher carrega no colo uma criança, e por isso me remeti aos meus netos, deve ter quase dois anos de idade, tem olhinhos azuis e cabelos loiros e crespos, um anjinho, faz-me lembrar minha filha quando era criança. A jovemzinha acaba de me dar um sorriso tão belo que senti vontade de chorar, não sei porque, acho que a idade este me deixando mole, mas apenas esbocei um sorriso o mais simpático possível. Realmente, parecia um anjinho, e brinca com seus dedinhos como se o mundo inteiro estivesse ali, nada mais, nada além, e seu riso suave chegava aos meus ouvidos fazendo com que, involuntariamente, meu sorriso seja mantido.
Eis que me distraio. Um casal acaba de entrar no café. Ambos devem estar na casa dos vinte e poucos, com certeza menos de vinte e cinco. Ele usava roupas pardas e tinha passos firmes, a abraçava pela cintura. Ela usava roupas mais claras, e seus olhos brilhavam pela companhia do rapaz. Tem coisas que apenas a idade nos faz perceber, esses vários anos de experiência podem trazer certa sabedoria à alma, certo que não sou nenhum sábio, mas já não sou tão inocente e ingênuo como fui em minha juventude. Ele puxou a cadeira pra ela sentar, tirou o casaco e colocou na cadeira e depois se sentou.
Ouço uma música ambiente no café, é um blues, e isso me faz lembrar de quando morava na Inglaterra, quando ainda era produtor de discos. Tomei um gole do café, e voltei os olhos ao jornal. Meus pés batem no ritmo da música que toca, é tão bom sentir esse ritmo, a mulher que canta tem uma voz agradável, forte e ao mesmo tempo suave. O casal que entrou depois sorri, a mocinha agora brinca com um guardanapo que pegou na mesa de sua mãe.
O que não daria pra ela estar aqui agora, minha companheira, observando essas cores, sentidos esses cheiros, pulsando o ritmo da música, quem sabe até arriscando um vocalize sobre a base tocada. Ah, nem a velhice tirou a beleza e o brilho dos olhos daquela minha doce companheira, mas o tempo veio arrancá-la de minhas mãos.
Já não presto atenção no jornal. Olho em volta novamente enquanto busco a xícara para tomar o último gole restante ali, e nem está mais quente. Levanto, dou uma olhada para o casal, e não posso negar, há ciúmes nos meus olhos, mas há ainda mais uma espécie de alegria compartilhada, sinto feliz de ver que nem tudo mudou, apesar da distância das pessoas ainda pode haver sentimentos. Sorrio para a criança, e ela me abana com a mãozinha que agora estava na boca, meio babada. Pago meu café, enrolo o cachecol no pescoço e saio. Mas a voz do blues do café ainda soa na minha cabeça, balançando minha alma como se a ninasse, evocando memórias como se me colocasse num sonho.

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