Posts tagged introspecção

1, 2 e 3 numa noite

3

1

Eu tenho tanta vida que tudo ficou pesado

Sem ser como o resto dos mortos que pensam que vivem mas boiam

Eu afundei, na mais profunda correnteza do oceano

Por ter tanta vida e ter ficado pesado, afundei

2

Não sei mais bem o que é

confundo o cansaço com a tristeza

pode ser um, pode ser outro

pode ser ambos

já nem percebo mais os limites entre sono e vigília

é tudo um constante caminhar frio e cego

e eu continuo confuso: cansaço ou tristeza?

3

Vem um verão mais gelado

não sei bem se é lá fora, penso que não

trago no peito o inverno tardio

que não termina há anos

às vezes ele traz vinhos

às vezes traz cigarros

noutras a aridez

vem um verão pra combater meu inverno

mas e se o verão for gelado?

Caça-bilhetes II

3

Tinha os olhos prontos para a desgraça

E tinha as asas abertas para o vôo ao abismo

Era crônico em pensar no infinito

Era uma só hora o tempo todo, a hora que desistia

Possuía o dom do contrário, era não nas afirmativas, era sim nas negativas

Era um adjetivo deslocado, o mais ímpio dos insensatos

Era um substantivo tresloucado, o mais infame dos descabidos

Tinha a boca e os ouvidos cheios de preguiça

Afundado

Infundado

Um trem desviado

Tinha os olhos vermelhos

Prontos pra desgraça

Parte Terceira

3

                Mais por impulso do que qualquer outra coisa eu disse em voz alta, vou pra Córdova. Nisso não havia nada de instrospectivo, nada de premeditado e nenhuma intenção, ao menos consciente, era puro e simples impulso despretensioso.

                A Bê me olhou com olhos que não eu não soube entender, então perguntou se eu estava falando sério. Falando sério? Eu não sabia se me levava a sério também, resolvi prosseguir na idéia sem dar muito crédito ao que dizia, respondi que sim. Dessa vez vi que ela ficou séria.

                Depois de persistir, meio jocoso, na idéia descabida, comecei a acreditar na própria invenção, e enquanto a Bê saiu do meu lado para fumar um cigarro na janela, eu acessei o site do Aeroporto Salgado Filho. Descobri que não haviam vôos para Córdova, teria, portanto, que pegar um avião de Porto Alegre para Buenos Aires, e de lá ir para Córdova.

                Virei para a janela onde a Bê estava fumando, ela olhava para fora, pensando sabe-se lá no que. Eu comecei a gostar da idéia de viajar, contudo, provavelmente por medo, não queria ir sozinho, aceitaria de bom grado a companhia dela.

                Aquela noite não dormi direito. É engraçado como uma novidade muda a vida de um homem, talvez esse seja o segredo para que se mantenha o ânimo, se não se age com ímpeto, com ousadia, buscando novidades, submerge-se nos pântanos viscosos do tédio e do marasmo, e lá se morre pouco a pouco. Eu estava morrendo quando percebi isso, e como quem segura a corda de algum herói, eu estava extasiado para ser jogado para fora da minha fantasia interna.

                Liguei para minha família avisando que às 14h40 voaria para Buenos Aires. Informar a eles, e não pedir, parecia meio estranho, e, devo dizer, sentiram-se até aliviados quando disse que viajaria e que iria acompanhado da Bê. Há tempos eles ficam felizes quando digo que vou sair de casa, fazer pequenas aventuras, não gostam de me ver trancado no meu quarto, chegaram a me oferecer um depósito na minha conta, mas disse que não precisava, que tinha economizado um bom dinheiro “trancado em casa”.

                Acordar com olhos de aventura é como renascer, é como tornar a ser criança, e assim se reconhece a alegria como algo de si, a minha, porém, erguia-se tímida por detrás dos morros de insegurança, timidez e impaciência. Depois que a angústia toma uma alma para si é difícil florescer algo mais, ela é como um parasita; mas essa aurora foi diferente, nela eu vi o sol como uma estrela, seis raios iluminavam um amanhecer depois dos dias de chuva.

                Não havia muita coisa pronta para uma viagem dessas, não posso dizer que quando embarquei estava pronto, à vontade com a Bê, nem que não pensava em desistir. Porém, estava ansioso, divididamente ansioso, e resolvi que já não era hora de parar. Ao entrar no avião essa ansiedade excessiva passou, e consegui dormir boa parte da viagem.

Pouco conversei com a Bê durante o vôo. Ela me parecia animada e resoluta, decidida. Aos poucos, desde ontem quando decidimos a viagem até o momento, ela foi se revelando diante de mim como uma pessoa que eu não conhecia, fui retirando, lentamente, a névoa das minhas memórias e expectativas de, através dela, resgatar um passado, e assim fui enxergando com mais clareza. Duas pequenas almas juntas numa jornada demasiadamente inusitada, e se a razão não nos cobria a alma, o espírito trazia energia para seguir em frente. Eu balançava dentro de mim e contemplava o universo imenso que havia no âmago.

 

[Vá para: Válvula de Escape]

deveras pensante

3

                Quinta-feira de muita chuva, quando acordei não estava tão frio, por sorte escutei a faxineira que me disse “leva um casaco garoto”, eu obedeci, como me foi ensinado a obedecer os mais velhos. Durante a vinda de ônibus para a universidade, olhando as nuvens escuras que se aglomeravam e também, outro pouco, olhando para o chão do ônibus com serragem para não ficar liso, para os meus pés calçando all-star e foi só isso.

                Estranho dizer “foi só isso”, é como se isso fosse um vazio, um espaço, um interlúdio, mas não, isso é, justamente, o todo, o preenchimento, o recheio de uma mente dispersa e incontida.  Cheguei a conclusão que minha mente é como uma empresa em desenvolvimento com um dono auto-suficiente.

                No início tudo era simples, uma empresa de pequeno porte, com produtos baratos e simples, fáceis de se fabricar e de vender, com apenas um sorriso se vendia de tudo, e também recebia donativos de empresas maiores, migalhas importantes pra construção do que viria.  Depois começou a expansão, abriu-se uma filial que exigia mais atenção e queria produzir produtos novos, diferentes da proposta inicial, e assim ela passou a ter mais autonomia. Sucedeu-se, então, que essa empresa exigia cada vez mais coisas extravagantes, queria produtos impecáveis, mas de pouca utilidade, ainda assim, foi crescendo de forma espantosa. Concomitantemente, a empresa original crescia, sua taxa exorbitante de informações e dados se transformava numa pilha diárias de laudas lidas e relidas e confundidas.

                Atualmente, minha mente é como essa empresa sufocada, eu sou o dono, dividido entre as duas empresas, uma é bonita e excêntrica, produz pouca coisa útil, ainda assim, faz mais sucesso que a outra, que, por sua vez, é uma empresa antiga, de renome no mercado interno, e eu, com tanta informação gerada, não consigo mais dirigir ambas.

                Agora, quem não sente esse aperto na cabeça? Parar quieto é dar vazão a um sem-número de idéias e pensamentos, a maioria deles não conseguimos acompanhar, perceber, racionalizar. É como se tudo dentro do espírito tomasse vida própria e agora parássemos pra assistir a peça, é como se os personagens estivessem prestes para pular fora do palco, logo fossem se materializar e oprimir o criador. Aliás, mesmo sem a materialização, eles são opressores muito bem alimentados.

                Quem foi que decidiu dar um cérebro que segue a estímulos, autômato, e que, no entanto, nos faz pensar que somos, de fato, os senhores desses rumos seguidos? Quem foi que teve essa brilhante idéia?

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