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Parte Sétima

3

              O cansaço era grande, mas fiquei supreso ao perceber que logo depois que decolamos a Bê já estava dormindo. Parecia tranquila. Enquanto a viagem tomava ares de suspense para mim, o que parecia um simples ir, como se no caminho tudo fosse se esclarecendo, agora parecia que eu remava num oceano viscoso, gelatinoso, e que a noite ia caindo cada vez mais densa.

                Contudo, foi bom que ela estivesse dormindo, pude abrir o pacote com calma e uma certa privacidade. Havia ali um baralho do Tarô de Thot, desenhado pela Frieda sob orientação do Crowley, as lâminas eram grandes e de cores vivas, ele estava envolvido num tecido aveludado preto. Havia alguns textos de instrução interna e rituais da Ordem, bem como alguns exercícios de meditação e uma carta de um Adeptus Major.

                Na carta havia uma frieza enorme, nenhum tipo de encorajamento, congratulações, nada disso, e logo me repreendi por ter expectativas desse tipo, não deveria esperar nenhum elogio nem repreensão, ainda que esta última servisse bem. Com a roupagem thelêmica, a Ordem deixava seus membros relativamente livres sobre seus próprios caminhos. O irmão que escrevia assinava sob o pseudônimo de A., e dizia diretamente acerca de um irmão que estava há cerca de oito anos naquele templo para o qual eu me dirigia, me dava instruções de como me apresentar a ele e de como proceder para receber a iniciação nos mistérios que aquele homem guardava. Sentia meus dedos formigarem enquanto segurava aquelas folhas, parecia surreal, como poderiam saber sobre meus rumos? Parecia que cada passo meu era vigiado, e isso tirava de mim o conceito de que eu era vigiado unicamente por meu Ser Interno, e somente a Ele prestava contas.

                Ainda assim, senti que estava caminhando na direção correta. A carta era incisiva no que dizia respeito às práticas e às meditações, citava as que eu deveria realizar obrigatoriamente, e que eu poderia modificá-las de acordo com a minha Verdadeira Vontade.

                Fechei os textos numa pasta, guardei tudo na minha mochila e lembrei que precisava de uma caneta e um bloquinho de anotações.

                Naquele vôo dormi e sonhei. Eu estava dentro de um templo da Golden Dawn, a luz era fraca, os irmãos vestidos com seus robes dos seus respectivos graus e cargos, quem presidia a cerimônia era uma mulher, mas eu não via seu rosto, que estava sob a sombra de um capuz. O sonho era repleto de sinestesia, haviam luzes cruzando o ar como névoas coloridas saindo das cabeças das pessoas, das mãos, dos peitos e também dos símbolos. Eu estava em pé, de frente para um altar, com uma cruz equilátera que tinha uma rosa no centro, um cálice, um pedaço circular de madeira com algumas inscrições e uma adaga. Depois, sem um link objetivo, me vi numa cripta, meio oval, apertada e silenciosa, havia um caixão ali, ao me aproximar vi a minha imagem, mas não sentia como se fosse eu, ainda assim o choque foi grande, e acordei com a voz da comissária avisando que estávamos prestes a pousar em Córdova.

                  A riqueza dos detalhes do sonho me deram a impressão de que tudo fora real, fiquei com essa sensação o resto da noite. Quando desembarcamos eu me sentia mais cansado do que antes, sugeri que fôssemos para um hotel passar a noite.

                Pedimos ajuda para o próprio hermano taxista para que nos deixasse em um hotel bom, porém, não muito caro. Ele nos levou ao Grand Astoria Hotel. Os preços não eram tão suaves assim, mas depois de um pouco de choro, conseguimos um quarto de casal por R$110,00. Peguei a chave do quarto enquanto a Bê olhava uns jornais numa mesa ali perto. Fomos para o quarto, largamos nossas coisas no chão e tomamos banho. Enquanto a Bê saía do banho eu me vestia. O quarto tinha calefação, estava quente, então fiquei apenas de bermuda.

                O domingo amanheceu com sol, via a claridade passando pela cortina. A Bê acabara de levantar, sua pele era bege, não muito clara, porém, bastante suave. Ela não viu que eu havia acordado e foi ao banheiro. Eu me levantei para olhar pela janela e afastar os pensamentos do sonho que ainda me afetava e arrefecer os hormônios que se acumulam no corpo do homem enquanto dorme. Já era nove e quinze da manhã.

 

[Veja também: Válvula de Escape]

Parte Sexta

3

                Era um olhar intenso, porém, desprovido de qualquer intenção perceptível, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.

                Algo me atraía naquela mulher, não era propriamente a beleza dela, pois que ela não era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabeça. Minha atenção era para sua expressão, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mistério pedindo para ser revelado. Nessa atração incoerente eu me vi perdido. A Bê me olhou, pois havia diminuído o passo.

                – Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.

