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Foco e Sabedoria
1“- Quando alguém procura muito — explicou Sidarta — pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma
meta, Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não
enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.
(…)
- Olha, meu querido Govinda, entre as idéias que se me descortinaram encontra-se esta: A sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará
a tolice.
— Estás brincando? — perguntou Govinda.
— Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la.” (Sidarta – Hermann Hesse)

Senta que lá vem história.
PARTE 1
Esse diálogo, cortado muito pela metade, está nos últimos capítulos do livro Sidarta do Hermann Hesse. Sidarta explica a Govinda, com muito bom gosto, do que se sucede quando um homem procura demasiadamente algo, quando se torna cego, fanático, e, assim, simplesmente se fecha ao que lhe está em volta.
Pode parecer bastante auto-ajuda, mas na verdade, acho que é muito mais pra psicologia isso. Nós não somos capazes de captar muitas informações, ao menos não tantas quanto gostaríamos de ser capazes.
Por exemplo, memorize cinco palavras e as procure numa lista gigantesca de outras palavras. Infelizmente, você notara que estará propenso a dar mais atenção a uma ou outra palavra como principal nessa busca e só depois de encontrá-la que você irá adiante, dando mais ênfase à outra.
Não somos tão multitarefa assim, creio que não rodamos num processador core 2 duo.
Um atleta não fica pensando em cada jogada que vai fazer com uma precisão milimétrica, ele não fecha os olhos para o que há em volta no campo para poder fazer um único drible que, provavelmente, não terá a oportunidade de conseguir. Não, um jogador está aberto e atento às oportunidades singulares e temporais que a situação lhe propicia, e assim, esquecendo de uma lógica, apenas encontrando uma maneira de realizar o feito, ele vai lá e faz.
Nossa vida deveria ser mais assim (ao menos no que diz respeito ao âmbito psicológico ou espiritual ou anímico ou como preferir). Gastamos energia, tempo, dinheiro, saúde e tudo que temos buscando coisas que talvez, e nada mais do que talvez, sejam, de fato, da nossa mais íntima vontade. Quando teimamos assim, nos fechamos a oportunidades inesperadas, não estamos mais dispostos aos imprevistos, aos “acasos”, as surpresas, boas ou ruins ou neutras, que a “vida” nos oferece.

PARTE 2
Certa vez (ou mais de uma) escrevi acerca da sabedoria e da inteligência, de suas diferenças. Pois bem, não sou, obviamente, um sábio, fico longe disso ainda, mas entendo que toda sabedoria é quase incomunicável.
Temos capacidade de comunicar conhecimentos, ainda que de maneira parcial, pois esbarramos, primeiramente, na barreira das palavras/comunicação e, depois, na da compreensão/idiossincrasia alheia.
Pois bem, digamos que comunicamos da forma mais articulada possível um conhecimento essencial para outra pessoa. Se ela não viveu aquilo que tentamos comunicar, não importa quão boa possa ser sua capacidade cognitiva, ela não terá um conhecimento total da experiência, perderá a essência num labirinto de imaginados “talvezes” e “porvires”.
O conhecimento total de uma ideia pode ser, quem sabe, chamado de sabedoria.
Um Buda não lhe faria conhecer o Nirvana apenas comunicando os métodos, sensações e aparências da experiência.
Palavras não podem ser cheiradas, não têm cor, não pesam, não tem arestas nem sabor. Palavras não possuem sabedoria, apenas carregam conhecimento.
A sabedoria nunca foi encontrada aqui, nunca será encontrada, embora aqui esteja contida. Cabe a nós apenas pegar essas palavras, transformá-las em conhecimento, amadurecê-las e fazer delas sabedoria.
Urgente, pois que vejo um mundo de pessoas transbordando de ignorância.
Sidarta e a roda da vida
1“Veio-lhe à memória que perante Kamala gabara-se de saber realizar três coisas, de dominar três artes, nobres, insuperáveis: jejuar, esperar e pensar. Isso representava tudo que então possuía. Servira-lhe de esteio sólido. Dera-lhe força e poder. Nos anos duros, laboriosos, de sua juventude, Sidarta assimilara essas três artes, só elas. Mas depois as perdera. A essa altura nenhuma delas pertencia-lhe: nem a arte de jejuar, nem a de esperar nem a de pensar.” (Sidarta – Hermnann Hesse)

Esse é um trecho do livro Sidarta do autor alemão Hermann Hesse. O personagem Sidarta era, quando novo um brâmane, estudioso, aplicado e único na inteligência e espiritualidade, porém, insatisfeito com o que a erudição lhe dava, ou melhor, com o que ela não lhe dava, pois seu coração continuava sedento, nele ainda morava um vazio opressor, Sidarta foi ter, então, com os samanas, monges peregrinos.
