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Parte Quinta
3– Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.
Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.
Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.
O Lobo da Estepe
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Pois então, acabo de ler O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. É o terceiro livro que leio desse alemão, possivelmente escreverei outro dia sobre os outros dois (Demian e Sidarta), livros estes que, assim como este último que li, foram marcos em minha vida, como chamam comumente, divisores de água.
O talento de Hesse era natural, via-se que se fazia simples e dinâmico em seu modo de escrever, tanto nos romances quanto nos poemas que tive a oportunidade de ler. As palavras, as histórias, a musicalidade e a genialidade corriam livremente pelo poeta alemão, provavelmente pela rigidez com que o audacioso auto-didata trazia consigo.
Filho de pais protestantes, extremamente religiosos, Hermann foi na contra-mão do cristianismo que lhe tentariam impôr. Não só se opôs ao que seus pais acreditavam, como seguiu um caminho de estudos espirituais pela índia (lendo Sidarta podemos ter a idéia) e, também, de psicanálise junguiana (de certa forma exposto em Demian e o próprio Lobo da Estepe).
Os poemas de Hesse eram sem igual, talvez sejam dos melhores que já li, muitos deles dedicados a sua mãe, pela qual tinha imenso carinho. Porém, a profundidade dos seus romances é o que mais surpreende. O autor narra a história com maestria, descreve hábitos e vícios de personagens, vai além e, visceralmente, esmiuça a psique dos personagens; porém, ele vai além, ele transcende o psíquico, o emocional e o físico.
Hermann tinha o dom de dar aos seus romances climas extasiantes, tendo inebriantes momentos de absorção completa naquele mundo. Quando lemos o Lobo da Estepe somos jogados dentro de um mundo confuso de um homem acima dos cinqüenta anos, um solitário e triste homem, que vê em si mesmo um homem maduro e racional mas também um Lobo de instintos e selvageria. Nessa dicotomia se descobre muito mais que dois, vê-se repartido em milhares de Harry (nome do personagem principal), e ingressa numa jornada mágica de auto-descoberta, ajudado por pessoas que aparecem em sua vida num momento crucial.
Hermínia é a grande Beatriz da personagem, e Pablo, provavelmente, o Virgílio. Jogam o homem-lobo para situações que ele evitaria, mas se dispõe a enfrentar medos que aos olhos de muitos pareceriam bobos, mas não a ele, não ao lobo solitário nem ao homem nada sociável.
Harry descobre haver alegria ainda, descobre sobre o teatro da loucura, sem razão, que é tudo que lhe envolve. Num misticismo cheio de voluptuosidade e frenesi, dignos de Macário, Harry completa sua jornada pelas portas de sua vida, e entende a verdade em si, ou de si, ou do mundo, enfim… isso é algo que o leitor deve concluir por si, eu mesmo não tirei conclusões. Talvez me falte maturidade ainda para me conhecer dentro dos meus próprios corredores psíquicos, ou anímicos. O que me torna ainda apenas um homem e um lobo.
Teatro Mágico: entrada só para loucos.
Enquanto isso, continuo tentando barganhar meu ingresso pra esse espetáculo.