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Inocência e liberdade (ou lentilha de ano novo)
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Hoje tive vontade de comer lentilha. Tá, e daí?
Não, não foi um desejo por lentilha assim, simples e despretensioso, foi um desejo impregnado de um saudosismo quase infundado. Eu tive vontade de comer lentilha de ano novo, porque ela representa na minha vida, depois de tantas repetições, um momento estranho com a minha família, um momento em que todos acabam sendo mais “flor da pele”, tiram um pouquinho o coração do peito e mostram que ele tem lágrimas escondidas, acumuladas, que ele é de manteiga e que tudo pode ser tão maravilhosamente triste, ainda assim, num paradoxo fabuloso, belo e alegre.
Eu sempre tive pavor de ano novo e natal, dessas festas de fim de ano, cheias de gente, comida e risadas… parecia que eu nunca fora feito para isso.
Desde criança eu passava a tarde fora de casa, não participava dos preparativos, à noite ficava no quarto lendo, se possível com a luz apagada, iluminado apenas por uma luminária ao lado da cama. Socializava com o resto do pessoal apenas quando estritamente necessário, ou seja, momentos antes da janta e o mínimo depois.
Amo minha família, adoro estar com eles, mas é que pra mim esse negócio de natal e ano novo nunca fez muito sentido, só depois de um tempo passou a ter o significado de festa e feriado, nada além disso, pra mim (leia-se bebedeira, risadas e ressaca).
Fiquei sem entender bem porque senti esse desejo de lentilha, essa vontade de ano novo, porque a sensação que me veio não foi a de querer esse ano novo de hoje, com muita champagne, vodka e whisky, mas sim aquele da luminária, dos livros do Paulo Coelho, de passar a tarde jogando tênis e à noite, sem álcool nem internet, dormir.
Não quero ser precipitado, mas acho que eu fui muito mais maduro quando era criança e pré-adolescente. Eu não vivia em busca de prazer e risos, tudo bem que eu não era muito expansivo, era um tanto tímido, contudo, eu estava muito mais próximo do Princípio de Realidade.
Tudo muda com o tempo, nos tornamos homens e mulheres mais funcionais, dinâmicos, no entanto, pessoas mais pesadas, mais viscosas, vamos escorrendo pela vida e nos apegando a coisas, sentimentos e sensações e acabamos esquecendo como é ser livre, de verdade, como uma criança.
Na verdade, para tornar a ser livre, apenas recuperando a inocência, por isso a ingenuidade e a falta de memória pode até ser algo bom.
Penso que esse desejo de lentilha foi além de uma vontade de ano novo, passou pelos campos da adolescência, ficou olhando pra liberdade pintada em algum retrato por aí e sentindo falta daquela inocente liberdade ou livre inocência.
Memórias sem luz
2
Ele havia encostado o revólver sob seu queixo. Ele pensou em como era engraçada a sensação do aço gelado encostando sua pele, era como se experimentasse o tato através de outra pessoa, não sentia, de verdade, que era ele quem segurava o peso daquela arma, escura, carregada de pólvora e chumbo e de medo e angústia.
Não tremia, um segundo do frio na sua pele parecia representar anos e anos de vida marcada pela falta de presença de si em si, sempre como se assistisse um teatro, em fato, a vida acabava lhe parecendo uma enorme galeria de personagens, e ele era livre para pegar e largar o papel que quisesse a hora que bem entendesse, era assim que se relacionava com os outros, com o mundo, mas não consigo.
Sua relação com consigo mesmo ou inexistia ou existia com demasiada sinceridade e falta de medo. É confuso. Por vezes, o medo que temos de encarar o que somos, o que pensamos, nos protege, somos programados para nos protegermos de nós mesmos. Há um monstro no abismo.
Uma rajada de vento soprou no nono andar, um vento morno e denso, parecia que, ao tocar seus cabelos poderia varrer seus pensamentos ruins. Mas o que está na alma está gravado pra sempre, com letras em negrito.
O vento quente era prenúncio de temporal, longe, no horizonte, já podia enxergar raios cortando o céu, mostrando sua imponência.