Sidarta já era um rapaz quando se juntou aos samanas, deles aprendeu muitos truques, meditações, habilidades e, com eles, obteve inúmeros transes e insights; contudo, o jovem Sidarta continuava sedento e vazio.
Gotama, o Buda da história, é encontrado por Sidarta quando este decide deixar os samanas. Sidarta conversa brevemente com o Buda e entende que, apesar da doutrina de Gotama ser perfeita, ele não deve seguir doutrina alguma, pois que sua maior busca é a si mesmo.
É nessa busca incessante que Sidarta, de certa forma, se perde pelas vilanias do jogo, da avareza, do dinheiro e do sansara. Assim, no trecho citado acima, o já não tão novo Sidarta, agora beirando os 40 anos, resolve se desfazer das riquezas acumuladas nos “anos de desvio”, sentindo profundo asco de si mesmo.
Numa epifania, percebe que, de algum jeito, estava aprendendo seu caminho, ali entende que já não era mais o Sidarta do passado, mas ainda era Sidarta, reconhecia-se não sendo ele mesmo.
A rápida compreensão de que já não sabia mais as principais artes que o constituíam o faz, de certa forma, sentir-se bem. Aí entra a história toda: a mudança.
Somos assim, nossa vida passa enquanto reclamamos, enquanto cansamos, enquanto brigamos com coisas que não podemos mudar. Nesse emaranhado de emoções conturbadas, perturbadas, nessa entropia que vai aumentando em nossa mente, esquecemos de aprender, de observar, de pensar.
Eu também soube, um dia, jejuar (não tanto quanto o personagem), soube esperar e soube pensar. Hoje não domino mais essas artes.
Aprendemos e desaprendemos tantas coisas. Não me refiro apenas às matérias do colégio que nunca mais usamos, quero me referir ao jeito que fomos. Muitos de nós aprenderam a ser rápidos e responsáveis, mas desaprendemos a calma e o relaxamento. Criamos vínculos com coisas desnecessárias e não sabemos mais cortar essas raízes; desvinculamo-nos de coisas boas e nos importamos demais.
Logo depois, Sidarta “escuta” o rio, entende que, como o rio – que não tem passado nem futuro, pois está na sua fonte, na sua foz, no estreito, na balsa, nas cataratas, e tudo no único momento presente -, nós também somos um único ser, com sombras do passado e do futuro, somos o ido e o porvir, porém, o somos somente agora.
Eu já não sei jejuar, nem esperar, tampouco sei pensar como antes. Agora, espero que a vida me ensine a “escutar” o rio, entender da roda da vida e das ilusões do mundo das configurações.
Releitura
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Tá, eu elogiei bastante esses dias dois best-sellers aqui no blog.
Ta, eu sei que daqui um tempo eles deixarão de ser best-sellers e poderão ser lidos e criticados com mais imparcialidade.
Não quero desdizer o que disse, não quero me retratar. Aliás, reitero, A Menina Que Roubava Livros e O Guardião de Memórias são dois livros excelentes.
No entanto, sinto falta de um livro intenso do lado de dentro, que nos pegue pela alma. Que pegue nossa alma como quem pega um pano sujo do chão e vai lavando, e vai mostrando de que que é cada mancha que está sendo retirada e vá além, que nos mostre a água suja no balde e diga “viu só tudo que saiu”, só não diz um “e ainda tem mais” por ser orgulhoso de si mesmo, o livro.
Sinto falta de nunca ter lido Demian, Sidharta e O Lobo da Estepe do Hermann Hesse, de nunca ter lido A Insustentável Leveza do Ser e A Brincadeira do Milan Kundera, de nunca ter lido Assim Falou Zaratustra do Nietzsche. Sinto muita falta de quando não tinha lido esses e muitos outros livros bons (que nos pegam pela alma).
Sinto falta de quando eram alheio a essas palavras porque eu podia lê-las como quem lê a si mesmo pela primeira vez, como quem tem uma janela aberta para o horizonte pela primeira vez, como quem acorda de um sonho… pela primeira vez.