                – Como assim? Ela respondeu, com um misto de espanto e graça, e continuou, agora mais convicta de que eu estava apenas brincando. E o que tu vais dizer pra ela? Vais, por acaso, cantar a mulher aqui? Eu fico esperando, não tem problema. E riu.

                – Não sei o que dizer. E não, eu não vou cantar ela.

                Já estávamos quase em frente a ela quando a Bê parou. Eu dei mais três passos e parei bem na frente da mulher, que se levantou, me olhou fixo por alguns breves segundos que pareceram cheios de significado. Seus olhos perspicazes analisaram minha fisionomia rápida e friamente, eu o percebi como se fossem revirados meus pensamentos e idéias.

                – Marta. E o seu?

                – Daniel. Respondi com calma na voz, mas com a respiração um pouco nervosa, nesse momento nem percebi o sotaque gaúcho dela, que não era correntina, como descobri horas depois.

A Bê estava olhando.

                – Eu sei da estranheza da situação, vir a me encontrar aqui, assim, quase por acaso. Uma pausa na fala dela, e uma pausa em mim mesmo, estava suspenso  e confuso. Se você perdeu sua visão, você não tropeça em alguma coisa uma vez só, mas continuaria tropeçando de novo até recobrar o sentido perdido. Deve conhecer essa frase.

                – Sim, é de um comentário do Crowley aos probacionistas da Golden Dawn.

                – Pois bem, até então você tropeçou, vem tropeçando há tempos, e agora conseguiu assumir a responsabilidade de se encarar. A Ordem se move por modos sutis, e nesse mundo de câmeras e internet e informação, ficava fácil rastrear nossos membros. Pois bem, foi-me dado isto para lhe entregar, e espero que seja útil.

                Recebi nas mãos o embrulho, leve, provavelmente algumas cartas, rituais, não sei, não quis abri-lo ali. A Bê estava quase ao meu lado já, e observava Marta com curiosidade, e esta também lhe voltou os olhos. Como eu estava nervoso, a Bê parece ter assumido minhas palavras e convidou a Marta para ir a algum restaurante, ou bar, acrescentou que já sentia fome novamente e seria ótimo ter uma companhia para nós dois.

                Fomos até um um bar ali perto, bem bonito, com mesas e cadeiras de aço na calçada, mas devido ao vento gelado resolvemos entrar. Ficamos numa mesa perto do janelão de vidro, de frente pra rua. Pedimos uma cerveja e uma porção de filé.

                Eu tinha a impressão de já conhecer aquela mulher. Certamente ela era brasileira, quase tinha certeza de que era gaúcha. Eu tinha amigos thelemitas, tinha parentes em Porto Alegre, enfim, o mundo é pequeno, às vezes as coisas podem parecer incríveis mas ao se investigar um pouco a fantasia cai por terra, e a simplicidade toma conta novamente. A simplicidade é como uma Lei da Física, ondas eletromagnéticas procuram o meio mais rápido e curto para se propagar, nós, infelizmente, nem sempre seguimos tal hipótese, e isso parece incorrer em diversos contratempos e estresses psicológicos.

                Ficamos um tempo ali sentados, e eu estava dentro do pacote, sem abrí-lo. Meus olhos, meus pensamentos, por momentos insustentáveis ficaram presos naquele pacotinho, e naquele tempo esqueci de qualquer outra coisa, era como um encantamento. Ouvia apenas as vozes das duas belas mulheres comigo, e somente sexo me tiraria a atenção dessa surpresa. Marta era bonita ao seu modo, Bê era linda de vários modos, mas eu não podia pensar em sexo com nenhuma das duas, apesar de não ter visto nenhum anel de noivada ou casamento na mão da Marta.

                Finalmente me dei contade de que deveríamos sair dali, não sabia quanto tempo demoraria para ir de taxi até o aeroporto. A nossa aparição correntina nos ofereceu carona até o aeroporto, o que poupou-nos uns bons pesos argentinos. Fui no banco da frente, então entrei na conversa e deixei de lado um pouco o embrulho. Perguntei quem havia pedido a ela que me fizesse essa entrega, ela desconversou, falou de rituais, de símbolos, tudo conhecido por mim e pela Bê. Eu sabia que o que os Mestre da Ordem Interna decidissem não seria tão facilmente divulgado, logo me contentei com o que tinha até aqui. O pacote continuava fechado.

                Ao nos deixar no aeroporto me entregou um cartão, e, enquanto eu o lia, ela se despedia da minha companheira de viagem com um abraço. No cartão dizia que ela era advogada, tinha números de um escritório, de seu celular e um e-mail, além do nome completo: Marta de Souza.

                Às 23h estávamos dentro do avião, cheirando a cerveja e cigarro. Queria abrir logo aquele pacote, não sabia se devia fazê-lo sozinho ou na frente da Bê. Ficar sozinho nesse vai-e-vem seria difícil. Resolvi abrir logo depois da decolagem, antes do sono chegar.

 

[Veja Também: Válvula de Escape]

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