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Fragmentos – Gertrud (II)
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HESSE, Hermann. Gertrud. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
“E nisso ocorreu-me uma sentença de Muoth que repeti ao meu pai. Muoth dissera, certa vez, se bem que não a sério, que considerava a juventude como o período mais difícil da existência, e que achava que as pessoas idosas são, nas mais das vezes, muito mais alegres e contentes do que os jovens. Meu pai riu e depois, pensativo, opinou:
- Nós, velhos, dizemos o contrário, naturalmente. Nem por isso o teu amigo deixou de acertar com uma parte da verdade. Eu penso que, na vida, e possível estabelecer-se um limite preciso entre a juventudo e a velhice. A juventude acaba quando acaba o egoísmo, a velhice começa quando se começa a viver para os outros. Entendo isso do seguinte modo: os jovens têm, em sua vida, muitos prazeres e muitos sofrimentos, porque vivem somente para si mesmos. Então, todo o desejo e toda a idéia que vêm à cabeça são importantes, saboreia-se todo o prazer ou amarga-se todo o sofrimento, até o fim, e há mesmo quem, não julgando seus desejos realizáveis, atire a vida fora. Isso é próprio da juventude. Para a maioria dos homens, no entanto, chega um tempo em que essa atitude muda e em que passam a viver mais para os outros, não por virtude, em absoluto, mas muito naturalmente. Com a maioria, é a família que o determina. A pessoa, quando tem filhos, pensa menos em si e nos seus desejos. Outros, perdem o egoísmo em prol de um cargo, da política, da arte ou da ciência. A juventude quer divertir-se, a velhice, trabalhar. Ninguém se casa só para ter filhos, mas, uma vez que os tem, eles o modificam e, no fim, ele percebe que tudo, com efeito, acontecera somente em função deles. Isso prende-se ao fato de que a juventude, sem dúvida, gosta de falar da morte, mas nunca pensa nela. Com os velhos, dá-se o contrário. Os jovens julgam que vão viver eternamente; daí, poderem reportar a si mesmos todos os seus desejos e pensamentos. Ao contrário, os velhos já perceberam que, num ponto qualquer, existe um fim e que tudo o que alguém tem ou faz só para si mesmo, acaba por cair no vazio e por ter acontecido em vão. Assim, necessitam de outra eternidade, bem como da crença de que não estão trabalhando unicamente para os vermes. Para isso existem mulher e filhos, atividades e cargos e pátria: para saber-se por quem é, afinal de contas, que suportamos a lida e o desgaste e as aflições cotidianas. Nesse ponto, o teu amigo tem toda a razão: a pessoa está mais contente quando vive para os outros do que quando vive para si própria. Só que os velhos não deveriam fazer tanto alarde disso, como de uma sorte de heroísmo, que não é. E, ainda, verifica-se que os melhores dentre os velhos provêm dos jovens mais vivos e não daqueles que já se portaram como avôs nos bancos da escola.”
Fragmentos de Gertrud
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HESSE, Hermann. Gertrud. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
“Afinal de contas, é insensato indagar assim da felicidade ou infelicidade, pois penso que mais dificilmente renunciaria aos dias infelizes da minha vida do que aos alegres”
“O que um homem é para si e o que vive interiormente, de que maneira se torna outro e cresce e adoece e morre, tudo isso é inenarrável.”
“Acompanhei-a, penalizado, com o olhar; e, durante muito tempo, não me livrei mais daquela visão. Seria eu, deveras, um ser inteiramente diferente de todos eles, de Marion, de Lotte, de Muoth? E aquilo seria, realmente, amor? Eu as via todas, essas criaturas de paixão, cambalear como arrastadas pelas tormentas e flutuarem no desconhecido: o homem, torturado, hoje, pelo desejo, amanhã, pelo fastio, amado sombriamente e rompendo brutalmente, inseguro de qualquer inclinação, descontente com qualquer amor; e as mulheres, arrebatadas, suportando ofensas e pancadas, por fim enxotadas e, contudo, ainda agarradas a ele, aviltadas pelo ciúme e pelo amor repelido, numa fidelidade canina. Naquele dia, pela primeira vez, desde muito tempo, eu chorei. Chorei lágrimas de indignação e de ira por essas criaturas, pelo meu amigo Muoth, pela vida e pelo amor; e lágrimas silenciosas e secretas por mim mesmo, que vivia em meio a tudo isso como num outro planeta, que não compreendia a vida, que ardia em sede de amor e que, no entanto, devia temê-lo.”