Lembrou de quando era pequeno, numa noite assim, exatamente assim. Deveria ter uns 10 anos, já era noite e ele estava na rua brincando com os vizinhos, sua mãe o chamou para jantar. Havia sopa. Naquela época a comida tinha um gosto diferente, era sempre boa, era sempre confortável.
Naquela época não havia grades isolando as casas, às vezes muros. As portas ficavam abertas, deixando o vento abençoar a pele de cada, trazendo o cheiro de deus para dentro da alma, e deus tinha cheiro de vida e flores naquela época. Ah, e sopa de ervilha.
A luz apagou. O vento ficou forte, o temporal já havia chegado em algumas partes da cidade e a luz havia caído, mesmo assim, com velas que teimavam em ficar acesas, lutando contra o vento, puderam jantar. Essa noite ficaria pra sempre guardada.
Seria lembrada, também, como o dia da morte do filho mais novo de uns vizinhos. Uma outra vizinha veio avisar enquanto jantávamos, ele lembrou de como ela chegou, um pesar enorme em seu rosto, lágrimas contidas em olhos vermelhos.
Não compreendia muito bem o que acontecia. Seus pais se levantaram, conversaram com a vizinha que trouxe a notícia no lado de fora e depois voltaram, pediram para a irmã mais velha dele tomar conta de tudo que eles precisavam sair.
A luz apagou. Mas a janela estava aberta, os raios iluminavam a noite e o vento morno no nono andar esquentavam suas mãos, e o aço esfriava seu queixo.
A luz apagou, e não havia velas.
O cheiro de deus não era de sopa de ervilha, nem de flores…
A luz apagou.
Assistindo de olhos fechados
8
Em que momento foi que perdemos a nossa habilidade de sentir e estar presente aos momentos? Quando foi que esquecemos de presenciar a própria vida como parte dela? Quando deixamos de lado a atenção a todas as sensações causadas pelos cheiros, sons e luzes que nos tocam o tempo todo?
Ontem à noite, antes de dormir, liguei a TV na MTV e estava passando um clipe muito velho, isto é, do meu tempo de criança: Kid Abelha, na rua na chuva na fazenda. Tudo bem, nunca gostei tanto dessa música quanto eu gosto da Paula Toller, no entanto, ela me lembra minha casa em Cruz Alta, aquela onde cresci com meus irmãos.
Ao fechar os olhos ouvindo a música pude reviver momentos simples, distantes, e, ainda assim, significativos, de alguma forma, pro que sou hoje. Momentos assim, miúdos, aparentemente insignificantes, acabam se somando e construindo o que nós somos, fazem nossos hábitos e vícios, traumas e vontades.
Como ia dizendo, fechei os olhos e comecei a ouvir a música, sem prestar atenção na letra, apenas sentindo a melodia e percebendo o que aquilo ressuscitava em mim: o céu azul de um verão escaldante no clube onde costumava jogar tênis, o olhar através da janela para a chuva numa tarde assistindo The Goonies enquanto comia doce, o cheiro do xampu que usava naquela época, as brincadeiras na rua até escurecer e o horário de ir pra casa assistir Cavaleiros do Zodíaco e comer bolacha ou pipoca.
Naturalmente, essas lembranças boas trariam uma sensação de paz e sossego; contudo, mesmo quando as memórias invocadas são aquelas de alegria menos expressiva, a sensação de paz e sossego continua…
Continua porque naquela época ainda era presente em minha própria vida, porque sentia aquele cheiro e atentava à ele, porque via a chuva e queria tocá-la e sentí-la, gelada, em mim, esquecendo de um possível resfriado, era apenas viver o momento, quase incauto.
A música tinha sempre um tom de novidade, e disso eu realmente sinto falta, a música era muito mais alma do que instrumento.
E como retornar a esse estado de percepção da vida?
Tenho certeza de que revirar a infância não resolve nossos problemas, nossa apatia, no entanto, deve haver uma forma de trazer de volta esse sentimento de presença, de vida eminente, uma sensação que de tão pesada chega a nos prender, mas nos prende num lugar muito acima daquele em que nos sentamos e ficamos observando a vida continuar, esquecendo de fechar os olhos e sentir, e ouvir, e cheiras, e tocar…
Sétima poltrona, terceira fila.