Posts tagged intimismo

Sutura a sanidade

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É preciso que eu me agarre a minha loucura

Diariamente, como uma única esperança

De sobreviver a essa maré que se avança,

Que se assoma sobre mim, na minha cura.

.

Tenho que entrar nesse antro interno,

Apanhar esse punhado de tristeza

Que sobe pelas paredes com destreza,

Que esfria e no verão faz mais inverno.

.

Quero congelar entre as pedras frias,

Trançar minha carne nessa imensidão

Que se expande e se gela em comoção

Arrebentando e sangrando essas estrias.

.

É que cresço parado, mais do que suporto,

E preciso me agarrar a uma neurose,

Orientar-me pela loucura que cose

A ferida aberta de um oceano natimorto.

Pensamento Viscoso

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.

Pensamentos opacos que destilam

E partículas de infindo cansaço

Que se precipitam em outro maço

E terminam num chão onde urinam.

.

O ontem viçoso virou velharia

Agora que a alma escorre lentamente,

A vida viscosa pesa obstinadamente

Absurda, teimosa, como quem não queria.

.

Contrariado, pesado, rastejava como uma hachura;

Revirava o leite coalho no seu espírito de manteiga,

Queria saber quando veria verde a sua velha veiga

De terra escura, habitada por fantasmas da sua loucura.

.

Escorria como mel, mas seu gosto sufocava;

Caía lento e pegajoso,

Era roto e indecoroso;

Viscoso, seu sorriso caía e sempre amarelava.

Milan Kundera e a existência

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“Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem: Nietzsche esta saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, e justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divorcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. E este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, “senhora e proprietária da natureza”, prossegue sua marcha para a frente.”

A Insustentável Leveza do Ser

(Retirado do http://pt.wikiquote.org/wiki/Milan_Kundera )

Relembrando algumas coisas do Kundera, me deparei com esse trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser. Li esse livro quando ainda fazia faculdade de Direito em Cruz Alta, provavelmente em 2005. Marcou-me muito o estilo de escrita, o conteúdo tão intimista e filosófico, foi o primeiro livro do Milan Kundera que li, e foi à partir desse que virei fã do autor e li tudo dele que caiu nas minhas mãos até agora.

O trecho está, obviamente, descontextualizado, contudo, o importante, no momento, é a idéia principal e inicial que ele me traz à mente, e uma conclusão quase lógica e escatológica (sim, isso mesmo).

O ser humano, essa enorme peste que habita o planetinha, transformou-se num parasita de primeira, e isso é irrefutável, só não enxerga quem tem demasiado orgulho de se sentir humano, quando, na verdade, poderíamos excluir o ‘humano’ e ficar apenas com o ‘ser’, um vivente pouco pensante.

Pois bem, mergulhado em diversas divagações, terminei por entender que, de fato, o que mais me encanta na humanidade é essa capacidade tão pouco explorada de cair na “loucura” e deixar que sensações, emoções e pensamentos tenham vazão, da forma que vierem à superfície, sem retaliações imediatas da mente, sem preconceitos.

Ao deixarmo-nos sentir e pensar o que se é levado a sentir e pensar no momento, sem se penitenciar por isso ou aquilo ser feio ou proibido, é que teremos a oportunidade única de observar quem somos, o que somos, como fomos nos construindo ano após ano e qual a idiossincrasia que vai nos por em contato com nossa própria cabecinha (não a de baixo).

Acontece que tudo é tão feio e digno de repressão hoje. Ao passar por um negro mal vestido na rua um não pensa nada, outro pensa em segurar bem sua carteira, outro ainda pensa em linchamento, mas quem está errado? Quem está certo? Cada um passou por experiências únicas e sabe (na verdade não sabe, mas seu inconsciente deve saber) porque, instintivamente, age de tal forma.

Como um thelemita, me obrigo, a contragosto, a citar uma frase do Líber AL vel Legis: “A palavra de pecado é restrição”. Cada um sabe o que carrega dentro de si, e só terá luz para analisar o que há em seu cérebro quando deixar que as coisas venham à superfície.

Nietzsche sentiu algo incrível e irrefreável na cena descrita no trecho acima, assim como a personagem Tereza com o cão Karenin. E é assim, no limite, quando somos jogados ao extremo do colapso e desestruturação, que temos a ferramenta necessária para jogar luz ao âmago e perceber o que há em nós de tão humano (ou louco, se preferir).

Particularmente, acho muito mais interessante aquela pessoa que percebe seus conflitos e os trata como parte de si e não do mundo, prefiro aquele que se olham sem medo àqueles que têm suas unhas cravadas no braço da poltrona com medo de sair de frente da televisão.

sensações áridas

2

É a nudez do meu corpo

que mostra aonde está alma

que deixa as cicatrizes contarem onde estive

que deixa as formas falarem de quem sou

das vitórias e das derrotas

É o corpo nu, numa grama intocada

a natureza e só a natureza como ela sabe ser

sem medo, sem pudor, sem bem ou mal

Na grama tocando meus pés

no corpo sentindo o vento gelado duma noite crua

eu ouvi meu espírito conversar com as estrelas

e eles falavam de mim

e eles estavam tensos

1, 2 e 3 numa noite

3

1

Eu tenho tanta vida que tudo ficou pesado

Sem ser como o resto dos mortos que pensam que vivem mas boiam

Eu afundei, na mais profunda correnteza do oceano

Por ter tanta vida e ter ficado pesado, afundei

2

Não sei mais bem o que é

confundo o cansaço com a tristeza

pode ser um, pode ser outro

pode ser ambos

já nem percebo mais os limites entre sono e vigília

é tudo um constante caminhar frio e cego

e eu continuo confuso: cansaço ou tristeza?

3

Vem um verão mais gelado

não sei bem se é lá fora, penso que não

trago no peito o inverno tardio

que não termina há anos

às vezes ele traz vinhos

às vezes traz cigarros

noutras a aridez

vem um verão pra combater meu inverno

mas e se o verão for gelado?

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