Ter o inédito em nossas vidas é tão valioso que se torna, ao menos para mim, insustentável seguir sem buscar uma coisa nova. Por isso não sossego com autores e bandas, vou fuçando até encontrar algo novo e bom.
Vou me tornando um poço de cultura inútil pra minha área de atuação profissional, mas não tem muita importância, isso é m hobby, é por prazer (ou por amor?).
Porém, sinto falta de nunca ter lido esses livros supracitados, acima de tudo (creio eu), por ter sido ignorante sobre as sujeiras do pano.
Fragmentos – Gertrud (II)
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HESSE, Hermann. Gertrud. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
“E nisso ocorreu-me uma sentença de Muoth que repeti ao meu pai. Muoth dissera, certa vez, se bem que não a sério, que considerava a juventude como o período mais difícil da existência, e que achava que as pessoas idosas são, nas mais das vezes, muito mais alegres e contentes do que os jovens. Meu pai riu e depois, pensativo, opinou:
- Nós, velhos, dizemos o contrário, naturalmente. Nem por isso o teu amigo deixou de acertar com uma parte da verdade. Eu penso que, na vida, e possível estabelecer-se um limite preciso entre a juventudo e a velhice. A juventude acaba quando acaba o egoísmo, a velhice começa quando se começa a viver para os outros. Entendo isso do seguinte modo: os jovens têm, em sua vida, muitos prazeres e muitos sofrimentos, porque vivem somente para si mesmos. Então, todo o desejo e toda a idéia que vêm à cabeça são importantes, saboreia-se todo o prazer ou amarga-se todo o sofrimento, até o fim, e há mesmo quem, não julgando seus desejos realizáveis, atire a vida fora. Isso é próprio da juventude. Para a maioria dos homens, no entanto, chega um tempo em que essa atitude muda e em que passam a viver mais para os outros, não por virtude, em absoluto, mas muito naturalmente. Com a maioria, é a família que o determina. A pessoa, quando tem filhos, pensa menos em si e nos seus desejos. Outros, perdem o egoísmo em prol de um cargo, da política, da arte ou da ciência. A juventude quer divertir-se, a velhice, trabalhar. Ninguém se casa só para ter filhos, mas, uma vez que os tem, eles o modificam e, no fim, ele percebe que tudo, com efeito, acontecera somente em função deles. Isso prende-se ao fato de que a juventude, sem dúvida, gosta de falar da morte, mas nunca pensa nela. Com os velhos, dá-se o contrário. Os jovens julgam que vão viver eternamente; daí, poderem reportar a si mesmos todos os seus desejos e pensamentos. Ao contrário, os velhos já perceberam que, num ponto qualquer, existe um fim e que tudo o que alguém tem ou faz só para si mesmo, acaba por cair no vazio e por ter acontecido em vão. Assim, necessitam de outra eternidade, bem como da crença de que não estão trabalhando unicamente para os vermes. Para isso existem mulher e filhos, atividades e cargos e pátria: para saber-se por quem é, afinal de contas, que suportamos a lida e o desgaste e as aflições cotidianas. Nesse ponto, o teu amigo tem toda a razão: a pessoa está mais contente quando vive para os outros do que quando vive para si própria. Só que os velhos não deveriam fazer tanto alarde disso, como de uma sorte de heroísmo, que não é. E, ainda, verifica-se que os melhores dentre os velhos provêm dos jovens mais vivos e não daqueles que já se portaram como avôs nos bancos da escola.”
da tônica
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À caminho de casa eu me perdi, então sentei sob toldo nenhum, sobre pedra alguma, e comecei a pensar: quem mesmo?
Lembro que nasci em Cruz Alta – RS, depois eu esqueci, agora estou em Santa Maria – RS. Mas quem mesmo?
Fui bastante, hoje sou muito, mas muito pouco. Ainda assim, pra preencher o bastante que fui, me encho de nadas.
Um dia estudei leis, mas me enjoei (ou enojei?). Hoje curso Engenharia Química, mas como nada satisfaz também canto e toco guitarra e violão, mas como nada satisfaz eu leio.
Das leituras: Hermann Hesse, Milan Kundera, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Amós Oz, Friederich Nietzsche, Aleyster Crowley, Israel Regardie, etc.
Das músicas: Dream Theater, Pain of Salvation, Opeth, Pink Floyd, Led Zeppelin, Angra, Nightwish, Metallica, Yngwie Malmsteen, e outras coisas, até mesmo pop rock nacional.
Agora que o tempo secou, vou tentar achar o caminho de novo.
Mas… quem mesmo?