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Fragmentos de Gertrud
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HESSE, Hermann. Gertrud. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
“Afinal de contas, é insensato indagar assim da felicidade ou infelicidade, pois penso que mais dificilmente renunciaria aos dias infelizes da minha vida do que aos alegres”
“O que um homem é para si e o que vive interiormente, de que maneira se torna outro e cresce e adoece e morre, tudo isso é inenarrável.”
“Acompanhei-a, penalizado, com o olhar; e, durante muito tempo, não me livrei mais daquela visão. Seria eu, deveras, um ser inteiramente diferente de todos eles, de Marion, de Lotte, de Muoth? E aquilo seria, realmente, amor? Eu as via todas, essas criaturas de paixão, cambalear como arrastadas pelas tormentas e flutuarem no desconhecido: o homem, torturado, hoje, pelo desejo, amanhã, pelo fastio, amado sombriamente e rompendo brutalmente, inseguro de qualquer inclinação, descontente com qualquer amor; e as mulheres, arrebatadas, suportando ofensas e pancadas, por fim enxotadas e, contudo, ainda agarradas a ele, aviltadas pelo ciúme e pelo amor repelido, numa fidelidade canina. Naquele dia, pela primeira vez, desde muito tempo, eu chorei. Chorei lágrimas de indignação e de ira por essas criaturas, pelo meu amigo Muoth, pela vida e pelo amor; e lágrimas silenciosas e secretas por mim mesmo, que vivia em meio a tudo isso como num outro planeta, que não compreendia a vida, que ardia em sede de amor e que, no entanto, devia temê-lo.”
O Lobo da Estepe
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Pois então, acabo de ler O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. É o terceiro livro que leio desse alemão, possivelmente escreverei outro dia sobre os outros dois (Demian e Sidarta), livros estes que, assim como este último que li, foram marcos em minha vida, como chamam comumente, divisores de água.
O talento de Hesse era natural, via-se que se fazia simples e dinâmico em seu modo de escrever, tanto nos romances quanto nos poemas que tive a oportunidade de ler. As palavras, as histórias, a musicalidade e a genialidade corriam livremente pelo poeta alemão, provavelmente pela rigidez com que o audacioso auto-didata trazia consigo.
Filho de pais protestantes, extremamente religiosos, Hermann foi na contra-mão do cristianismo que lhe tentariam impôr. Não só se opôs ao que seus pais acreditavam, como seguiu um caminho de estudos espirituais pela índia (lendo Sidarta podemos ter a idéia) e, também, de psicanálise junguiana (de certa forma exposto em Demian e o próprio Lobo da Estepe).
Os poemas de Hesse eram sem igual, talvez sejam dos melhores que já li, muitos deles dedicados a sua mãe, pela qual tinha imenso carinho. Porém, a profundidade dos seus romances é o que mais surpreende. O autor narra a história com maestria, descreve hábitos e vícios de personagens, vai além e, visceralmente, esmiuça a psique dos personagens; porém, ele vai além, ele transcende o psíquico, o emocional e o físico.
Hermann tinha o dom de dar aos seus romances climas extasiantes, tendo inebriantes momentos de absorção completa naquele mundo. Quando lemos o Lobo da Estepe somos jogados dentro de um mundo confuso de um homem acima dos cinqüenta anos, um solitário e triste homem, que vê em si mesmo um homem maduro e racional mas também um Lobo de instintos e selvageria. Nessa dicotomia se descobre muito mais que dois, vê-se repartido em milhares de Harry (nome do personagem principal), e ingressa numa jornada mágica de auto-descoberta, ajudado por pessoas que aparecem em sua vida num momento crucial.
Hermínia é a grande Beatriz da personagem, e Pablo, provavelmente, o Virgílio. Jogam o homem-lobo para situações que ele evitaria, mas se dispõe a enfrentar medos que aos olhos de muitos pareceriam bobos, mas não a ele, não ao lobo solitário nem ao homem nada sociável.
Harry descobre haver alegria ainda, descobre sobre o teatro da loucura, sem razão, que é tudo que lhe envolve. Num misticismo cheio de voluptuosidade e frenesi, dignos de Macário, Harry completa sua jornada pelas portas de sua vida, e entende a verdade em si, ou de si, ou do mundo, enfim… isso é algo que o leitor deve concluir por si, eu mesmo não tirei conclusões. Talvez me falte maturidade ainda para me conhecer dentro dos meus próprios corredores psíquicos, ou anímicos. O que me torna ainda apenas um homem e um lobo.
Teatro Mágico: entrada só para loucos.
Enquanto isso, continuo tentando barganhar meu ingresso pra esse espetáculo.