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Poesia suja

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Essa poesia branca e limpinha já não é a alma;

Essa poesia, cosida em um tapete de algodão branco,

Que se escorre, viscosa, por dedos magros

Não tem mais cheiro de espírito, somente de fantasia.

Essas nuvens alvas, redondas, que cobrem meio sol;

Essas aves que voam um vôo perfeito… são só imagens,

São escarros da nossa consciência,

São escape da nossa inocente inabilidade de ver.

Essa poesia que se enche de louros e outros ouros,

Essa poesia que, garbosa, vem bater na face da realidade

Não tem força, é muito menos real que um vômito de enjôo de uma viagem no mar.

Não existe métrica na fome, não existe rima na guerra.

Não existe leveza no mundo, senão nessa poesia branca e limpinha

Nessas palavras de poetas mentirosos.

O lado escuro da vida

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A gente logo cansa daquele cheirinho de limpo

De jasmim e flores do campo, do artificial e do disfarce

Quero mais o cheiro pesado dessas consciências

Que ora fedem álcool e cigarro, ora fedem ressaca e fritura

Logo se torna cansativo o falar baixo e educado

Depois busca-se um linguajar de pensamentos desconexos e perdidos

Deixados em algum lugar entre a guerra e a ganância

Entre a fome e a fama

Entre o jasmim e o bar

E dessas ideias tão mais mal cheirosas percebe-se a profundidade

Como um hálito de jejum, profundo e denso

Ancorado pela boca de saliva espessa

A gente logo cansa desse mundo de luz tratada e voz tunada

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